Reflexões sobre a família e seu papel educativo

Por João Marcos Viana da Costa

Em tempos de tantas confusões, de ataques velados e também descarados à autoridade da família, desde as infindas tentativas de implementação da ideologia de gênero na legislação brasileira ao recente pedido de representação[1] de um procurador do Estado do Rio Grande Do Sul declarando que “um dos primeiros objetivos da educação [escolar] é preservar os filhos de seus pais” [2], propomo-nos refletir humildemente, como simples leigo católico, um pouco sobre a Família, sobre a Educação Humana e a Educação Católica, tomando como base o ensinamento da encíclica Divini Illius Magistri[3] de Sua Santidade, o Papa Pio XI.
A encíclica papal busca responder, basicamente, quatro questões, a saber: a) quem deve educar; b) quem é o sujeito da educação; c) em qual ambiente se dará essa educação; e, d) qual é a sua finalidade e sua forma.

O texto já no seu início revela-se  assustadoramente atual. Com efeito, o papa diz: “se multiplicam os mestres de novas teorias pedagógicas, se excogitam, se propõem e discutem métodos e meios, não só para facilitar, mas também para criar uma nova educação de infalível eficácia que possa preparar as novas gerações para a suspirada felicidade terrena.” O documento todo é de uma clareza e profecia meridianas, por isso deveria ser lido, hoje, por todos católicos, sobretudo por aqueles que são ou desejam um dia serem pais de família. No entanto, nossa pretensão está muito longe de resumir a maravilhosa encíclica, gostaríamos apenas de focar nossas reflexões num único aspecto: qual é a parte da educação que cabe à família?

Primeiramente, como mostra o magistério, há três “sociedades necessárias, distintas e também unidas harmonicamente por Deus, no meio das quais nasce o homem: duas sociedades de ordem natural, que são a família e a sociedade civil; a terceira, a Igreja, de ordem sobrenatural”. A família tem precedência sobre o Estado, o seu direito à educação da prole é inviolável, como recorda o Papa Leão XIII na Rerum Novarum[4]: “o poder dos pais é de tal natureza que não pode ser nem suprimido nem absorvido pelo Estado”. Portanto, antes mesmo de debruçarmo-nos sobre a questão da educação, mais apropriado seria questionar: o que é a família cristã?

Quando os veículos midiáticos só falam dos novos “tipos” de família, quando a própria Igreja se reúne em sínodo, não para mostrar ao mundo seus erros, mas para discutir o indiscutível, é compreensível que os bravos e fiéis prelados da Igreja Católica, que tentam manter-se fiéis à Doutrina de Cristo, só consigam mesmo dizer o óbvio: que a família é a união monogâmica, indissolúvel, entre um homem e mulher, abertos à vinda da prole. E nós nos colocamos a questão: é realmente só isso?

Sim, aqui nós temos a definição da família biológica criada e desejada por Deus, porém ao meditarmos os textos das Sagradas Escrituras, da Tradição da Igreja, dos Santos Padres, e de Santo Tomás veremos que a família é o lugar onde se produz a virtude[5]; é a igreja doméstica, dizem os papas; é escola de santidade. A família é chamada a ser reflexo da Trindade Santíssima, onde o Pai ama o Filho e ambos Se amam pelo Espírito Santo.

E onde começa, qual é a origem da família cristã? Muitos se precipitariam a dizer que é como acontece em qualquer romance, que é quando um homem se apaixona por uma mulher e quer tê-la como companheira, quer ter filhos e um lar com ela. Realmente, na prática a maior parte das vezes é assim, entretanto, esse nos parece um motivo ainda muito frágil para dizer que essa família seria também cristã, além de simplesmente natural. Falta-lhe o sobrenatural que encontramos nos homens que abandonaram tudo para seguir um Antão no Deserto, para seguir um São Bento… Faltaria a uma família que assim começasse o sobrenatural que vemos em São João Cassiano quando nos conta, em suas Conferências, da procura pelos mais veneráveis abades de seu tempo. Estes homens queriam aprender o Caminho do Céu, as Escadas que nos levam e nos aproximam já nesta vida de lá; os abades queriam ensiná-lo a quem realmente fosse movido pelos mais nobres desígnios. Eram Pais sábios e Filhos diligentes. Eis o que diferencia realmente, em essência, a família cristã: a busca incessante pelo conhecimento das coisas de Deus!

Ou seja, com a família biológica deve acontecer a mesma coisa, um homem e uma mulher deveriam se unir na busca de Deus, tendo retos propósitos de aquisição de Sabedoria, Virtudes e Santidade, e, então, amando-se e auxiliando-se mutuamente, na vida de oração, de devoção e intimidade para com o Senhor, surgiria o desejo de compartilhar essa vida toda em comum e ensinar aquilo que estão aprendendo a outros: os filhos que Deus os mandar. Que belíssimo apostolado! Assim, fica claro que ambas as sociedades têm o mesmo escopo: a Igreja existe para anunciar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, santificar e salvar seus filhos; a família, igreja em miniatura, faz o mesmo.

