Igreja e caridade

Prof.: Felipe Aquino*
A Igreja moldou a civilização ocidental em todos os seus campos: arte, música, arquitetura, direito, economia, moral, ciência, letras, línguas, etc., mas, o ponto mais marcante foi o da caridade. Seria impossível escrever a história completa da caridade da Igreja, desde que Jesus ensinou os seus discípulos a “a amar o próximo como a si mesmo”.

São incontáveis os números de hospitais, sanatórios, escolas para crianças pobres, asilos, creches, etc. que os filhos da Igreja sempre mantiveram durante todos esses vinte séculos de cristianismo. E ainda hoje essa rede imensa de caridade continua; só para dar um exemplo, basta dizer que 25% de todas as obras de assistência aos aidéticos hoje são mantidas pela Igreja católica em todo o mundo.

Mesmo o francês Voltaire, talvez o maior anticatólico do século XVIII, teve de reconhecer a caridade dos filhos da Igreja. Ele disse que “talvez não haja nada maior na terra do que o sacrifício da juventude e da beleza, realizado pelo sexo feminino para trabalhar nos hospitais para aliviar a miséria humana”.

A caridade católica sempre foi totalmente gratuita, desinteressada, diferente de muitas outras formas de filantropia que esperavam algum retorno seja em forma de reconhecimento ou de destaque social.

A caridade ensinada por Cristo foi “algo novo” no mundo antigo; onde se deve “amar até o inimigo” e “perdoar os que nos maltratam”. Também para a Igreja vale a frase do Apóstolo: “a sua imensa caridade encobre a multidão dos pecados dos seus filhos”.

Os Padres da Igreja que legaram seus ensinamentos ao mundo, mesmo entre suas enormes ocupações, tiveram tempo de se dedicar ao serviço da caridade. Santo Agostinho fundou um hospital para peregrinos, resgatou escravos, e socorreu os pobres. Ele pedia ao povo não lhe dar roupas, mas vendê-las e dar o dinheiro aos pobres. São João Crisóstomo, o grande Patriarca de Constantinopla no século IV, fundou ali uma série de hospitais. São Cipriano de Cartago e Santo Efrém organizaram grandes trabalhos nos tempos de pragas e fome. Não há um santo sequer da Igreja que não tenha vivido exemplarmente a caridade.

A Igreja desde o seu início cuidou dos órfãos e viúvas, numerosos por causa das guerras, e estava presente para socorrer os doentes em todas as epidemias. Muitos e muitos santos e católicos perderam as suas vidas socorrendo os doentes. Durante a peste que atingiu Cartago e Alexandria, os cristãos ganharam respeito e admiração pela coragem e bravura com que consolavam os moribundos e enterravam os mortos, enquanto os pagãos abandonavam até mesmo os amigos à sua terrível sorte.

Sabemos que hospitais como temos hoje, não havia na civilização grega e romana; a Igreja Católica foi pioneira em criá-los com médicos, enfermeiros, remédios, e demais procedimentos. No século IV a Igreja começou a mantê-los nas cidades menores, atendendo viajantes e doentes, viúvos, órfãos e pobres.

Uma mulher chamada Fabíola, por caridade cristã, criou o primeiro hospital público em Roma. São Basílio Magno fundou um hospital em Cesareia, na Terra Santa, ainda no século IV, especialmente para os leprosos. Os mosteiros também prestaram muitos atendimentos aos doentes.

Risse Guenter, em A History of Hospitals, mostra que quando caiu o Império Romano do ocidente (476), os mosteiros assumiram cada vez mais os cuidados dos doentes como nunca foi feito na Europa por vários séculos. Esses mosteiros se tornaram verdadeiras escolas de medicina entre os séculos V e X; falava-se do período da medicina monástica. Durante os anos do reavivamento (século IX) com Carlos Magno, os mosteiros se destacaram como os principais centros de estudo e transmissão dos textos antigos de medicina.

Os Cavaleiros de São João (Hospitaleiros), deixaram na Europa a sua marca na história dos hospitais, desde 1080, ajudaram os pobres e os peregrinos que iam à Terra Santa. Os “Hospitais de São João” impressionavam pelo profissionalismo, onde se realizavam até pequenas cirurgias e os doentes recebiam visitas duas vezes ao dia dos médicos, banhos e duas refeições principais, além de roupas limpas e brancas. Esses hospitais foram modelos para a Europa.

