Uma análise da música: Sacramento da Comunhão

Padre Luis Fernando *

Eu penso que os letristas católicos, sobretudo quem possui o caráter do sacramento da Ordem, devem compor suas canções a partir de alguns critérios. O primeiro, sempre, será a inspiração para determinada letra. Sim, pois, é o Espírito Santo quem inspira o compositor católico. No entanto, o Espírito Santo não pode inspirar algo que confunda os fiéis de Cristo. Por isso, o segundo critério deve ser igualmente importante: é o critério teológico, pois, a matéria humana pode influir no momento da composição e “inspirar”, junto com o Espírito Santo, determinada canção. A matéria humana é por vezes ambígua. Por isso, para evitar as ambiguidades que a “carne” pode sugerir é que se faz necessário um critério teológico no momento da composição e publicação das canções católicas.

Há algum tempo que venho me sentindo desconfortável com a canção “Sacramento da Comunhão” cantada, alhures, a plenos pulmões Brasil a fora. Vou fazer algumas considerações que eu penso ser pertinentes. Sem tirar o mérito de quem a compôs, pretendo contribuir para que no futuro, algumas ambiguidades possam ser evitadas com a finalidade de contribuir para o sempre necessário amadurecimento da fé cristã adulta.

Primeira estrofe: Senhor, quando te vejo no sacramento da comunhão / Sinto o céu se abrir e uma luz a me atingir / Esfriando minha cabeça e esquentando meu coração.

Segunda estrofe: Senhor, graças e louvores sejam dadas a todo momento / Quero te louvar na dor, na alegria e no sofrimento / E se em meio à tribulação, eu me esquecer de ti / Ilumina minhas trevas com Tua luz.

Refrão: Jesus, fonte de misericórdia que jorra do templo / Jesus, o Filho da Rainha / Jesus, rosto divino do homem / Jesus, rosto humano de Deus

Terceira estrofe: Chego muitas vezes em Tua casa, meu Senhor / Triste, abatido, precisando de amor
Mas depois da comunhão Tua casa é meu coração / Então sinto o céu dentro de mim

Quarta estrofe: Não comungo porque mereço, isso eu sei, oh meu Senhor / Comungo pois preciso de ti / Quando faltei à missa, eu fugia de mim e de Ti / Mas agora eu voltei, por favor aceita-me

As ambiguidades desta canção começam pelo relevo ao sentir, expresso duas vezes. Quando se fala no sentir, nesta canção, fala-se de sentir o céu. O Catecismo diz que um dos frutos da Eucaristia é a antecipação da glória celeste dos Filhos de Deus (CIC, n. 1402). Os que dela tomam parte já participam da vida bem-aventurada dos santos em Cristo e aguardam com expectativa a segunda vinda do Messias quando, então, Cristo será tudo em todos (CIC, n. 1404-1405). O “céu” do qual fala a letra da música é certamente esta realidade que a doutrina da Igreja expressa, no entanto, o “céu” não é um sentir, mas, a posse já presente desta realidade futura através do Sacramento. Cito aqui Frei Inácio Larrañaga no seu livro “Busco a tua face”: a fé não é sentir. É saber. Os nossos sentimentos não servem de parâmetro para nos mostrar a “face” de Deus. Ela continua oculta no véu, Ele permanece completamente Absoluto, o Totalmente Outro, independente do homem por Ele criado. O homem adulto na fé relaciona-se com Deus porque Deus É, sem mais adjetivos ou atributos, sem malabarismos psicológicos para justificar sua existência ou sua falta, simplesmente porque Ele É Absoluto, o Totalmente Outro, aquele que permanece para sempre habitando numa luz inacessível ao domínio humano. A isto damos o nome de FÉ.

Jesus, nos últimos momentos de sua agonia foi esplêndido. No Getsêmani, derrubado ao chão, suava sangue e clamava a Deus, seu Pai, que lhe afastasse aquele cálice. Tudo era como um delirium, um sentimento fortíssimo de angústia, tristeza imensa e abandono, uma evidência clara de solidão e desespero. No entanto, Ele venceu o delirium, tomou posse de sua consciência, levantou-se e já de posse de todo seu ser de Pessoa travou o último combate: o da certeza do saber contra a evidência do sentir e neste último combate venceu a fé, venceu a certeza para além de toda evidência: “Pai, não vejo nada. Tudo é treva ao meu redor. Sinto-me desesperado, minhas sensações internas me dizem que estás longe e que entre mim e ti há um abismo infernal, um vazio cósmico, um imenso nada. Entretanto, apesar de todas as sensações eu sei que sempre estás comigo, por isso “não se faça o que eu quero, mas o que tu queres”; e na mesma ordem interior, no alto do Gólgota, ele se ergue em si mesmo para dizer: “em tuas mãos entrego a minha vida”. É muito fácil deixar-se levar pelo rio das sensações. Difícil e estreita, porém, é a estrada do saber da fé.

O “sentir” presente nesta canção é um reflexo do nosso tempo. Porém, o que seja “esfriando a minha cabeça e esquentando o mu coração” eu não compreendo fora deste mesmo sentir. Ele arrasta consigo a quarta estrofe que padece da síndrome do Filho Pródigo. Ninguém sob este céu é merecedor do Augustíssimo Sacramento da Comunhão! Ninguém! No entanto, o Senhor nos purifica de nossos pecados e nos introduz na sala dos Filhos para o Banquete Escatológico da Eucaristia cujo alimento espiritual é o próprio Senhor no Sacramento. Este saber joga para longe aquele sentir. Este saber joga para longe a síndrome do Filho Pródigo. O enfraquecimento psicológico dos cristãos não conduz à uma sadia consciência da falta e da culpa com a consequente conversão e confissão dos pecados para uma vida nova. Pelo contrário, o sentimento de inferioridade reforçado por letras como esta faz a pessoa sentir o remorso da culpa e torna-a uma culpa mórbida que nada produz de efeito positivo na vida da pessoa, senão choro, sentimento de culpa; depois mais choro e mais sentimento de culpa.

Este mesmo sentimento de inferioridade expressa-se na segunda estrofe. É louvável querer louvar sempre o Senhor, seja na alegria ou na tristeza, na dor ou na abundância. Porém, há certa prostração entregue nesta letra que, depois, ecoa na quarta estrofe, como citei acima, na síndrome do Filho Pródigo. Esta resignação diante do sofrimento não é cristã. Há um valor expiatório no sofrimento humano quando ele é integrado e orientado ao Cristo crucificado, como ensinou o Santo Papa João Paulo II na Carta Apostólica Salvifici Doloris n. 19. No entanto, louvar o sofrimento por ele mesmo é masoquismo, é gostar de dor e cultivar sofrimento desnecessário.

Por fim, o restante da canção me parece bem concatenado, com inspiração em frases ou pensamentos de santos como São Padre Pio e mesmo na Sagrada Escritura e documentos recentes do Magistério Ordinário dos Papas. No entanto, vale sempre lembrar os dois critérios para se compor: inspiração, sim, mas, teologia também!

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* Padre Luis Fernando – Secretário do Conselho Presbiteral da Diocese de Itumbiara, Coordenador Regional de Pastoral e Promotor Vocacional Diocesano

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por Católicos na Rede Postado em Padres

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