A história da família, segundo Chesterton

A família é a única instituição que surge por atração espontânea, baseada no amor e não no medo

A mais antiga das instituições humanas tem uma autoridade que pode parecer tão selvagem quanto a anarquia. Ela é a única, dentre todas estas instituições, a começar com uma atração espontânea, e a única da qual se pode dizer que é baseada no amor e não no medo. A tentativa de compará-la com as instituições coercitivas que vêm complicando a história recente levou a uma infinita falta de lógica nos últimos tempos.

Trata-se de algo tão único quanto universal. Não há nada, em nenhuma outra relação social, que seja sequer paralelo à atração mútua dos sexos, e é ao perder de vista este fato simples que o mundo moderno caiu em centenas de enganos.

A ideia de uma revolta geral das mulheres contra os homens foi proclamada com bandeiras e passeatas, como se fosse uma revolta de vassalos contra seus senhores, de negros contra negreiros, de poloneses contra prussianos ou de irlandeses contra ingleses; todos agiam como se acreditassem na nação fabulosa das amazonas. A ideia, igualmente filosófica, de uma revolta geral dos homens contra as mulheres foi proposta em forma de romance por Sir Walter Besant e, como livro de sociologia, pelo Sr. Belfort Bax.

Ao primeiro toque desta verdade de uma atração aborígene, contudo, todas estas comparações desabam e fica patente o quanto são cômicas. Um prussiano não sente, logo de cara, que só será feliz quando puder passar os dias e as noites ao lado de um polonês. Um inglês não acha que a casa parece vazia e triste sem que haja um irlandês lá dentro. Um escravagista não sonha, na sua juventude romântica, com a beleza perfeita de um africano. Um magnata das ferrovias raramente escreve poemas sobre o fascínio particular de um carregador de estação de trem.

Todas estas outras revoltas, contra todas estas outras relações, são razoáveis, para não dizer inevitáveis, por serem relações originalmente baseadas na força ou no interesse próprio. A força consegue abolir o que a força consegue estabelecer; o interesse próprio pode rescindir um contrato que foi ditado pelo interesse próprio. O amor de um homem e de uma mulher, contudo, não é uma instituição que posssa ser abolida ou um contrato que possa ser rescindido. É algo mais antigo que todas as instituições e contratos, algo que certamente irá continuar quando eles não mais existirem.

Todas as outras revoltas são reais, porque persiste a possibilidade de que as coisas possam ser destruídas, ou ao menos divididas. É possível abolir os capitalistas, mas não se podem abolir os homens. Os prussianos podem sair da Polônia, ou os negros voltar à África, mas um homem e uma mulher vão sempre permanecer juntos, de um jeito ou de outro, e devem aprender a tolerar-se mutuamente de alguma forma.

Trata-se de uma verdade muito simples, e, talvez por isso, hoje em dia, ela passe despercebida. A verdade que dela se depreende é igualmente óbvia. Não se discute por que a natureza criou esta atração; na verdade, seria mais inteligente perguntar-se por que Deus a criou, pois a natureza não teria propósito sem Deus por trás dela. Falar de um propósito na natureza é tentar, em vão, usar o feminismo para evitar o antropomorfismo. É crer numa deusa porque se é cético demais para acreditar num deus…

Esta controvérsia, contudo, pode ser deixada de lado nesta discussão, se nos contentarmos em dizer que o valor vital que se encontra, afinal, nesta atração é, evidentemente, a renovação da espécie humana.

A criança é uma explicação do pai e da mãe, e o fato de ela ser uma criança humana é uma explicação dos antigos laços humanos que ligam o pai e a mãe. Quanto mais humana – ou seja, menos bestial – for a criança, mais legítimos e duradouros serão estes laços. Assim, quaisquer progressos na cultura ou na ciência, longe de afrouxar estes laços, irão logicamente estreitá-los. Quanto mais houver para a criança aprender, mais tempo terá ela de passar na escola natural onde o aprende, e mais deve tardar a dissolução da parceria de seus mestres.

Esta verdade elementar está hoje escondida sob uma multidão de intermediários, agindo em função direta ou indireta da falácia elementar de que tratarei em seguida. Falo da posição primária do grupo humano, tal como ele persistiu ao longo de eras, enquanto as civilizações ascendiam e decaíam; frequentemente incapaz de delegar o que quer que fosse do seu trabalho, e sempre incapaz de delegá-lo por inteiro. Nisto, repito, sempre será necessário que os dois mestres fiquem juntos, enquanto eles tiverem algo a ensinar.