Como o Cristo, que nutre a Sua Esposa, infundindo-lhe a Graça, de tal modo, podem os esposos católicos fazerem: crescendo na Fé, Esperança e Caridade, nutrem a si mesmos e também aos filhos. E que graça extraordinária se nutrissem os filhos não só pela força do exemplo e da retidão moral, mas também pela doutrina, pelo conhecimento da Fé, por sábios conselhos, pelo encaminhamento na vida espiritual. Assim como o Pai gera o Filho, os esposos são chamados a gerarem os filhos, não apenas fisicamente, mas são chamados a gerar, com a graça de Deus e com suas instruções, a descendência espiritual que o Cristo tanto deseja dar ao Pai.

E aqui, faz-se plausível retomar o tema de origem destas reflexões: de que maneira e até onde pode e deve a família educar sua prole? O dever dos pais para com os filhos é tão grave que a doutrina católica – infelizmente muito esquecida nesse ponto! – mostra que o pai e a mãe devem ser capazes de ter certeza moral de que seus filhos, atingindo a idade adulta, não mais perderão suas almas! Há 300 anos, em ambientes ainda não infectados pelas revoluções (seja a industrial, a francesa, ou quaisquer outras) talvez fosse possível alcançar essa certeza moral apenas passando aos filhos os bons costumes, levando-os à Igreja, enfim dando-lhes o bom exemplo. Hoje, porém, os abundantíssimos casos de pais que reclamam ter perdido os filhos após a adolescência, mostram que é verdadeiramente impossível educar um filho para o Céu sem a busca sincera por conhecimento e sabedoria. Pio XI lamentava-se tremendamente de como, já naquela época, os casais não se preparavam para a tarefa de pais, de mestres. Dedicamos anos para conquistar uma profissão, para sermos esposos e pais: um curso de noivos de dois fins de semana.

É importante perceber que nas circunstâncias atuais é impossível exigir que a Hierarquia Eclesiástica nos traga tão facilmente todo esse complexo necessário à salvação da sociedade, a crise se alastrou por toda parte do Corpo Místico de Cristo, a esmagadora maioria do clero é muitíssimo mal formada, ignora ou rejeita os verdadeiros ensinamentos da Madre Igreja, desconhecem a filosofia e teologia perenes, os bons padres são raros e muito perseguidos ou atarefados. Diante disso, parece-nos que as palavras de um santo Bispo do longínquo Cazaquistão[6] fazem-se realmente proféticas: quem irá restaurar a Igreja serão as famílias verdadeiramente católicas, as famílias santas!

Enquanto a Igreja não voltar a levar ao Altar rapazes e moças que queiram nada menos do que a perfeição da santidade não haverá solução para crise da Igreja. E esta parte cabe a nós, leigos. Não podemos mais nos desculpar em não sermos santos por causa da falta de bons padres, de sacramentos bem ministrados. Sim, isto tudo é, de fato, penoso, mas porventura não há mais o catecismo tradicional à nossa disposição? Não temos os exemplos dos santos, a Tradição da Igreja? A oração, a meditação das Escrituras, a intercessão onipotente da Santíssima Virgem?

Que alegria seria ver as famílias católicas brasileiras se unindo para construir escolas para seus filhos, escolas que fossem uma extensão de suas famílias, vidas e valores, e assim salvando-se momentaneamente da opressão da educação estatal; mas que alegria muito mais profunda seria ver as famílias católicas realmente se emancipando, decididas a não terceirizar a sua obrigação moral para com os filhos, reservando horas de seus dias, de suas semanas, ao estudo e meditação das Verdades de Fé, dos princípios da Moral, da verdadeira Filosofia e Teologia!

Como são louváveis todos os atos de valorosos leigos católicos, e também de sacerdotes e bispos, contra a implementação da Cultura da Morte em nosso país, devemos todos nos unir a eles em trabalho e oração, mas há também um dever igualmente grave e necessário, e não menos urgente, que podemos começar a perscrutar ainda hoje: o de construir a Cultura da Vida, construí-la através de nossas famílias.

[1] http://www.citizengo.org/pt-pt/sy/node%3Anid%5D-pelo-respeito-familias-e-ao-seu-direito-escolha-pelo-modelo-educacional-sua-preferencia

[2] http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=9753102&ad=s#10%20-%20Pedido%20de%20ingresso%20como%20amicus%20curiae%20-%20Pedido%20de%20ingresso%20como%20amicus%20curiae%201

[3] http://w2.vatican.va/content/pius-xi/pt/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_31121929_divini-illius-magistri.html

[4] http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html

[5] (Suma Teológica I-II, Q. 95)

[6] Palavras que Dom Athanasius Schneider, em sua recente (2015) passagem pelo Brasil, bem como em outros países, tem repetido continuamente: a restauração da Igreja virá através das famílias católicas tradicionais, as que buscam a santidade, que têm o mesmo catecismo, a mesma vida litúrgica das famílias de todas as épocas anteriores à recente confusão doutrinal e litúrgica dos últimos 50 anos.

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por Católicos na Rede Postado em Família

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