A caridade da Igreja sempre foi tão grande que impressionou até os seus inimigos. O escritor pagão Lúcio (130-200) escrevia impressionado com a urgência com que os cristãos se ajudavam mutuamente.

O próprio imperador Juliano, o Apóstata, inimigo do cristianismo, que tentou restabelecer o paganismo no império, por volta de 360, elogiava a caridade dos cristãos e reconheceu que enquanto os sacerdotes pagãos abandonavam os pobres, os “odiados galileus” os tratavam com caridade, com as mesas preparadas para os indigentes, algo que era comum entre eles.

Mesmo Martinho Lutero, inimigo da Igreja, foi obrigado a reconhecer que “sob o Papa o povo era ao menos caridoso, e que não era preciso usar a força para conquistar as almas, e que agora, no “reino do Evangelho (Protestantismo) ao invés de dar, eles roubam um ao outro” [Baluffi].

Frederick Huiter, um biógrafo do Papa Inocêncio III declarou: “Todas as instituições beneficentes que a humanidade possui nesses dias para ajudar os pobres, todos os que têm sido feito para a proteção dos indigentes e aflitos… E todos os tipos de sofrimentos, vêm direta ou indiretamente da Igreja de Roma” [Baluffi].

No século XVI quando Henrique VIII tornou-se inimigo da Igreja e suprimiu os mosteiros da Inglaterra e confiscou as suas propriedades, a consequência social, foi enorme. Houve uma rebelião popular em 1536, conhecida como “Peregrinação da Graça”, que teve muito a ver com a ira do povo com o desaparecimento da caridade dos mosteiros [Daniel Rops. V.1, pág. 181]. A dissolução dos mosteiros ingleses e a redistribuição de suas terras – garante Philip Hughes – “significou a ruína de milhares de pobres camponeses, a destruição de pequenas comunidades que os sustentavam”. Milhares de desempregados das fazendas foram colocados nas ruas; o pauperismo cresceu assustadoramente.

Durante os séculos após a morte de Carlos Magno em 814, muito dos cuidados aos pobres, até então a carga das paróquias da Igreja, migraram para os mosteiros. Nas palavras do rei São Luís IX da França, os mosteiros eram “o patrimônio dos pobres”; o que sempre foi desde o século IV. Em cada lugar onde surgia um mosteiro, nos vales e montanhas, formavam-se centros de vida religiosa organizada com escolas, modelos para a agricultura, indústria, piscicultura, reflorestamento, proteção aos viajantes, alívio para os pobres, órfãos, cuidado dos doentes, e atividade cultural como já vimos.

Durante a Idade Média os monges deram refúgio aos peregrinos aliviando os horrores da neve nos Alpes. Os beneditinos premonstratenses, bem como as Ordens mendicantes de São Domingos de Gusmão e de São Francisco de Assis se destacaram na caridade. Para São Bento “cada visitante devia ser recebido no mosteiro como se fosse o próprio Cristo”. Mas os monges não apenas esperavam os pobres virem a eles, iam atrás dos pobres e doentes para socorrê-los.

O que aconteceu com os mosteiros da Inglaterra de Henrique VIII, no século XVI, aconteceu também na França com a Revolução Francesa de 1789, quando os mesmos revolucionários confiscaram as propriedades da Igreja: secou a fonte da caridade. Na época o arcebispo de Aix em Provença alertou que tal roubo era uma ameaça à educação e à provisão do povo. Em 1847 a França tinha 47% hospitais a menos do que no ano do confisco e em 1799 os 50.000 estudantes das universidades se reduziram a 12000 [Davies, Michel, For Altar and Throne: The Rising in the Vendée, St. Paul, Minn.: Remmant Press, 1997, p. 11].

Nos tempos dos bárbaros a civilização foi abandonada; só a Igreja lutava contra a miséria, socorria os indigentes; os “pobres benditos” que viviam perto da catedral; havia os “fundos de socorro” que estavam em toda parte. Os bispos e sacerdotes amavam os pobres. Havia também hospícios, hospedarias para estrangeiros e hospitais, mantidos pela Igreja; surgiram depois os leprosários e ou “hospitais de Lázaro”.

Os fracos, pobres, órfãos e viúvos estavam sob a proteção da Igreja. A maior parte dos rendimentos dos mosteiros era aplicado na caridade. Especialmente nas épocas de grandes calamidades, fomes e flagelos, a caridade da Igreja se fazia presente, pois o Estado pouco fazia. O povo, então, se voltava para os conventos, cujos celeiros, viveiros eram abertos ao povo. “Foram numerosas as casas de bispados e mosteiros que venderam os seus tesouros, e até mesmo os vasos sagrados, para arrancarem da fome o povo cristão que os rodeava” (Daniel Rops, V. III, 281).