Um bicho marinho qualquer, que simplesmente se desliga da cria e flutua para longe, poderia flutuar até um tribunal de divórcio submarino ou um clube de amor livre para peixes. O bicho marinho pode fazê-lo precisamente porque a sua cria não precisa fazer nada, porque ela não tem que aprender a dançar a polca ou a recitar a tabuada. Estou enumerando truísmos, mas truísmos verdadeiros; as verdades sempre acabam voltando à cena. Afinal, o emaranhado de substitutos semi-oficiais da verdade que agora encontramos não é grande o bastante para tapar o buraco. Se as pessoas não conseguem cuidar da própria vida, simplesmente não pode fazer sentido pagá-las para cuidar da vida dos outros, menos ainda para cuidar dos bebês dos outros. Isto é simplesmente jogar fora um poder natural para pagar por um poder artificial, como quem rega uma planta com uma mangueira enquanto a protege da chuva com uma sombrinha.

Tudo isso, na verdade, está baseado em uma ilusão plutocrática de uma oferta infinita de serviçais. Sempre que aparece um sistema novo qualquer que seja apresentado como “uma carreira feminina”, o que está realmente sendo proposto é transformar um número infinito de mulheres em serviçais da plutocracia ou da burocracia. Em última instância, estamos argumentando que uma mulher não deveria ser mãe do próprio filho, mas sim babá do filho dos outros. Isto, contudo, não tem como funcionar nem sequer no papel. Não é possível que cada um lave a roupa do próximo, muito menos os babadores. No fim das contas, as únicas pessoas que conseguem cuidar, ou mesmo de quem se possa dizer que cuidem, individualmente, de cada criança individual, são os seus pais individuais. A expressão, tal como é aplicada aos que lidam com multidões cambiantes de criancinhas, é apenas uma graciosa e legítima figura de linguagem.

Este triângulo de lugares-comuns composto de pai, mãe e filho é indestrutível e destrói qualquer civilização que o menospreze. A maior parte dos reformadores modernos é apenas um amontoado de céticos vazios, que não têm base alguma sobre a qual reconstruir; seria bom que esses reformadores se dessem conta de que há algo que eles não conseguem reformar.

É possível derrubar os poderosos de seus tronos. É possível virar o mundo de ponta-cabeça e é perfeitamente defensável que esta seja a posição certa para ele. Contudo, é impossível criar um mundo em que o bebê carrega a mamãe. Não se pode criar um mundo em que a mãe não tenha autoridade sobre o bebê. É possível perder tempo argumentando, dando aos bebês o direito de voto ou proclamando uma república infantil. É até mesmo possível dizer, como o fez outro dia um pedagogo, que as crianças pequenas deveriam “criticar, questionar a autoridade e suspender seu julgamento”. Não sei por que ele não continuou, dizendo que elas deveriam trabalhar para ganhar a vida, pagar imposto de renda e morrer pela pátria no campo de batalha, já que, evidentemente, o que está sendo proposto é que as crianças não tenham infância.

Mas, se isto parecer divertido, é possível organizar um “governo representativo” entre os menininhos e menininhas e dizer a eles que levem o mais a sério que puderem as suas responsabilidades legais e constitucionais. Resumindo, é perfeitamente possível ser louco, mas é impossível fazer sentido ao mesmo tempo. Não se pode realmente levar aos extremos este princípio e aplicá-lo à mamãe e ao bebê. Não é possível aplicar a teoria ao mais simples e mais prático de todos os casos. Ninguém é louco a este ponto.

Este núcleo de autoridade natural sempre existiu em meio a autoridades mais artificiais. Ele sempre foi visto como algo literalmente individual, ou seja, como algo absoluto, que não pode ser dividido. Um bebê não seria sequer um bebê sem a mãe; seria outra coisa, mais provavelmente um cadáver. Isto sempre foi reconhecido como algo que tem uma relação peculiar com o governo, simplesmente por ser uma das coisas que não foram feitas pelo governo e que poderia, em certa medida, vir a existir sem o apoio do governo. Realmente, trata-se de algo tão evidente que nenhuma defesa é possível ou necessária. A defesa que pode ser feita é que não há nada comparável, e, nos poderes e instituições mais elaborados, que são seus inferiores, não encontraremos mais que leves paralelos.

