Deus é mais importante que a família

Rômulo Cyríaco*

É desafiador compreender a reta hierarquia de valores. Mas ela enriquece com nova luz a nossa visão sobre o sentido da vida!

Deus é mais importante que nossos pais e nossas mães.

Certamente, depois de Deus, na escala hierárquica da importância de nossas relações interpessoais, vêm nossos pais e nossas mães. Eles nos conceberam, e nossa concepção é a expressão atualizada da Grande Concepção Divina, que é Sagrada. Nossa concepção e nosso nascimento é fruto do amor de nossos pais – por mais falho e imperfeito que possa ser o amor no mundo humano, há ou havia, em algum lugar, uma expressão do Sagrado Amor de Deus, da Vida, em nossos pais. É preciso reconhecer e abençoar isso.

Mas lembremos daquela primeira frase: Deus é mais importante que nossos pais e nossas mães. São diversas as passagens, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, em que a Bíblia Sagrada nos dá esse testemunho. Em parte alguma a Bíblia Sagrada nos diz que devemos, por exemplo, obedecer à tirania de um pai tirano, ou nos adaptarmos à preguiça e à negligência de pais preguiçosos e negligentes. Pelo contrário, a Bíblia nos diz da importância de que haja o respeito e o amor mútuos, de filho para pai e de pai para filho (assim como da mulher para o homem, e do homem para a mulher).

“Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. E ele converterá os corações dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição” (Malaquias 4,5-6).

Não apenas converter os corações dos filhos a seus pais… mas também os dos pais a seus filhos, para que os vejam e reconheçam também as suas necessidades.

Deus está interessado, não numa postura submissa e subserviente de filhos para com seus pais, independente do tratamento que recebem destes; muito menos Deus estaria interessado numa postura autoritária e opressora, ou então limitadora e constrangedora, dos pais para com seus filhos: estes desejos estariam mais alinhados com os desejos distorcidos da família humana mantenedora do Pecado Original.

A partir do que disseram todos os profetas, Deus mostra-se mais interessado, de maneira simples – mas com consequências imensas para a vida – na convivência amorosa, generosa e livre entre todos os seres humanos, pais e filhos incluídos.

Quanto aos filhos, seguindo os exemplos acima, sua resposta jamais deveria ser a tirania (contra o pai tirano), ou a preguiça e a negligência (contra os pais preguiçosos e negligentes). A vida Cristã clama por respostas que acompanhem a misericórdia transformadora e geradora de saúde, que vem de Deus, mesmo no meio de um caos epidêmico; e jamais a adaptação a um estado de coisas doente que se apresenta. (Responder no mesmo nível, ou de forma reativa – e não transformadora – estaria mais de acordo com os desejos e estratégias do anjo caído, para a vida humana).

Pais e mães são muito importantes, mas também o são seus filhos, e a intervenção divina na relação de pais e mães e seus filhos certamente gerará posturas acolhedoras e misericordiosas, amorosas e generosas, de ambos os lados.

O discurso da obediência aos pais ou ao pai, independente do tratamento destes aos seus filhos, quando tenta se sustentar na palavra de Deus, na Sagrada Escritura, nada mais é do que uma distorção social e histórica de mensagens que, na Bíblia, dizem respeito à relação da espécie humana (em geral, arrogante) com seu Criador.

Mas nossos pais, humanos como nós, não são deuses. Assim como nossos filhos, humanos como nós, tampouco são deuses. Se um destes se comporta como tal, trata-se apenas da velha arrogância humana que remete aos tempos dos Jardins do Éden, homem este que não percebeu ainda que Deus é apenas Um – e que o mais saudável seria se esse Um, com sua força plena de amor, generosidade e liberdade, se manifestasse sempre, a todo instante, em nossas relações.

A liberdade, nesse caso, é algo importante para se pensar. Deus dá tanta Liberdade aos homens que Ele mesmo criou, que não os obriga a escolher a Deus: a espécie humana tem o livre arbítrio e, mesmo hoje, continua majoritariamente optando por uma vida cortada do contato com Deus.

