Alguns princípios de mariologia

Pe. Juan Carlos Casté, EP

O interesse despertado pelas grandezas e dons da Santíssima Virgem é tão antigo como a própria Igreja, pois, como se sabe, desde os primeiríssimos tempos debruçavam-se os cristãos sobre a singular figura da Mãe de Deus, anelando conhecer mais a seu respeito.

Uma ciência nascida da piedade popular

Nesse sentido, alegra-nos destacar que a amorosa consideração sobre Nossa Senhora por parte do povo fiel antecedeu de muitos anos, até de séculos, as explicitações dos teólogos. Neste movimento de fé, devemos ver a ação do Paráclito impulsionando os devotos que começaram a celebrar a maternidade divina, a virgindade perpétua de Maria ou sua Assunção em corpo e alma aos Céus, muito antes dos pronunciamentos oficiais do Magistério Pontifício. Esse feliz impulso dado pelo Espírito Santo contribuiu para que, depois, os estudiosos recolhessem os tesouros da piedade popular e lhes dessem adequada formulação teológica.

Contudo, a ciência mariológica enquanto tal demorou muito em estruturar-se. Não quer isto dizer que antes não havia estudos teológicos sobre a Donzela de Nazaré, pois desde os Santos Padres, e depois na Idade Média, houve grandes explicitações marianas. Enquanto ciência, porém, temos um primeiro estudo realizado pelo conhecido teólogo espanhol Francisco Suárez (1548-1617). E quem pela primeira vez usou o termo mariologia foi Plácido Nigido, em seu trabalho Summa Sacræ Mariologiæ, editado na Itália em 1602.

Desse modo foram se desenvolvendo os estudos teológicos sobre Maria Santíssima, e os especialistas neste elevado tema, com ajuda da tradição proveniente dos Santos Padres, cujos ensinamentos estão enraizados na piedade cristã, explicitaram importantes princípios, como os relacionados a seguir.

Princípio de singularidade

A Santíssima Virgem ocupa na hierarquia da criação um lugar singularíssimo, imediatamente abaixo de Jesus.

Bastero de Eleizalde especifica: “Sendo Maria, por desígnio divino, uma criatura única e singular, recebeu do Senhor graças e privilégios que estão fora da lei comum e que não podem convir a nenhuma outra criatura”.1 Santo Anselmo de Cantuária exprime de modo poético esta verdade: “Maria é a mulher maravilhosamente singular e singularmente admirável”.2 Segundo Royo Marín, o grau de graça e de glória ao qual Maria foi predestinada, enquanto eleita para ser a Mãe do Verbo de Deus Encarnado, “excede muito o de todos os Anjos e Bem-aventurados juntos, sendo superado apenas pela graça e glória de seu
Divino Filho Jesus”.

Em outros termos, Ela é única. Alguns teólogos formulam assim este princípio: “Acima de Vós, só Deus; abaixo de Vós, tudo quanto não é Deus”. E o Papa Pio XI ensina: “Do dogma da maternidade divina, como do jato de um arcano manancial, emana para Maria uma graça singular: sua suprema dignidade, abaixo de Deus”4.

Princípios de conveniência e eminência

São Tomás fundamenta da seguinte forma o princípio de conveniência: “Aqueles que foram eleitos por Deus para alguma coisa, Ele os prepara e dispõe de modo que sejam idôneos para desempenhar a missão”.5 Ora, a missão da Virgem Santíssima foi a da maternidade divina! Conferiu-Lhe, pois, o Criador todos os dons efetivamente convenientes para desempenhá-la. E o Beato Pio IX ensina: “Certamente, era de todo conveniente que uma Mãe tão venerável brilhasse sempre adornada dos fulgores da santidade mais perfeita”.

Variante do princípio de conveniência é o de eminência. Assim o define a teologia: Maria recebeu de Deus, em grau de plenitude, todos os privilégios conferidos por Ele a qualquer Bem-aventurado. Grandes Santos – como São Bernardo, São Boaventura e Santo Alberto Magno – afirmaram com clareza essa eminência da Santíssima Virgem Maria. E o Papa Pio XI adota, em sua Encíclica Lux veritatis, esta categórica afirmação de Cornélio a Lápide: “É a Mãe de Deus. Logo, todo privilégio concedido a qualquer Santo, na ordem da graça santificante, Ela o tem mais que todos”.

Princípio de analogia

Indica a existência de uma semelhança entre os privilégios da humanidade de Cristo e os de Maria. Em sua obra acima citada, explica Bastero de Eleizalde: “Maria possui de forma análoga, de acordo com seu estado e condição, os diversos privilégios da humanidade de Jesus Cristo. Vemos que à plenitude de graças de Cristo, à sua realeza e a seu caráter redentor, etc., correspondem de forma análoga a plenitude de graças de Maria, sua realeza e sua mediação”.

São Luís de Montfort, em seu célebre Tratado da verdadeira devoção, vale-se de uma expressão muito bela para explicar essa realidade: “Deus Pai reuniu todas as águas e as denominou mar; reuniu todas as suas graças e as chamou Maria”.

Princípio de associação

Maria é associada ao Filho na obra da Redenção. Grandes Santos e teólogos afirmam este princípio, e a eles se junta a voz dos Papas que ressoa com áurea sonoridade no firmamento da mariologia.

O Beato Pio IX afirma: “A Santíssima Virgem, unida com Ele por um liame estreitíssimo e indissolúvel, foi, conjuntamente com Ele e por meio d’Ele, a eterna inimiga da venenosa serpente, e esmagou-lhe a cabeça com seu pé virginal”. 10 E, segundo Leão XIII, “A Virgem Imaculada, escolhida para ser Mãe de Deus”, foi “por isto mesmo feita Corredentora do gênero humano”.11 Pio XII, no mesmo sentido, declara: “Esta gloriosíssima Senhora foi escolhida para Mãe de Cristo ‘para Lhe ser associada na Redenção do gênero humano’ […]. A Bem-Aventurada Virgem Maria é Rainha, não só porque é Mãe de Deus, mas ainda porque, como nova Eva, foi associada ao novo Adão”.

Pois bem, a origem de todos esses princípios, e de muitos outros que poderíamos enunciar, está no inefável privilégio da maternidade divina de Nossa Senhora. Por ter sido escolhida por Deus para essa extraordinária missão, Ela foi cumulada de dons e privilégios insondáveis.
( Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/215, n. 158, p. 36-37)

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