Assim, a única maneira de transmitir esta ideia é comparando-a com uma nação, ainda que, comparadas a ela, as divisões nacionais sejam tão modernas e tão formais quanto os hinos nacionais. É por isso que eu uso frequentemente a metáfora de uma cidade, ainda que o citadino, em comparação, seja uma novidade tão recente quanto o funcionário público municipal. Basta notar aqui que todos sabem por intuição, e admitem por implicação, que uma família é um fato, algo sólido, dotado de cor e caráter como uma nação.

Esta verdade é comprovada nas experiências mais cotidianas e mais modernas. Um homem pode dizer que “esse é o tipo de coisa de que os Brown vão gostar”, por mais intrincada e interminável que seja a novela psicológica que ele possa compôr sobre os tons das diferenças entre o Seu Brown e a Dona Brown. Uma mulher vai dizer “eu não gosto que a minha filha frequente a casa dos Robinsons”, mas ela não vai sempre parar, no meio de suas exaustivas tarefas sociais ou domésticas, para dintinguir entre o materialismo otimista do Seu Robinson e o cinismo um tanto mais ácido que permeia o hedonismo da Dona Robinson.

O interior de um lar tem uma cor própria, tão evidente quanto o exterior da casa. Esta cor é uma mistura, e, se um tom prevalecer, será geralmente o da mulher da casa. Mas, como todas as cores compostas, ela é uma cor à parte, tão distinta quanto o verde é distinto do azul e do amarelo. Todo casamento é uma espécie de equilíbrio dinâmico, e o acordo a que se chega, em cada caso, é tão único quanto qualquer excentricidade. Os filantropos que andam pelas favelas frequentemente percebem este acordo sendo feito aos brados, em plena rua, e acham que estão vendo uma briga. Quando metem a colher, apanham do marido e da mulher, o que é bem feito, por não respeitarem a própria instituição que os trouxe ao mundo.

A primeira coisa a perceber é que esta normalidade gigantesca é como uma montanha, que pode ser até um vulcão. Todas as anormalidades que se lhe opõem são como o montinho de terra que marca a toca de uma toupeira, e os organizadores sociais, com toda a sua autenticidade, se parecem cada vez mais com toupeiras.

Mas a montanha também é um vulcão em outro sentido, como o sugerido pela tradição dos campos fertilizados por lava. Ele tem um lado criativo, bem como um lado destrutivo, e resta apenas, nesta parte da análise, notar o efeito político desta instituição extra-política, bem como os ideais que ela defendeu, frequentemente sozinha.

O ideal que ela defende em relação ao Estado é o da liberdade. Ela preserva a liberdade pela razão simples com que comecei este esboço de análise. É a única instituição que é ao mesmo tempo necessária e voluntária. É o único dos freios ao poder do Estado que se renova de modo tão eterno quanto o Estado e de modo mais natural que ele.

Qualquer homem de mente sadia terá de reconhecer que a liberdade ilimitada é anarquia, ou melhor, não é nada. A ideia cívica de liberdade é dar ao cidadão uma província em que ele é livre, um território circunscrito em que ele é rei.Esta é a única maneira de a verdade se refugiar da perseguição pública e de o homem bom sobreviver ao governo mau. Mas o homem bom, sozinho, não tem como enfrentar a cidade. Outra instituição deve servir de contrapeso à cidade, e, neste sentido, ela é uma instituição imortal.

Enquanto o Estado for a única instituição ideal, ele irá conclamar o cidadão a sacrificar-se, e, assim, não terá escrúpulos em sacrificar o cidadão.

O Estado consiste em coerção, e, no seu próprio ponto de vista, está sempre certo quando aumenta a coerção. É o caso, por exemplo, do serviço militar obrigatório. A única coisa que pode ser colocada para limitar ou desafiar esta autoridade é uma lei voluntária e uma lealdade voluntária. Esta lealdade é a proteção da liberdade, na única esfera em que a liberdade pode verdadeiramente florescer. É um princípio constitucional que o rei nunca morre. É o princípio único da família que o cidadão nunca morre. É necessário que haja uma heráldica e uma hereditariedade da liberdade, uma tradição de resistência à tirania. Os homens não devem apenas ser livres, mas nascer livres. Realmente, há algo na família que pode ser chamado até de anarquista, ainda que seja mais correto dizer ser algo amador. Assim como ela parece ser algo vaga no tocante à sua origem voluntária, também parece haver algo de vago acerca da sua organização voluntária. A função mais vital que ela desempenha, que talvez seja a função mais vital que qualquer um possa desempenhar, é a de educação; mas este tipo de educação fundamental é essencial demais para que se possa confundi-la com mera instrução.

