Desabafo de um padre sobre missas

Padre Luis Fernando
Sacerdote da Diocese de Itumbiara
Promotor vocacional, secretário para os assuntos relativos ao clero
Coordenador diocesano de liturgia

Fui seminarista por 7 anos. Já estive em vários lugares Brasil afora, já celebrei em tantos outros e guardo no meu coração uma tristeza profunda. Quando eu era criança na roça e ia com minha família à missa uma vez por mês eu sabia que naquela hóstia tinha Jesus. Eu sentia o cheiro da vela queimando e aprendi a me persignar toda vez que passava diante de uma Igreja. Eu achava tudo meio estranho porque não entendia a missa, mas, sentava no primeiro banco e respondia a todas as perguntas que o padre fazia na hora do sermão. Daí eu cresci, fomos pra cidade e eu continuava inocente. Fui para o seminário e as escamas de meus olhos caíram. A missa pela qual eu sempre nutri o maior religioso respeito

virou palco
virou show
virou passeata
virou passarela
virou camarim de estrela
virou sambódromo
virou terreiro
virou tudo e suportou tudo
e foi deixando de ser A Missa!

Já vi tanto desleixo… alfaias puídas, vasos sagrados zinabrados, hóstias consagradas carunchadas dentro do sacrário, um sacrário no meio de uma reforma de Igreja com hóstias consagradas dentro, consagração de vinho em tamanha quantidade que as sobras Eucarísticas precisaram de um exército de MESC para consumi-las porque o padre não poderia fazê-lo e outros tantos abusos. Quando veio a Redemptionis Sacramentum e a Ecclesia de Eucharistia veio uma lufada de ar fresco colocando as coisas no seu devido lugar e restituindo a Missa ao seu lugar de honra. No entanto, os rebeldes da Teologia da Libertação, da Rede Celebra e das CEB`s reagiram vorazmente. O site do mosteiro da Paz que hospedava uma carta de Reginaldo Velloso eivada de críticas às necessárias mudanças na liturgia saiu do ar, mas, encontrei-a no site da Montfort.

A reinterpretação que a missa sofreu nas décadas que sucederam o Concílio Vaticano II, muito sustentada em uma errônea atualização, seguiu as pegadas da subjetividade humana. É odioso ouvir: “ah o jeito do outro padre é diferente”. Isto denota uma personalização que a missa não comporta. A missa nunca foi a missa do padre, mas a missa da Igreja! A missa não precisa ser reinterpretada, precisa ser vivida! Não precisa ser reinventada, precisa ser compreendida! O Mistério se esvai na multiplicidade das palavras que se usam para tentar apreendê-lo e explicá-lo. É preciso vivê-lo!

Esta mentalidade impregnou tanto a liturgia que quando um Padre quer celebrar a missa da Igreja, aquela do Missal Romano, é chamado de retrógrado. O respeito às normas litúrgicas é sinônimo de opressão. A missa pura e simples foi esvaziada para poder ser enchida pela ideologia da enxada, da faixa, do cartaz, da freira, do padre, do político… a missa se transformou…

virou manifestação e protesto contra o Governo e o Sistema
contra a Igreja
contra os padres
contra a fé católica de sempre
contra a liturgia de sempre.

Enfiaram bananeiras, berrantes, espeto de churrasco, cuia de chimarrão, pão de queijo, cachaça, coco, faca e facão, pipoca, balões e ervas de cheiro na missa, enfiaram panos coloridos para todos os lados, colocaram mães de santo manuseando o turíbulo e leigos lendo preces seminus. Para muitos a missa já deixou há muito tempo de ser o sacrifício redentor de Cristo e se tornou só mais uma mesa para comensais na qual vale o discurso e não a fé, na qual o que importa é o que o homem diz aos seus iguais e não o que Deus diz ao homem. Lembro-me de um professor contando todo garboso que certa feita utilizou-se de uma Adoração ao Santíssimo Sacramento para dar uma aula de teologia ao povo – aos seus moldes é claro – porque para ele aquela hóstia era pobre de significado!

Aquela hóstia pobre…
tão pobre quanto o cocho de Belém,
tão pobre quanto a cama em Nazaré,
tão pobre quanto a casa de Pedro em Cafarnaum,
tão pobre quanto a casa de Lázaro em Betânia,
tão pobre quanto o coração do Filho de Deus!
Ela só pôde se tornar Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Cristo
porque Ele se fez pobre!
Sua pobreza não comporta reduções
tampouco acréscimos desnecessários.
Ele é aquele que é e nada mais,
mas, só para quem tem fé!

Aos meus irmãos padres um apelo: que nós diminuamos e que Ele apareça. Não somos o noivo, apenas amigos do noivo! Rezemos a missa da Igreja, a missa do Missal. Que Ele fale aos corações e às mentes, inclusive às nossas mentes e corações! Que Ele toque as vidas, inclusive as nossas. Que sua voz ecoe nas consciências, também nas nossas. Que toda a nossa Liturgia seja feita Por [causa de] Cristo, Com Cristo e em Cristo a[o] Pai na Unidade do Espírito Santo. Só isso. Se fizermos isso bem feito teremos feito tudo o que nos compete nesta vida.

A Missa deve ser o lugar onde Deus fala ao coração do homem. Hoje, quando há tantos pregadores de boa nova e quando há tantas boa novas quanto pregadores, podemos nos perguntar: O que Deus pode ainda falar ao homem contemporâneo? O homem contemporâneo ainda quer ouvir Deus? Há oito anos me faço esta pergunta e a resposta é sim, pois, pode o homem esconder-se da pergunta ineludível, mas, nunca se esconderá da necessidade de encontrar a resposta. É para o homem que tem sede de Deus que devemos, por dever de ofício, dar-lhe Deus e não nós mesmos. Dar-lhe a Boa Nova de Jesus, não nossas ideologias, dar-lhe o pão da vida e não nossos discursos vazios. O Redentor do homem é um só. Nós somos seus discípulos. Cumpramos com o nosso dever!

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por Católicos na Rede Postado em Liturgia

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