Homem e mulher, Deus os fez!

Dom José Carlos Campos
Bispo Diocesano de Divinópolis
Em tempos de disputa emocionada e acusatória sobre o tema do gênero, é bom que voltemos às fontes da nossa fé! “A Igreja fala a partir da luz que a fé lhe dá!” (Bento XVI, discurso à cúria romana, em 21.12.12).

Trata-se de disputa de “ideo-logias”, de “antropo-logias”, de “teo-logias”. A fé também formata e funda um conjunto de ideias, de palavras, de verdades, que tem Deus como autor, pela mediação da perscrutação sempre ativa e fecunda do “depósito da fé”, da divina Revelação, cujo ápice e definitividade encontram-se em Jesus Cristo. Quem se encarrega desta “leitura” ou interpretação da “Palavra de Deus”, pronunciada na direção da humanidade, é a Igreja, sob a autoridade, a guarda e o olhar do Magistério, que não está acima, mas a serviço desta Palavra (Dei Verbum 10).

Nossa verdade vem desta Palavra, nossa luz vem da fé! Ninguém pode contestar este nosso critério. Ele é nosso. Fruto da nossa opção de fé. Temos o direito – e o dever – de pensar, discernir e nos pronunciar a partir desta nossa fonte de verdade. Há outras fontes, naturais e sobrenaturais, que fundam outros conjuntos de certezas, outras ideologias, antropologias e teologias, que nós julgamos a partir do nosso fundamento de verdade. Deem-nos licença para pensar segundo nossa fé! E de dizer o que sustentamos como verdade! E de iluminar consciências segundo esta luz!

Temos, na Sagrada Escritura, dois relatos das origens: Gênesis 1,1 – 2,4a e Gênesis 2,4b-25. No primeiro relato, Deus cria pela palavra (“Faça-se… façamos…”). No segundo relato, Deus cria a partir do barro da terra (“modelou com pó da terra…”). Os criacionistas fundamentalistas vão ter que explicar se são adeptos do capítulo um ou do capítulo dois! Se são favoráveis à origem pelo berro (desculpem a palavra) ou à origem pelo barro? Se são da criação pela Palavra ou da criação pelas mãos? Enfiaram na nossa cabeça que ou somos criacionistas (sem explicações!) ou somos evolucionistas (sem explicações!). Há até quem nos acuse da primeira! Até gente de certa cultura!

Pois bem, vamos tentar pôr ordem na desordem! Nem o capítulo 1 nem o capítulo 2 do Gênesis pretendem responder às perguntas sobre quando fomos criados (data da origem) nem sobre como fomos criados (modo de fazer do Criador). Não há nenhuma possibilidade de concluir sobre o quando. O texto 1 é do século VI aC, tempo do exílio na Babilônia, e o texto 2 é do século X aC, tempo de Salomão. O capítulo 1, portanto, é mais recente, comparado ao segundo. Há entre eles em torno de 400 anos. Se há como estabelecer as datas dos textos, não há como estabelecer a data da origem do mundo. Os textos não querem resposta para isso. Quanto ao como Deus criou, há duas respostas: a partir da Palavra e a partir do pó da terra. Então não é também a esta pergunta que os textos querem responder para se chegar e fundar uma verdade objetiva e unívoca. Então, qual a intenção dos textos? A que pergunta eles querem responder? Qual verdade está por trás deles? A pergunta é: quem fez os céus e a terra, as criaturas todas e os seres humanos? Aí os dois textos têm uma só resposta: Deus os fez! Nos dois relatos, Deus é o autor de toda a criação!

Até aqui respondemos a uma parte da questão. Então somos criacionistas? Sim, porque não se trata de autogeração do mundo visível. A natureza não passou de repente a existir sem um dado original gerado por algo ou alguém já existente. A natureza inanimada não pode ter dado origem à natureza animada. O irracional não pode ter dado origem ao racional. Houve um “trabalho”, um “movimento” de criação. Houve um “start”, um ponto inicial. Mas, não significa, numa leitura fundamentalista “duplicada” desde o princípio, que, no silêncio do nada, houve um grito de Deus; ou, no barro “pré-existente”, houve um artífice que sujou as mãos.