Sua regra é mais prática que teórica, em milhares de aspectos. Para dar um exemplo banal, e até engraçado, duvido que algum livro-texto ou código de regras já tenha contido instruções sobre como botar uma criança de castigo no canto da parede. Certamente, quando o processo moderno se houver completado e o princípio coercitivo do Estado tiver exterminado completamente o elemento voluntário da família, haverá alguma restrição ou regulação estrita sobre isto. Possivelmente, ela determinará que o canto onde a criança vai ficar de castigo deva ter um ângulo de pelo menos noventa e cinco graus. Possivelmente, ela dirá que a linha de convergência de um canto comum tende a envesgar a criança.

De fato, tenho certeza de que, se eu deixar escapar em um número suficiente de reuniões sociais que cantos de parede envesgam as crianças, isto rapidamente se tornará um dogma da ciência popular.

Afinal, o mundo moderno não aceita dogmas baseados em alguma autoridade, mas aceita de bom grado dogmas baseados em nenhuma autoridade. Se se diz que uma coisa é assim ou assado de acordo com o Papa ou com a Bíblia, ela será desprezada como superstição sem sequer ser examinada. Mas se dissermos que “dizem que”, ou “você não sabia que”, tentando, sem sucesso, lembrar o nome de algum cientista citado num artigo de jornal, o racionalismo aguçado da mente moderna aceitará qualquer coisa que lhe seja dita.

Este parêntese não é tão irrelevante quanto parece, pois é necessário lembrar que, quando um oficialismo rígido irrompe em meio às cessões voluntárias do lar, ele será rígido apenas na ação, enquanto, sem dúvida, será ao mesmo tempo frouxo em excesso na razão. Intelectualmente, ele não será menos vago que os arranjos amadores do lar; a única diferença é que os arranjos domésticos são, no único sentido real, práticos, ou seja, são baseados nas experiências passadas. Os outros arranjos são o que geralmente é dito científico, ou seja, são baseados em experiências que ainda não foram feitas. Na verdade, ao invés de invadir a família com a desastrada burocracia que desgoverna os nossos serviços públicos, seria muito mais filosófico fazer uma reforma no sentido oposto.

Seria certamente razoável alterar as leis da nação para que elas se pareçam com as do quarto de brinquedos. As punições seriam muito menos horríveis, muito mais divertidas e serviriam muito melhor para fazer com que os homens percebessem que fizeram papel de idiota. Seria uma diferença bem-vinda se um juiz usasse um chapéu de burro ou se pudéssemos botar um banqueiro de castigo olhando para o canto.

Esta opinião, é claro, é rara e reacionária, seja lá o que isto queira dizer. A educação moderna é baseada no princípio de que o pai ou a mãe têm mais chance de serem cruéis que qualquer outra pessoa. Ora, qualquer um pode ser cruel, mas as maiores chances de crueldade estão nas multidões indiferentes e sem cor dos completos estranhos e dos mercenários mecanicistas, que agora é moda chamar de agentes de melhoria: policiais, médicos, detetives, inspetores, instrutores etc.

A eles é dado poder arbitrário por existir aqui e ali um pai ou mãe criminosos, como se não houvesse médicos criminosos ou pedagogos criminosos. A mãe não toma sempre a melhor decisão sobre a dieta do seu filhinho, e eis que ela passa ao controle do Dr. Crippen. Pensa-se que um pai não ensina aos seus filhos a mais pura moralidade, o que faz com que eles sejam postos sob a tutela de Eugene Aram.

Estes célebres criminosos não são mais raros em suas profissões respectivas do que pais cruéis o são na paternidade. Mas o caso é mais forte que isto, e não é sequer necessário apelar a estes criminosos.

As fraquezas normais da natureza humana explicarão todas as fraquezas da burocracia e dos governos do mundo todo. O oficial precisa apenas ser uma pessoa normal para ser mais indiferente em relação aos filhos dos outros do que em relação aos seus próprios filhos, e até mesmo para sacrificar a prosperidade de outras famílias para fazer avançar a da sua.

Ele pode estar entediado, ele pode ser subornado, ele pode ser brutal, por qualquer uma das mil razões que já fizeram um homem ser brutal.

