As chaves de Davi

Scott Hahn*
Considerando-se que o reino de Davi seria eterno, este viria a definir o “reino” para todas as gerações subsequentes elevadas sobre a palavra de Deus. Não era apenas um conceito teórico ou uma metáfora teológica. Ele tinha uma forma histórica, definida de maneira vívida e especificamente registrada pelos historiadores, poetas e profetas de Israel. E as qualidades que eles registram se relacionam diretamente com os termos da aliança revelada pelo próprio Natã.

Com o que se assemelhava o reino de Davi? É importante que saibamos, porque – como o próprio Jesus deixou claro – os contornos do “reino” marcam a forma da nossa salvação. O ministério terreno do coração de Jesus foi a proclamação do reino; e o uso que Ele faz desta palavra podia significar apenas uma coisa para os Seus ouvintes. Eles O entenderam com o significado da restauração do reino de Davi, e o Senhor não contradisse essa expectativa. Na verdade, Ele a confirma e esclarece, nunca diminuindo seu caráter messiânico.

Das fontes históricas, podemos identificar certos elementos que prevalecem enquanto a Casa de Davi governava de Jerusalém. Aqui eu gostaria de identificar sete características principais da aliança de Deus com a casa de Davi e três secundárias. Concentro-me nessas dez características porque são essenciais para o drama da dinastia que lemos nos últimos livros do Antigo Testamento, e também porque eles vão realçar as chaves da identidade Davídica de Jesus Cristo – e da Igreja que Ele estabeleceu na terra.

1. A monarquia Davídica foi fundada sobre a aliança divina, o único ser humano do reino do Antigo Testamento que desfrutaria de tal privilégio (ver 2Sm 8, 11-16).

2. A monarquia Davídica era o Filho de Deus. A relação familiar do rei com Deus é evidenciada nos oráculos de Natã, e também em outros lugares (ver SI 2,7). O filho de Davi recebeu a graça da filiação divina no momento da sua unção.

3. O filho de Davi era “o Cristo”, ou seja, “o messias”, cujo termo em hebraico é “mashiach” que, literalmente, significa “o ungido” (ver 1Sm 16,13; 1Rs 1,43-48; 2Rs 11,12; Sl 89,20-39). Sua unção com óleo fez dele um sacerdote e um rei, “um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110,4). Este era um sacerdote-rei em Jerusalém dos tempos de Abrãao (Gn 14,18; Sl 76,2).

4. A Casa de Davi era indissoluvelmente ligada a Jerusalém, particularmente ao Monte Sião , o qual era de propriedade pessoal do rei Davi e de seus herdeiros (2Sm 5,9). Mais do que a capital de uma monarquia, Jerusalém tornou-se o centro espiritual do povo de Deus, bem como, o local de peregrinação para Israel e todas as nações (Is 2,1-3).

5. O Templo era o sinal visível da aliança Davídica e do reino de Deus. A construção do Templo era algo central para os termos da aliança, e a mesma palavra hebraica para “casa” era usada para descrever, não somente a dinastia de Davi, mas também o lugar da morada de Deus, que servia como uma “casa de oração para todos os povos” (Is 56,7; Mt 21,12-15).

6. O reino de Davi era para governar sobre todas as doze tribos de Israel – e também, sobre todas as nações. Foi somente sobre Davi e Salomão que, tanto Judá quanto as outras tribos do norte, foram unidas num só reino que os libertou da opressão estrangeira (ver 2Sm 5, 1-5; Rs 4,1-19). O Senhor também decreto que o reino de Davi seria para governar sobre todas as nações (Sl 2,8; 72, 1-17), sobre todos os gentios que peregrinavam a Jerusalém (1Rs 8,41-43; 10, 1-24) e sobre todo o mundo. O reino de Davi em Sião marca, assim, a primeira vez que Israel fora chamado a acolher os gentios como parte integrante da sua aliança com Deus.

7. A monarquia devia ser eterna. Um dos destaques mais evidentes nos Salmos e na história era de que a dinastia de Davi seria eterna (ver 2Sm 7,16). Não somente a dinastia, mas também a abrangência da vida do monarca reinante, eram descritas como eternas (ver Sl 21,4).

Junto a essas sete características principais, devemos observar três elementos secundários. Embora estes não tenham sido mencionados explicitamente nos oráculos de Natã, são encontrados em todas as histórias e hinos da Casa de Davi. Novamente, eles se tornarão ainda mais importantes sob a Nova Aliança em Jesus Cristo.

1. A Rainha Mãe se torna uma parte importante do governo real. Começa com o Rei Salimão em 1Rs 2,19:
Betsabá foi ao rei Salomão para lhe falar sobre Adonias. O rei se levantou para recebê-la e se inclinou diante dela. Depois se assentou no trono, mandou trazer um trono para sua mãe, e Betsabá se sentou à sua direita.

Nota-se, aqui, que todos se curvaram diante de Salomão, mas Saloão se prostrou diante de sua mãe. A partir desse ponto, a rainha-mãe se torna um elemento permanente ao reino, um símbolo da continuidade da linhagem real de Davi. Ela também atuava como um dos mais importantes conselheiros do rei, na verdade, Provérbios 31 é identificado como o conselho da rainha-mãe ao Rei Lamuel: “Palavras de Lamuel, rei de Massa, ensinadas por sua mãe”. Quando o profeta Jeremias aborda o rei, ele se dirige à sua mãe, pois tal era a sua autoridade: “Diga ao rei e à rainha-mãe…” (Jr 13,18; ver também 2Rs 24,15).

2. O “primeiro-ministro” ou chefe se tornara uma função distinta no governo real. O rei tinha vários chefes (em 1Rs 4,7 haviam doze), mas um homem era o chefe diante deles e se situava entre o rei e seus outros ministros. Quase dois séculos após Davi, Isaías profetizou uma transição no governo real, na qual um primeiro-ministro seria trocado por outro (ver Is 22, 15-25), desta profecia, podemos dizer que qualquer um no reino podia identificar o primeiro-ministro: “ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá”. O sinal do papel do primeiro-ministro era o da chave do reino. “E eu vou colocar sobre seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará; ele fechará, e ninguém abrirá”.

3. A oferta de agradecimento ou o “sacrifício de ação de graças” se tornou a primeira liturgia celebrada no Templo, muito mais do que o sacrifício de reparação pelos pecados (ver Sl 50,13-14; 116, 17-19). A oferta de agradecimento (Lv 7, 12-15) incluía pão não fermentado e vinho oferecidos a Deus em gratidão pela libertação. Mestres judeus antigos previam que, quando viesse o Messias, nenhum outro sacrifício seria oferecido: a única oferta de agradecimento continuaria. A palavra hebraica para “oferta de agradecimento” é todah, e foi traduzida para eucaristia em várias traduções gregas das Escrituras e nos escritos de antigos judeus, tais como Fílon e Áquila.

FONTE: livro: Razões para Crer, Scott Hahn. Editora Cléofas

*Scott Hahn: Teólogo católico. Ex-Pastor presbiteriano – utilizava todas suas forças para converter pessoas da Igreja Católica para a Evangélica, até que ele mesmo veio a converter-se ao catolicismo.

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por Católicos na Rede Postado em Artigos

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