O Papa Francisco quando tratou dessa questão recentemente não trouxe à tona algo novo. Uma saudável antropologia cristã, quando trata da “protologia”, palavra teológica sobre as origens, já havia posto uma luz sobre esta falsa dicotomia entre criação e evolução. Aceitando os estudos sérios e multidisciplinares das ciências históricas, biológicas e arqueológicas, não estamos na contramão da Revelação se entendemos o mundo criado como resultado de um longo e maravilhoso processo e movimento de aperfeiçoamento gradativo, assistido e definido por Deus.
Assistido e definido sim… A natureza não dá saltos qualitativos. Como dissemos antes, num processo em que o superior e mais perfeito vêm adiante, não se pode pensar que o inferior e imperfeito anterior pudessem dar um salto para gerar o que não tinham em si como propriedade ontológica. O irracional não pode gerar o racional, o inanimado não pode criar o animado, a célula simples original não pode ter sido gerada simplesmente pela conjugação passiva de água e luz natural. Houve um mentor, uma mente, um Criador, que foi acompanhando e favorecendo o “plus”, os saltos qualitativos que não foram meramente resultado de evolução passiva e mecânica.

Neste modelo interpretativo, garantimos o “criacionismo bíblico”: na origem de todas as coisas está Deus! Deus gerou o momento inicial, seja ele como tiver sido, e acompanhou, assistiu e interveio ao longo do processo para leva-lo à sua máxima e mais bela expressão que é a criatura humana, dotada de “imagem e semelhança”, segundo o capítulo 1, e de “sopro, espírito, hálito divino”, segundo o capítulo 2. Uma criatura que porta, em alguma medida, propriedades ontológicas do seu Criador.

Nestes relatos criacionais, está posta a diferença sexual original, tal como dada psíquica e anatomicamente no século X aC, VI aC, antes disso e hoje: macho e fêmea, no reino animal, homem e mulher, no estatuto humano de identidade. Os papéis, o status, o modo de viver de cada uma destas duas expressões humanas cabe à cultura e à história construírem. Gerar no ventre cabe à mulher, não sem a concorrência do elemento masculino. Isso não é humilhação ou fardo. É vocação! É da natureza, do mais próprio do ser feminino. Não se oprime por isso. Nada justifica a discriminação, a inferiorização de um sobre o outro, as adjetivações de sexo fraco ou forte… Nem o relato bíblico sustenta isso. No capítulo 1, Deus os cria sem nenhum tipo de precedência: “homem e mulher os criou”. No capítulo 2, Deus tira da mesma matéria e substância do masculino para criar o feminino, sem nenhuma participação ou palpite do homem, que estava em “profundo sono”. O homem não participa na criação da mulher. O relato resguarda a soberania e a exclusividade da ação divina. Ambos são da mesma matéria, natureza e dignidade.

Quem define papéis, funções, profissões, lugares sociais, direitos, deveres… isso sim é a mentalidade de cada tempo. Quem criou preconceitos, desigualdades, opressões e tantas outras desgraças não justificáveis não foi o Criador. Talvez algumas leituras equivocadas e machistas das religiões, mas isso não culpabiliza o Criador. Por isso, voltar às origens, fará muito bem aos homens e mulheres, ao Cristianismo e aos nossos opositores. Nosso desejo e nossa missão religiosa são um só: pensar e organizar o mundo criado segundo o coração bom e ordenado do Criador, que quando contemplou sua obra depois de tê-la concluído, viu que tudo “era muito bom”.

Diante da diversidade de afetividades e comportamentos, cabe bem à Igreja, como dever e missão, acolher, ouvir, amar, incluir os diferentes, mesmo que estes não recebam todos os “sins” esperados da Igreja. Nada contra aqueles que, por motivos desconhecidos por eles e por nós, trilham caminhos que os colocam numa posição de diferença. Em tudo, com todos e sempre, prevaleçam o respeito e o amor ao próximo, qualquer próximo!

Deixo uma palavra final ao Papa Francisco. O texto seguinte é o número 155 da sua Carta Encíclica Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum, de 24.05.2015:

A ecologia humana implica também algo de muito profundo que é indispensável para se poder criar um ambiente mais dignificante: a relação necessária da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua própria natureza. Bento XVI dizia que existe uma «ecologia do homem», porque “também o homem possui uma natureza, que ele deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece”. Nesta linha, é preciso reconhecer que o nosso corpo nos põe em relação direta com o meio ambiente e com os outros seres vivos. A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contrário, uma lógica de domínio sobre o próprio corpo transforma-se numa lógica, por vezes sútil, de domínio sobre a criação. Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana. Também é necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, não é salutar um comportamento que pretenda “cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela”.

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por Católicos na Rede Postado em Família

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