O Combate espiritual

Professor Felipe Aquino

 

“Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever” (Ef 6,13).

O Papa Francisco falando sobre o primeiro domingo da Quaresma disse que: “O sentido deste tempo é o de combate espiritual contra o espírito do mal. E enquanto atravessamos o “deserto” quaresmal, mantemos o nosso olhar para a Páscoa, que é a vitória definitiva de Jesus contra o Maligno, contra o pecado e contra a morte”.

Ele disse ainda que: “O deserto quaresmal nos ajuda a dizer ‘não’ a tudo que é mundano, aos “ídolos”, ajuda-nos a fazer escolhas corajosas de acordo com o Evangelho e a reforçar a solidariedade para com os irmãos”.
A quaresma começou com o Evangelho de São Lucas onde Jesus exige: “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz a cada dia e me siga… Quem sacrificar a sua vida por amor de Mim, salvá-la-á” (Lc 9,23).

Essas palavras parecem radicais, mas não são. É nossa felicidade, claro, senão Jesus não as teria dito e exigido isso de nós. Ele nos ama. O pecado original desorganizou a nossa natureza e a nossa vida; tirou-nos o foco de Deus, que é nossa felicidade, e nos voltou para as criaturas. Elas foram criadas para nós, para que servindo delas cheguemos a Deus; mas, o pecado original nos tornou escravos delas e não seus senhores. O dinheiro é ótimo como servo, mas é cruel como patrão; o mesmo posso dizer do sexo, da comida, do lazer, etc. A fraqueza da carne nos tornou escravos das criaturas. O combate espiritual é a luta conosco mesmo para não sucumbirmos sob esses falsos deuses. Por isso, Jesus manda “renunciar a nós mesmos”, isto é, a essa natureza de valores invertidos. Não é renunciar a nossos talentos; ao contrário, como Ele mandou, desenvolvê-los e usar para o bem para o serviço de Deus e dos irmãos.
Jesus compara a nossa riqueza interior a uma semente cheia de vida, que traz nela todo o código genético da planta e todos os elementos DNA e RNA necessários para o seu crescimento, mas que precisa ser colocada na terra, e morrer, para dar fruto. Ele disse: “Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer produz muito fruto” (Jo 12,26).
O grão de trigo não foi feito para ficar no saco, na gaveta, no armazém; não, foi feito para morrer na terra. Morrendo gera a vida, as flores e frutos. Ai ele é feliz, ali ele se realiza, mas tem que aceitar morrer! Perder a casca na terra, deixar o germe de vida brotar.

O que impede o grão de trigo de morrer no coração de Deus, é o pecado, o egoísmo e o medo. Por isso, o combate espiritual é um combate contra nós mesmos. Jesus disse que os violentos arrebatariam o Reino de Deus. Violentos contra si mesmos. Que violência essa? É o que os Padres da Igreja chamavam de “agere contra”, o que significa “agir contra” os nossos maus pensamentos, as paixões desordenadas e os vícios grandes e pequenos que se aninharam em nossa alma. Resumindo, são os pecados que a Igreja chama de “capitais”, cabeças, pais de muitos outros. Eu escrevi um livro para meditar sobre isso: OS PECADOS E AS VIRTUDES CAPITAIS: soberba, ganância, luxúria, gula, ira, inveja e preguiça. Esses são pais de muitos outros, como a mentira, a maledicência, a arrogância, idolatria, bebedeiras, orgias, adultérios, fornicações, etc.
Outro livro maravilhoso para se preparar para esse combate espiritual foi escrito pelo monge do século XVI, Lourenzo Scupoli, O COMBATE ESPIRITUAL, e que era livro de cabeceira de São Francisco de Sales, doutor da Igreja. Posso recomendar ainda o clássico, IMITAÇÃO DE CRISTO, de Thomas de Kemphis, monge medieval, que Santa Teresinha lia assiduamente.

Jesus poderia ter se livrado da tentação do deserto, poderia não ter permitido Satanás chegar a Ele e o tentar; mas Ele permitiu, para nos ensinar como vencê-lo. O demônio quer acima de tudo “nos afastar de Deus”, a fonte da nossa felicidade. “Sois o meu Senhor, fora de Vós não há felicidade para mim. Senhor, Vós sois a minha parte de herança e meu cálice; Vós tendes nas mãos o meu destino”. (Sl 15,2).
O Mal nos afasta de Deus pela tentação e pelo pecado, como fez com nossos pais no Paraíso, na casa de Deus. Até ali ele ousou entrar! E venceu Adão; mas foi vencido pelo Novo Adão, Jesus Cristo, inicialmente no deserto.