Todo este senso comum elementar é completamente deixado de lado nos sistemas sociais e educacionais de hoje. Assume-se que o assalariado não irá abandonar o seu trabalho simplesmente por ele ser assalariado.

Nega-se que o pastor dará a vida por suas ovelhas, ou, já que estamos falando deste tipo de coisas, que a loba irá lutar para proteger os seus filhotes. Querem que acreditemos que as mães são desumanas, mas não que os oficiais são humanos. Que há pais desnaturados, mas não paixões naturais. Ou, ao menos, que não há nenhuma onde a fúria do Rei Lear ousou encontrá-las: no funcionário subalterno. Esta é a última descoberta brilhante para a educação das crianças, e o mesmo princípio que se aplica a elas é aplicado aos pais. Assim como assume que uma criança será certamente amada por todos, com exceção do seu pai e da sua mãe, ela assume também que um homem pode ser feliz com qualquer pessoa, menos com a mulher que ele mesmo escolheu como esposa.

Assim prevalece o poder coercitivo do Estado sobre a promessa livre da família como oficialismo formalizado. Este, contudo, não é o mais coercitivo dentre os elementos coercitivos da comunidade moderna. Um poder externo ainda mais inescrupuloso e rígido é o do emprego e desemprego na indústria. Um inimigo ainda mais feroz da família é a fábrica. Entre estas coisas mecânicas modernas, a instituição natural antiga não está sendo reformada, modificada ou mesmo podada: ela está sendo dilacerada. E ela não está sendo dilacerada no sentido de uma metáfora verdadeira, como a de um ser vivo preso em uma engrenagem medonha de uma máquina. Ela está sendo, literalmente, rasgada ao meio, como quando o marido vai para uma fábrica, a esposa para outra e a criança para uma terceira. Cada um deles se torna o servo de um grupo financeiro diferente, que, cada vez mais, ganha o poder político de um grupo feudal. Mas enquanto o feudalismo recebia a lealdade das famílias, os senhores do novo estado servil recebem apenas a lealdade de indivíduos, ou seja, de homens solitários e até mesmo de crianças perdidas.

Diz-se, por vezes, que o socialismo ataca a família, o que se baseia em pouco mais que no acidente de alguns socialistas apoiarem o amor livre. Eu já fui socialista; não sou mais; e, em momento algum, acreditei no amor livre. É verdade: acredito que, em um sentido amplo e inconsciente, o socialismo de Estado encoraja a arrogância coercitiva de que venho tratando. Mas se é verdade que o socialismo ataca a família na teoria, é muito mais verdade que o capitalismo a ataca na prática.

É um paradoxo, mas um fato puro e simples, que as pessoas nunca reparam em algo se a sua existência é prática. Homens que apontariam uma heresia se calam diante de um abuso. Quem quer que duvide deste paradoxo deve imaginar os jornais imprimindo, do lado da Lista de Honrarias, uma lista de preços de baronatos e títulos de cavalheiro, ainda que todos saibam que eles são vendidos e comprados.

A fábrica está destruindo a família na prática, e não precisa depender de nenhum pobre teórico enlouquecido que sonhe em destruí-la na teoria. O que a destrói não é nada tão plausível quanto o amor livre, e sim algo que poderia ser descrito como o medo forçado. É uma punição econômica, mais temível do que a punição jurídica, o que ainda nos pode levar à escravidão como única segurança.

Desde seus primeiros dias na floresta, este agrupamento humano teve de lutar contra monstros selvagens e agora está lutando contra máquinas selvagens. Ele só conseguiu sobreviver então, e só conseguirá sobreviver agora, através de uma forte santidade interna, de um juramento tácito ou de uma dedicação mais profunda do que a da cidade ou da tribo. Mas, ainda que esta promessa tenha sempre estado presente, em dado momento pivotal da nossa história ela tomou uma forma especial. Este ponto pivotal foi a criação da Cristandade pela religião que a criou. Nada destruirá o triângulo sagrado; mesmo a Fé cristã, a mais espantosa revolução que já aconteceu nas mentes, serviu apenas, em certo sentido, para virar de cabeça para baixo este triângulo. Ela levantou um espelho místico em que a ordem das três coisas foi revertida, e acrescentou uma Sagrada Família, composta de filho, mãe e pai, à família humana composta de pai, mãe e filho.

 

Tradução: Prof. Carlos Ramalhete.

Publicado em chestertonbrasil.blogspot.com.br.

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