Família: para onde vais?

Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre/RS

Papa Francisco, em sua recente exortação apostólica “Amoris Laetitia”, apresenta o ensinamento da Igreja Católica sobre o matrimônio. Diante de distintas e, por vezes, contraditórias discussões sobre o amor na família, as indicações oferecidas pelo Papa certamente haverão de favorecer o debate em torno de questões controversas como as que envolvem a ética matrimonial e sexual.

O documento apresenta um vigoroso convite para que os seguidores do Crucificado-Ressuscitado se empenhem por viver uma vida de amor no serviço a Deus, ao cônjuge, à possível descendência, aos demais seres humanos e à casa comum. Deus apresenta ao ser humano de todos os tempos um projeto de vida. Ao mesmo tempo, Sua misericórdia se mostra infinita quando a resposta humana à proposta não é suficiente.

Em tempos de “mudança de época”, se fazem necessários bom senso, sensibilidade, discernimento para promover a dignidade familiar e compreender a tarefa característica da instituição família e seu lugar no seio da sociedade.
O futuro do mundo e da sociedade depende do bem da família. A mudança antropológico-cultural apresenta, no entanto, desafios que levam à reflexão e ao debate e, consequentemente, instiga as instâncias da sociedade que têm o dever de favorecer a sã convivência de todos.

O individualismo, o ritmo atual de vida, o estresse, a dinâmica social, a organização e as relações de trabalho dificultam opções permanentes e definitivas. Isto se reflete na vida familiar! Vínculos pessoais e familiares tornam-se voláteis. A estabilidade das relações humanas cede lugar a conveniências e caprichos da sensibilidade. A possibilidade de um relacionamento definitivo é vista como empecilho diante de outras possíveis aspirações pessoais.

Frente à complexidade do momento histórico, a Igreja não pode se deixar conduzir por opiniões e ideologias de todo tipo, por modas ou sensibilidades estranhas à tradição cultural. Calar significaria privar a sociedade de valores que a Igreja pode e deve oferecer.

Através de suas manifestações públicas, a Igreja deseja cooperar para formar consciências. De modo algum ela pode substituí-las, nem o pretende!

Encontramo-nos, por exemplo, diante de tendências que querem “impor uma afetividade sem qualquer limitação, (…) uma afetividade narcisista, instável e mutável que não ajuda os sujeitos a atingir uma maior maturidade”. E o que dizer da comercialização do corpo, da exposição da intimidade, da exacerbação do prazer pelo prazer, do desrespeito pelo feminino?
Constata-se a existência de grande variedade de situações familiares, com regras específicas. No entanto, não se pode impor a equiparação de tais situações ao matrimônio. Uniões precárias ou impedidas de transmitir a vida não garantem o futuro da sociedade. Ao contrário!

A desconstrução jurídica da família, defendida por ideologias e grupos que apregoam a autonomia exacerbada da vontade, não favorece o desenvolvimento equânime da sociedade. Existem diferença e reciprocidade naturais entre homem e mulher que não podem ser negadas. Homem e mulher são distintos! Querer impor um pensamento único como caminho para uma sociedade sadia é, no mínimo, ignorar fatos recentes da história humana que produziram não pouca dor e morte.

Não se pode jamais esquecer o lugar e a distinção da instituição família no desenvolvimento da sociedade humana. “A força da família reside essencialmente na sua capacidade de amar e de ensinar a amar. Por mais ferida que uma família possa estar, ela pode sempre crescer a partir do amor.” Somente o amor é capaz de promover vida e fazer novas todas as coisas!

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