E como Jesus o venceu? Pelo jejum, pela oração e pela Palavra de Deus. No combate decisivo Jesus lançou três vezes a Palavra de Deus, o Deuteronômio, no rosto de Satanás, e ele caiu para traz. “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus!” (Dt 8,3). “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás” (Deut 6,13). “Não tentará o Senhor teu Deus” (Dt 6,16).
O demônio não pode nada contra a Palavra de Deus porque “ela é viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes…” (Hb 4,12). Ela é “a espada do Espírito” (Ef 6,17). Sem ela, estamos desarmados diante do Mal. Nós também precisamos trazer esta espada de fogo no coração e nos lábios contra as tentações. Meditá-la, absorvê-la, guardá-la, amá-la.
Meditar quer dizer tirar dela todo ensinamento e vivê-lo. O meu amigo Pe. Francisco Faus, no seu belo livro PARA ESTAR COM DEUS, disse que meditar “é como chupar uma bala” até o fim, devagarinho, até que caia o ensinamento na alma.

Papa Francisco perguntou: “E como escutamos a voz de Deus? Ouvimo-la na sua Palavra. E por isso é importante conhecer as Escrituras, porque senão nós não saberemos responder às insídias do maligno”.
O Papa convidou a entrar sem medo no deserto, pois não estamos sozinhos: estamos com Jesus, com o Pai e o Espírito Santo. Como foi para Jesus, o mesmo o Espírito Santo nos guia no caminho quaresmal, o mesmo Espírito que desceu sobre Jesus e que nos foi dado no Batismo. O Nosso combate espiritual não pode ser travado por nós mesmos sozinhos; não, temos que vencer na força do Espírito Santo. São João disse que “esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1 Jo 5,4). O salmista canta:

“O Senhor é o meu rochedo, minha fortaleza e meu libertador. Meu Deus é a minha rocha, onde encontro o meu refúgio, meu escudo, força de minha salvação e minha cidadela. Invoco o Senhor, digno de todo louvor, e fico livre dos meus inimigos”.

“Na minha angústia, invoquei o Senhor, gritei para meu Deus: do seu templo ele ouviu a minha voz, e o meu clamor em sua presença chegou aos seus ouvidos” (Sl 17,3-7).
Deixo aqui para sua meditação o Comentário ao Evangelho sobre a tentação de Jesus, de São Gregório de Nazianzo (330-390), bispo, doutor da Igreja:
“Se, depois do Batismo, fores atacado pelo perseguidor, o tentador da luz, tens material para a vitória. Ele irá certamente atacar-te, já que também atacou o Verbo, o meu Deus, enganado pela aparência humana que lhe escondia a luz incriada. Não tenhas medo do combate. Opõe-lhe a água do batismo, opõe-lhe o Espírito Santo no qual se extinguem todos os dardos inflamados lançados pelo maligno. […] Se ele te mostrar as necessidades que te oprimem – e não deixou de o fazer com Jesus –, se te lembrar que tens fome, não dês a entender que ignoras as suas propostas. Ensina-lhe o que ele não sabe; opõe-lhe a Palavra de vida, esse verdadeiro Pão enviado do céu e que dá a vida ao mundo. Se ele te estender a armadilha da vaidade – e usou-a contra Cristo, quando O levou ao pináculo do Templo e Lhe disse: «Deita-Te daqui abaixo», para O fazer manifestar a sua divindade –, toma cuidado para não caíres por teres querido elevar-te. […] Se te tentar pela ambição, mostrando-te, numa visão instantânea, todos os reinos da terra submetidos ao seu poder, e te exigir que o adores, despreza-o: ele não é mais que um pobre irmão teu. E diz-lhe, confiando no selo divino: «Também eu sou imagem de Deus; ainda não fui, como tu, precipitado do alto da minha glória por causa do meu orgulho! Estou revestido de Cristo; tornei-me outro Cristo pelo meu batismo… Tenho a certeza que ele se irá embora, vencido e humilhado por estas palavras. Vindas de um homem iluminado por Cristo, serão sentidas por ele como se emanadas de Cristo, a luz suprema. Estes são os benefícios que a água do batismo traz aos que reconhecem a sua força”.

Nesse combate espiritual não pode faltar a presença de Nossa Senhora em nossa defesa. Ela é a mãe espiritual que Jesus nos deu na cruz, que o acompanhou até o túmulo, e que nos acompanha em nosso combate espiritual. A consagração diária a ela e a devoção profunda em seu auxílio, nos ajuda a vencer as insídias do demônio. São João Bosco rezava a ela:
“Virgem poderosa, Tu grande e ilustre defensora da Igreja; Tu auxílio maravilhoso dos cristãos; Tu temível como um exército em ordem de batalha; Tu que só destruístes todas as heresias em todo o mundo; ó Senhora nas nossas angústias, lutas, tentações e aflições, defende-nos do inimigo; e na hora da nossa morte acolhe a nossa alma no paraíso. Amém!”.

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