Existe voto católico?

A pergunta pode ser respondida em vários níveis.

No primeiro nível, o sociológico, a resposta é relativamente simples: se, por “voto católico” se entende a opção que os católicos manifestam nas urnas durante as eleições, é claro que existe “voto católico”, entendido simplesmente como a opção ou o “voto dos católicos”, porque baseado em suas convicções e escolhas fundamentadas naquilo em que creem.

Muito bem. Vemos também, com esta primeira resposta, que geralmente a vontade católica se dilui nas respostas dadas pelas urnas, como um dado marginal que não tem especial importância na hora de se escolher os governantes. Isso porque os votantes, segundo alguns, participam nas eleições simplesmente como cidadãos, não como católicos. Embora o nosso enfoque por aqui esteja, por motivos óbvios, concentrado na ação católica, podemos tranquilamente dizer o mesmo quanto aos protestantes ou “evangélicos”: ainda que sociologicamente possamos dizer que votaram católicos e protestantes, isto de maneira alguma se reflete nos resultados das eleições, se considerarmos que vivemos num país de confissão de esmagadora maioria cristã (aponta o IBGE que quase 90% da população brasileira, entre católicos e protestantes, se declara cristã).

Em eleições recentes, assistimos a uma brava luta da parte dos cristãos em geral na tentativa de conscientizar a população em não eleger candidatos favoráveis à legalização do aborto. Ainda assim, a candidata cujo partido traz, em seu programa de governo, o compromisso de viabilizar o aborto no Brasil (além de uma série de favorecimentos a questões contrárias à fé dos cristãos, como o incentivo à ideologia de gênero) foi eleita. Isso demonstra que a fé do povo tem um peso totalmente secundário na hora do voto.

A partir daí podemos buscar uma segunda resposta, num nível mais profundo, para o que verdadeiramente define o voto católico: consistiria este num modo de decidir sobre as diferentes possibilidades eleitorais segundo a visão que nasce a partir da própria fé católica.

Esta segunda resposta nos lança numa nova pergunta: Existe no Cristianismo, na Igreja Católica, uma doutrina que se reflita diretamente em consequências sociais, políticas e eleitorais?

Como vimos, constatamos, com perplexidade, que, no passado e no presente, cristãos dão seu voto tranquilamente a propostas políticas não só muito diferentes entre si, mas também algumas gravemente imorais. Alguns exemplos externos: na Alemanha, houve católicos que ofereceram seus votos a um partido claramente anticatólico, o nazista. Em outros países, houve e há católicos que votaram em partidos políticos que promovem o ódio de classes (socialismo ou comunismo), ou que estão a favor de um capitalismo selvagem que pisoteia os direitos dos trabalhadores, ou que se caracterizam por uma mentalidade belicosa que origina guerras injustas, ou que faltam gravemente ao respeito que merece a liberdade religiosa e de consciência, ou que fomentam a destruição da família, etc.

Diante desta situação, damo-nos conta de que o voto católico não pode ser visto simplesmente em chave sociológica, senão que a identidade própria da fé cristã deve se fazer visível e ter consequências práticas nas eleições políticas.

Um católico que vote realmente como católico, por exemplo (dos mais óbvios), tem que deixar de lado os partidos que defendem o aborto e apoiar partidos promotores dos direitos dos filhos antes de nascer. Um católico que vote como católico estará contra qualquer partido racista ou que fomente a ideologia da luta de classes.

Causa uma profunda dor descobrir que muitos católicos não chegam a compreender o nexo que existe entre a sua fé, com todas as riquezas que contém, e o seu modo de participar da vida política. Às vezes, isso ocorre porque existe pouquíssima e precária formação, e os batizados se deixam levar pela propaganda ou por ideias dominantes. Outras vezes, se dá uma autêntica prostituição da consciência, por meio da qual chega-se a ver como bom algo intrinsecamente mau e injusto. Outras vezes, existe uma atitude covarde, quando somos chamados a defender as nossas convicções e preferimos optar pelo que nos parece mais confortável, conveniente, que nos permite “ficar de bem” com o mundo, sem nos fixarmos nos princípios básicos que todo católico deveria defender na vida social. Na prática.

Frente a esta situação, é urgente a formação e preparação dos católicos, que lhes permita participar na vida política com ideias claras e convicções firmes. Não podemos ver com indiferença o fato de que existem países de maioria católica governados por partidos políticos que promovem o aborto, que atacam a família, que não garantem direitos trabalhistas, que aprovam leis que fomentam a imoralidade pública.

Existe, para os católicos, uma série de princípios irrenunciáveis a partir dos quais podem e devem avaliar os partidos políticos. Aqueles partidos que não respeitam princípios católicos simplesmente não podem ser votados pelos católicos.

Quais são esses princípios? Podemos resumi-los, a partir de um documento importante da Igreja: a “Nota doutrinal sobre algumas questões relativas ao compromisso e conduta dos católicos na vida política”, Congregação para a Doutrina da Fé, 24 de novembro de 2002, n.4), nos seguintes pontos, alguns dos quais vamos transcrever literalmente:

1. O respeito à vida, também dos embriões humanos, e a clara oposição ao aborto e à eutanásia.

2. A tutela e a promoção da família, fundada no matrimônio monogâmico entre pessoas de sexo oposto e protegida em sua unidade e estabilidade, frente às leis modernas sobre o divórcio.

3. A liberdade dos pais na educação de seus filhos é um direito inalienável, reconhecido nas Declarações Internacionais dos Direitos Humanos.

4. A tutela social dos menores e a libertação das vitimas das modernas formas de escravidão.

5. O direito à liberdade religiosa.

6. O desenvolvimento de uma economia que esteja a serviço da pessoa e do bem comum, respeitando a justiça social, o princípio de solidariedade humana e de subsidiariedade, segundo o qual devem ser reconhecidos, respeitados e promovidos os direitos das pessoas, das famílias e das associações, assim como seu exercício.

7. O tema da paz, que é obra da justiça e da caridade, e que exige a recusa radical e absoluta da violência e do terrorismo, e requer um compromisso constante e vigilante da parte dos que têm a responsabilidade política.

O “voto católico” será, portanto, verdadeiramente católico se souber respeitar estes pontos essenciais para a vida social, que valem não somente para os católicos, mas para todos os homens e mulheres participantes de um Estado. São pontos, segundo diz a Nota Doutrinal antes citada (n.4), que “não admitem derrogações, exceções ou compromisso algum”. Isto é, são pontos inegociáveis, sobre os quais um verdadeiro católico não pode ceder na hora votar numa urna.

A fé, temos de ter isso presente, ilumina e permite viver mais a fundo a justiça. Um católico, nesse sentido, sente-se chamado a construir um mundo em acordo com a verdade sobre o homem e sobre a sociedade, que respeite seriamente os direitos humanos. Por isso, o seu voto será responsável: excluirá qualquer opção e partido que vá contra os princípios que acabamos de enunciar; escolherá e promoverá aquelas opções que defendam programas nos quais sejam promovidos ou ao menos respeitados.
Fonte:
http://www.autorescatolicos.org/fpascual/fernandopascual616.htm

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por Católicos na Rede Postado em Artigos

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