Será que precisaremos renunciar ao termo “casamento”?

Padre Charles Pope*

A cultura laica está transformando a ideia de casamento em algo completamente diferente do matrimônio cristão

Com os tribunais de vários países do Ocidente redefinindo o que pode ser entendido como “casamento” hoje em dia, será que estamos chegando a um ponto em que deveríamos simplesmente deixar de lado o uso dessa palavra?

É fato que, para muita gente no mundo laico, a palavra “casamento” mudou de significado. Quando a Igreja usa a palavra “casamento”, ela claramente não se refere à mesma coisa que um crescente número de países entende por esse termo.

O Catecismo da Igreja Católica define “casamento” (ou seja, o santo matrimônio) da seguinte forma:

“A aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão da vida toda, é ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole, e foi elevada, entre os batizados, à dignidade de sacramento por Cristo Senhor” (Catecismo, 1601).

No entanto, as últimas decisões judiciais tomadas em inúmeros países indicam com clareza que, cada vez mais, a definição de casamento no mundo laico nem sequer se assemelha remotamente àquilo que o Catecismo descreve.

E esta não é a primeira redefinição do casamento que acontece no Ocidente. A redefinição vem ocorrendo em etapas.

Uma primeira e nítida etapa foi o começo da legislação em favor do divórcio. A lei já não defendia o que o Catecismo descreve como uma aliança para a vida toda: o casamento, indissolúvel nos ensinamentos que a Igreja preserva com base no Evangelho, foi redefinido como um contrato facilmente quebrável pela vontade dos cônjuges.

O dramático aumento no uso de contraceptivos e a forte queda nas taxas de natalidade, embora não sejam uma redefinição legal, acabam sendo, na prática, uma espécie de redefinição cultural do casamento, se o compararmos com o que é descrito no Catecismo. A procriação e a educação da prole fazem parte da própria natureza do matrimônio, mas a cultura ocidental passou a ver este aspecto como opcional por parte dos cônjuges. Aliás, tendo semeado ao vento e redefinindo não só o casamento, mas o próprio ato sexual, estamos agora colhendo o turbilhão, também, da profunda confusão sexual.

E a etapa mais recente desse processo de redefinição do casamento é o reconhecimento legal dos chamados “casamentos” homossexuais, o que completa a ruptura com a definição de casamento feita pelo Catecismo: uma aliança estabelecida entre si por um homem e por uma mulher.

O mundo laico foi excluindo, enfim, todos os aspectos daquilo que a Igreja entende por casamento. Não será hora, então, de aceitarmos este fato e começarmos a usar uma palavra diferente para deixar bem clara a diferença entre aquilo que o mundo entende por “casamento” e aquilo que a Igreja nos ensina sobre ele?

A meu ver, deveríamos nos referir ao casamento na Igreja exclusivamente como “santo matrimônio”.

De acordo com esta proposta, a palavra “casamento” seria deixada de lado por nós e substituída por “santo matrimônio”, notando que o Catecismo da Igreja Católica se refere a este sacramento, formalmente, como “o sacramento do matrimônio”.

A palavra “matrimônio” também enfatiza dois aspectos do casamento cristão: a procriação e a complementaridade heterossexual. “Matri” evoca “mãe” (do latim “mater”) e “-mônio” vem de um sufixo que indica “ação, estado ou condição”. Daí o santo matrimônio indicar o sacramento em que a mulher adere ao estado que confirma a sua abertura à maternidade, dentro de uma aliança definitiva com um homem. A definição bíblica e eclesial do santo matrimônio como heterossexual e aberto à procriação é reafirmada, assim, pelo próprio termo. Chamá-lo de “santo”, além disso, afasta com clareza a confusão laica existente hoje em torno ao .“casamento”.

Restam, no entanto, algumas considerações a fazer.

O resgate da expressão “santo matrimônio” implica voltar a uma tradição mais antiga, que poderia parecer arcaica para algumas pessoas. Mas esse termo, sem dúvida, é bem mais difícil de tergiversar do que “casamento”.

Na minha paróquia, por exemplo, já adotamos a expressão “santo matrimônio” faz algum tempo. Não preparamos mais as pessoas “para o casamento”, mas sim para o “santo matrimônio”.

As pessoas ainda não se acostumaram completamente, é verdade. Elas ainda chegam à paróquia e dizem: “Queremos casar no próximo verão”. É incomum os casais dizerem: “Queremos realizar o nosso santo matrimônio no próximo verão”. Não são mudanças que acontecem facilmente. Talvez, aliás, o leitor queira nos oferecer algumas sugestões para incentivar a assimilação desse termo.

Há outra possibilidade, mais modesta: em vez de esperar que “santo matrimônio” se torne o único termo em uso na prática entre os católicos, poderíamos pelo menos passar a usá-lo nos contextos oficiais e formais. Nesses casos, não utilizaríamos mais o termo “casamento”, e sim a claríssima expressão “sacramento do santo matrimônio”.

O que você acha? Será que chegamos mesmo ao ponto de precisar usar uma nova expressão para nos referirmos com clareza ao conceito cristão do casamento? Será que a palavra “casamento” foi tão despojada do seu significado a ponto de precisarmos usar uma terminologia diferente para deixar claro o que realmente queremos dizer?

Quando eu fiz esta proposta pela primeira vez, há cerca de dois anos, boa parte dos leitores se mostrou reticente quanto à relevância dessa mudança; alguns se mostraram até preocupados, considerando que estaríamos “entregando os pontos” até em nosso vocabulário. O fato, porém, é que o termo “casamento” parece que nunca mais vai significar com clareza aquilo que significava antes.

Uma questão secundária, mas relacionada com esta, é que talvez devamos reconsiderar também a “parceria” que existe entre Igreja e Estado, em muitos países, no tocante à validade civil do matrimônio religioso. Se o Estado está interpretando o casamento de uma forma tão diferente da Igreja, podemos realmente nos ver como “parceiros”? Faz sentido passarmos uma impressão de “credibilidade” para um pedaço de papel cada vez mais sem sentido? Os fiéis católicos, por motivos jurídicos e até fiscais, de fato precisam do registro civil do seu casamento em boa parte dos países onde vivem, mas, em termos sacramentais, o que o clero teria a ver com isso, estritamente falando? O santo matrimônio e um simples documento civil não são, na prática, duas realidades bem diferentes?

O que é evidente é que precisamos de uma sólida e intensa catequese voltada aos nossos fiéis para reiterar que o “casamento” civil (o que quer que ele venha a significar do ponto de vista legal e laico) não equivale de forma nenhuma ao sacramento do santo matrimônio. Os fiéis precisam entender que eles não devem, de modo algum, considerar-se casados de verdade apenas com base num pedaço de papel sem sentido, concedido por um estado laico.

Mais uma vez, caro leitor, o que você acha?

__________________________

 

* Monsenhor  Charles Pope, vigário da Paróquia de São Cipriano- Washington-USA.

Diretor Espiritual  da Legião de Maria e Coordenador Arquidiocesano para a celebração da missa em latim. Membro do Conselho Arquidiocesano.

Nomeado  monsenhor em 2005.

Atuou como Decano do Decanato Sudeste.

Entre 1997-1999 Monsenhor Pope realizou um estudo bíblico semanal no Congresso dos EUA. Atualmente realiza um estudo bíblico semanal na Casa Branca.

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