Renovação das Promessas Sacerdotais

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Na Quinta-feira da Semana Santa, na celebração da Missa do Crisma, nós renovamos nosso compromisso sacerdotal. Momento marcante em nossas vidas. Durante o tempo da Quaresma, fomos convidados a nos renovar e converter sempre e cada vez mais. Aos poucos vamos renovando os sinais de nossa vida de entrega a Cristo. É dentro desse contexto que temos a graça de poder renovar nossos compromissos diante de nosso povo, a quem servimos.

Toda vocação é, essencialmente, uma iniciativa de Deus, assim como toda a obra de Redenção é iniciativa do Amor de Deus: Nós amamos porque Ele nos amou primeiro (1 Jo 4, 19). A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores (Rm 5, 8), Ele deu tudo “antes”. Deus sempre nos dá tudo antes.

A nossa vocação cristã é um dom do Amor de Deus, um dom eterno, prévio: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda bênção espiritual nos Céus, em Cristo. Nele, Deus nos escolheu, antes da criação do mundo, pra sermos santos e íntegros diante dele, no amor […]. Ele nos predestinou a adoção como filhos, por obra de Jesus Cristo, para o louvor da sua graça gloriosa (Ef 1, 3-6). O Papa Bento XVI comentou esse pensamento, dizendo: “O primeiro gesto divino, revelado e concretizado em Cristo, é a eleição dos que creem, fruto de uma iniciativa livre e gratuita de Deus […]. Comovo-me ao meditar esta verdade: desde toda a eternidade, estamos diante do olhar de Deus e Ele decidiu salvar-nos. E esta chamada tem como conteúdo a nossa santidade” (Audiência geral, 6/7/2005).

A nossa vocação para o sacerdócio é também um dom, um grande dom eterno e gratuito do Amor de Deus. A vocação dos Apóstolos mostra isso de maneira clara, diáfana. Todos eles são “surpreendidos” por Cristo, que os procura e chama (Não fostes vós que me escolhestes…: Jo 15, 16); e lhes faz ver que os tinha escolhido desde toda a eternidade (por exemplo: mal vê Simão, irmão de André, fala-lhe como a um conhecido íntimo, e lhe dá o nome novo que trazia desde sempre no coração, Cefas: Jo 1, 42). Neste sentido, São Paulo, usando uma expressão já clássica entre os Profetas do Antigo Testamento, falará da sua vocação, dizendo: Mas quando aprouve àquele que me reservou desde o ventre de minha mãe, e me chamou pela sua graça… (Gl 1, 15).

Essa vocação é, por definição, um “seguimento”, consiste em “seguir” a Cristo: Segue-me (cf. Mt 9,9; Mc 1, 17; Lc 18, 22 etc.). A resposta ao chamado divino é o início de uma nova vida: todos os planos anteriores ficam para trás, definitivamente. (Abandonaram a barca e seu pai e O seguiram (Mt 4, 22); Atracando as barcas a terra, deixaram tudo e O seguiram [Levi] deixando tudo, levantou-se e o seguiu (Mt 5, 26) etc.).

A partir do momento em que correspondem à vocação, já não há planos pessoais, nem há um roteiro pré-estabelecido por Cristo que vá servir de pauta detalhada para o novo caminho da vida. O caminho é o próprio Cristo, dia a dia, e o roteiro são, em cada momento, os seus passos. Eis que nós deixamos tudo para te seguir – dirá Pedro –. Que haverá então para nós? (Não sabia o que viria, nem Cristo lhe explicou com detalhes: Jesus disse-lhe apenas que não ficaria sem nada, mas teria o cem por um: cf. Mt 19, 29).

A fidelidade à vocação tem, pois, algumas características próprias porque é uma resposta confiante, baseada na fé, mesmo que tudo fique na escuridão, e também uma renúncia total à “vida própria” e às “coisas próprias”. Podemos dizer, ao mesmo tempo, que é a disposição de seguir “Jesus aonde quer que fores” (Mt 8, 19), sem “roteiro prévio”, sem “seguro de imprevistos”, sem “condições” (coisa que Jesus, hiperbolicamente, expressa a um que queria segui-Lo: Um dos seus discípulos disse-lhe: “Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai”. Jesus, porém, respondeu: “Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos” (Mt 8, 21-22).

A fidelidade, a correspondência à vocação, só pode ser entendida através dessa “ótica evangélica”. Haverá sempre a tentação de aplicar à vocação e às dificuldades ou problemas que o caminho da vocação apresenta uma “ótica humana”, análoga à ótica com que se analisam os problemas relativos a escolhas meramente mundanas (por exemplo, a escolha de profissão, do tipo de lazer, de hobby etc.); ou, então, a tentação de buscar nas ciências humanas (psicologia, sociologia etc.) a resposta aos problemas que se experimentam no caminho vocacional, respostas que só podem ser alcançadas pela fé e o amor, ou seja, que só Deus nos pode dar.

No final do Sermão da Montanha, como um grande fecho do discurso, Jesus diz: Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos Céus. E, a seguir, faz uma consideração, que todo aquele que foi chamado com uma vocação de seguimento de Cristo, numa entrega total, deveria meditar: – Naquele dia [o do Juízo], muitos vão me dizer: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? Então, eu lhes declararei: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7, 21-23).

São palavras fortes, mas límpidas. Ser fiel não é fazer o “meu plano bom e bem intencionado”, nem “fazer o bem do meu jeito”, nem “viver a vocação como eu desejo vivê-la”, mas realizar o plano e o bem que a Vontade de Deus me pede, assumir o “modo” de seguir a Cristo que Ele deseja e me indica com palavras de obediência, com acontecimentos, com fatos, com contrariedades, com alegrias e inspirações inesperadas.

Já disse alguém que, se queremos ser fiéis, devemos estar dispostos a não ser o “santo” que nós desejaríamos, mas o “santo” que Deus quer que sejamos, e, para isso, pedimos nesse dia de renovação dos compromissos sacerdotais que nossos corações estejam abertos ao plano e vontade de Deus.

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