Ser Misericordioso

                      

 Pe. Inácio José do Vale, OSBM

          “Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Respondeu o doutor: Aquele que usou de misericórdia para com ele!” (Lc 10,36). “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39).

 

Um doutor da lei mosaica questionou Jesus: “Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?”  (Lc 10,25) Jesus questiona o doutor da lei com a própria lei (Lc 10,26). Em seguida, ele para se justificar, inquiriu Jesus sobre o significado da palavra “próximo” (Lc 10,29).

Nosso Senhor Jesus Cristo não interpreta a lei, citando outras leis, como teria sido habitual entre os doutores da lei. Ao contrário Ele interpretou a lei, contando uma parábola. O sacerdote e o levita da parábola foram confrontados com uma interpretação da lei. A lei afirma que nenhum sacerdote “se contaminará por qualquer pessoa morta entre o seu povo” (Lv 21,1). Este procedimento, provavelmente, também se aplicava  aos levitas, porque eles serviram no Templo. Uma vez que a pessoa fosse atacada por ladrões como o da parábola ficaria “meio morta” (Lc 10,30). A pessoa podia parecer morta, ou estar moribunda, mas o sacerdote e o levita teriam de decidir se a lei de ter misericórdia para com os aflitos (Lv 19,16) tinha precedência sobre a lei da pureza de ritual. E eles decidiram que a pureza de ritual tinha precedência. Jesus disse que eles estavam errados. Por mais que Deus deseje sacrifícios e pureza de ritual que devem acompanhar o sacrifício, Ele deseja muito mais a misericórdia (Mt 12,7) – e a misericórdia para todas as pessoas. Isso significa que todo mundo é nosso vizinho (o nosso próximo).

Temos de lidar com o mesmo problema hoje, quando teremos de decidir em colocar a misericórdia antes de julgamento (Tg 2,13), especialmente por aqueles que cometem delitos por deslize da fraqueza humana e por pressão e condicionamento do sistema social injusto e covarde. Se não tivemos misericórdia para com todos, até mesmo com os inimigos, como os samaritanos, então como poderemos considerar todo mundo como sendo o nosso próximo? “Bem-aventurados os misericordiosos” (Mt 5,7) (1).

           Escreve o Papa Francisco: “A misericórdia de Deus: como é bela essa realidade da fé para a nossa vida”! Como é grande e profundo o amor de Deus por nós! É um amor que não falha, que sempre segura a nossa mão, nos sustenta, levanta e guia. Deus sempre espera por nós, não se cansa. Jesus mostra-nos essa paciência misericordiosa de Deus, para sempre reencontrarmos confiança, esperança! (2).

Ser misericordioso é ter experiência do amor de Deus. O viver em Deus se expressa na caridade com todos. São as atitudes de compaixão que transformam o mundo. A misericórdia  cura, liberta, salva e realiza profunda comunhão. Vivemos uma era que necessita urgentemente de misericórdia! Começando pelo ambiente religioso.

 

Pe. Inácio José do Vale

Professor de História da Igreja

Instituto de Teologia Bento XVI

Sociólogo em Ciência da Religião

E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com

 

Notas:

 

  • Um Pão, Um Corpo. Nº 86, p. 7.
  • Francisco, Papa. A Igreja da Misericórdia: minha visão para a Igreja. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2014, pp. 11 e 13.
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