Na vida e nas relações humanas, encontramos posturas que são antidivinas também por tentarem limitar a liberdade do outro em relação a suas próprias vidas e a nós mesmos. O amor e a generosidade, se apenas está esperando ganhar algo, ou se oprime o outro no movimento de amar e de dar, não é um puro e divino amar e dar, pois, Ele, ama e dá ao mesmo tempo deixando o outro em sua plena liberdade. O amor e o movimento de dar que se dissociam da liberdade, perdem a plena qualidade divina.

Portanto, Deus é mais importante que nossos pais e nossas mães. Deus é também mais importante que nossos filhos. Pois apenas com a intervenção direta das qualidades inerentes de Deus, que existem ao menos como Potencial em toda a Criação Divina, é que as relações de pais, mães e filhos podem ser verdadeiras, concretas e plenas. Sem opressão, mas com um dar-receber pleno e livre.

Duas passagens do Novo Testamento reforçam essa percepção a partir de palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Disse-lhe alguém, Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e procuram falar contigo. Ele porém, respondeu ao que lhe falava, Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Pois qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mateus 12,47-50).

“E, aproximando-se um escriba, disse-lhe: Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores. Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Jesus, porém, respondeu-lhe: Segue-me, e deixa os mortos sepultarem os seus próprios mortos.” (Mateus, 8,19-22). Pois o reino de Deus é um reino Vivo, um reino de Vida. Atrasar (mesmo que por um pequeno instante) nossa entrega à Vida, ao Deus da Vida, para ainda se ocupar com o que está morto – no caso do trecho bíblico, mesmo que a morte esteja no seio da própria família – pode ser a perda de uma oportunidade única, a oportunidade única que é a própria Vida. Os mortos que se ocupem com seus mortos. A responsabilidade dos Vivos é a de estarem prontos para seguirem o Reino da Vida a qualquer momento.

“E um outro disse também, Senhor, eu te seguirei: mas deixe-me primeiro ir dizer adeus àqueles que estão no meu lar, na minha casa. E Jesus disse a este: Nenhum homem, tendo posto a mão no arado, mas ainda olhando pra trás, está pronto para o reino de Deus” (Lucas 9,61-62).

Enquanto se olhar para Deus pela ótica da família tipicamente humana, com esta em primeiro lugar, a nada se poderá corrigir… É preciso mesmo estar pronto para deixar a própria família, se for preciso, para adentrar o Reino de Deus sem olhar para trás. Uma vez no reino, aí sim, a família poderá ser vista pelos olhos corretos, corrigidos pela luz divina, com amor, generosidade e liberdade plenos.

Vale observar com atenção, também, através da leitura dos evangelhos, a maneira como se relaciona, entre si, a Sagrada Família. Maria, José e Jesus. Como Maria e José oferecem ao menino Jesus um cuidado e uma proteção que é de emocionar, porque são serenos, completos e com plena entrega amorosa, mas ao mesmo tempo reconhecem que há um Pai maior – que é, muito mais do que biológico, Espiritual – que clama que a missão de Jesus se conclua no mundo, mundo a fora, com tudo o que ela tem de arriscado e intenso, com toda a alegria e mesmo com todo o sofrimento.

Todos nós, como Jesus, somos chamados para uma missão plena no mundo: se atualizamos, em nossas relações familiares, o modo relacional da Sagrada Família, mais provável será que nossas missões, e dos nossos filhos, serão de fato plenas.

Jesus também oferece cuidado e proteção à sua família, como quando, na cruz, pede a João que tenha Maria como mãe, e que, assim, cuide dela até o fim: o cuidado com a família terrena é incluído, então, numa missão que ultrapassa o domínio desta mesma família.

A verdadeira Santa Família reconhece a superioridade de Deus, e aposta em Sua expansão no mundo.

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*Diretor, escritor e crítico, graduado em Cinema, pós-graduado em Filosofia da Arte. Realizou quatro curtas-metragens, entre eles Paris, Minas (2008), La Saidèrre (2102) e o mais recente Pacto de Cerva (em finalização), inspirado em Fellini e Jacques Tati. É também diretor, roteirista e editor de vídeos (experimentais, institucionais e clipes). Autor dos livros Plano Detalhe (contos, 2010) e Os 1001 Pesadelos (romance experimental, a ser publicado). Em monografias, trabalhou as obras dos diretores Douglas Sirk e David Cronenberg. É autor do artigo “Tudo o que o melodrama permite”, publicado no livro Imaginários de Cinema (2011).

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por Católicos na Rede Postado em Família

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