Deus compartilha conosco as experiências dramáticas da vida

Dom Antonio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen/RS

Durante toda a nossa vida passamos por muitas experiências. Algumas são agradáveis e todos as gostam de partilhar conosco. Noutras, por vezes bem dramáticas, sentimo-nos abandonados por todos e sofremos completamente isolados. Silenciamos algumas situações por falta de coragem; omitimos outras por encontrar forças na alma para enfrentá-las..
Esta também foi a vivência de Jesus, enquanto verdadeiro homem. A tudo se deixou submeter por obediência a Deus Seu Pai, para nos redimir como verdadeiro Filho de Deus.
Recordemos algumas circunstâncias postas em evidência por S. Marcos no Evangelho da Paixão deste domingo (Marcos 14,1-72; 15,1-47) .

Jesus não reage ao beijo de Judas, mas aceita passivamente o que Lhe está a acontecer, a fim de «se cumprirem as Escrituras». Assim, Marcos, quer acentuar que Jesus não Se revolta contra os acontecimentos, que não pode impedir, e Seu Pai não quer fazer milagres para Lhe evitar as desgraças que recaem sobre os homens. Nós, como Jesus, podemos rezar para que Deus nos livre de certas provas, desde que, depois, estejamos dispostos a suportar as contrariedades que temos de enfrentar na vida.

Há um pormenor que somente este evangelista aponta: «Seguia-O um jovem envolto apenas num lençol; prenderam-no, mas ele, deixando para trás o lençol, fugiu completamente nu». O jovem representa o discípulo de Cristo. Para seguir Jesus os apóstolos deixaram tudo, mas no momento em que se apercebem que o término da viagem é a oferta da vida, tudo abandonam, mas agora não para seguir Jesus, mas para fugir.
Nesta narração ninguém toma a defesa de Jesus. É abandonado pelos discípulos, traído pela multidão, zombam d’Ele, é flagelado e humilhado pelos soldados, insultado pelos que passam. Faz a experiência da impotência, do abandono, do falimento da sua luta contra a injustiça, a mentira, a opressão dos poderes instituídos. Somente algumas mulheres O observavam de longe. Jesus sente-se completamente abandonado por todos, até pelo Pai e, por isso, grita: “Meu Deus, porque Me abandonaste?”.

Conosco pode acontecer algo semelhante: quando nos empenhamos em viver de maneira coerente com aquilo em que cremos, quando queremos construir na comunidade civil ou eclesial, uma relação de sinceridade e de concordância com o Evangelho, acabamos muitas vezes por nos encontrar isolados, desaprovados por amigos, recusados pela própria família. Nestas circunstâncias podemos sentir-nos abandonados por Deus e interrogarmo-nos se valerá a pena lutar e sofrer tanto para acabar vencidos. É nestes momentos que devemos olhar para Cristo e encontrar n’Ele uma resposta para as nossas contrariedades.

Marcos apresenta Jesus sempre em silêncio durante o processo. Perante os ultrajes, as provocações, as mentiras, Ele cala-Se. Nada responde. Consciente de que já haviam decidido a sua condenação, não aceita qualquer disputa que em nada iria alterar a sentença. Não reagindo, Jesus atesta, não apenas a sua firmeza de estar na verdade, mas a convicção de que a justa causa por Ele sustentada acabará por triunfar.
O cristão, como Jesus, não é fraco e sem audácia, não se omite, não deixa de lutar contra o mal, mas procura a verdade por todos os meios legítimos. É alguém que, como Jesus, se recusa a utilizar a falsidade usada pelos seus opositores através da difamação, da mentira ou da violência. Não se amedronta com a derrota, não se preocupa com a vitória dos seus adversários, pois sabe que se trata de um sucesso ilusório.

O ponto fulcral de toda a narração é a profissão de fé declarada ao pé da cruz pelo centurião romano: «Realmente este homem era o Filho de Deus». Todo o Evangelho de Marcos apresenta-nos Jesus recomendando àqueles que curava para nada revelarem sobre os Seus atos miraculosos. Tal segredo deve ser conservado até ao fim, pois que só depois da sua morte e ressurreição será possível perceber quem Jesus verdadeiramente é. O centurião reconhece Jesus como Filho de Deus não pelos fatos extraordinários que acontecem no momento da morte do Senhor, mas pela forma como Ele morre. Este soldado pagão é a figura de todos os homens que chegam à fé em Jesus, não por terem presenciado qualquer prodígio, mas por terem percebido o sentido duma vida oferecida aos irmãos, por amor.
Desejo a todos uma frutuosa Semana Santa.

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