A partir do século IX cada paróquia tinha organizado o auxílio aos pobres e possuía um registro, a “matrícula”, dos que recebiam ajuda; tudo era subsidiado pela quarta parte dos dízimos e metade das doações feitas à paróquia. Os mosteiros tinham também a sua “matrícula” sob os cuidados do monge “esmoler”.

A partir do século XI começaram a surgir as Ordens dedicadas à caridade. A Ordem hospitalar mais antiga foi a dos “Antoninos”; nasceu em Vienne, em 1095, na paróquia onde estavam as relíquias de Santo Antão. Foi a Ordem dos “Irmãos Hospitalares de Santo Antão”. Em 1178 foi fundada por Guy de Montpelier a “Ordem do Espírito Santo”, hospital para crianças abandonadas; no final do século XIII tinha cerca de 800 casas. Em 1150 surgiu em Bolonha o “Crucifeu”, e na Boêmia os “Stelliferi” em 1160. Em 1099, após a tomada de Jerusalém pelos cruzados surgiu a “Ordem de São Lázaro”, para cuidar dos leprosos do Oriente. Foram trazidos também para a França por Luiz VII e cresceram muito na Europa e na Ásia, onde chegaram a ter 3000 leprosários. Inocêncio IV a transformou em “Cavaleiros de São Lázaro” que existem até hoje.

Assim, com o esforço conjunto da hierarquia da Igreja, das novas Ordens caritativas e da generosidade popular, surgiu uma multidão de instituições de caridade. É de se registrar que a Igreja pedia que as crianças abandonadas fossem deixadas nas portas dos mosteiros, para não serem mortas. Estas eram cuidadas pela Ordem do Espírito Santo ou pelos hospitalários de São João de Jerusalém, que vieram do Oriente para prestar seus serviços na Europa. Alguns desses asilos de crianças eram enormes e elas só saíam daí trabalhando. Havia casas especializadas em leprosos, o grande mal daquele tempo. A Igreja tinha aprendido com o “beijo de São Francisco de Assis no leproso”, a ver neles um irmão em Cristo. São Luís de França, Santa Isabel da Hungria e Santa Hedwiges se destacaram nessa caridade. Só na França em 1225, o rei Luís VIII comprovou a existência de mais de dois mil leprosários. São Roque (1293-1327), patrono dos leprosos, consagrou toda a sua vida ao cuidado deles, tendo morrido também como leproso.

É impossível enumerar todas as formas de caridade assumidas pelas pessoas da Igreja. Algumas se consagraram à recuperação das prostitutas, essa chaga social. Inocêncio III numa bula de 1198 prometeu remissão total dos pecados aos homens piedosos que desposassem essas mulheres reconduzindo-as ao bom caminho. Pedro o Eremita fundou uma Congregação para salvá-las; e surgiram outras com a mesma finalidade. A mais célebre foi a Ordem das “Irmãs penitentes de Santa Madalena”, as ”madalenetas”.

Também os viajantes e peregrinos eram protegidos pela caridade cristã. Na Itália, os Hospitalários d’Altapaseio guiavam os viajantes nos pântanos perigosos de Luca; na Espanha, os Cavaleiros de Santiago protegiam os peregrinos de Compostela; na Palestina, essa era uma das funções dos Templários.

A Cristandade não era uma noção abstrata, mas sim a própria força de Cristo animando a sociedade. Há a caridade que vai mais longe ainda. Não podemos deixar de falar aqui das “Ordens redentoras”, que na Ásia e na África; esses heróis que partiam para os países muçulmanos e se ofereciam para substituir os fiéis cativos e escravos correndo risco de morte. São as Ordens fundadas em 1198 por São João da Mata (os Trinitários); em 1223 pelo francês São Pedro Nolasco (os Mercedários – Nossa Senhora dos Mercês) e por São Raimundo de Peñafort, espanhol. Desde a sua fundação até a revolução Francesa (1789), estas duas Ordens libertaram mais de 600.000 cativos, entre os quais Cervantes, o mestre espanhol.

Essa caridade da Igreja ultrapassa em muitas as nossas obras sociais e a Previdência Social de hoje. O regulamento dos hospitais de Paris, em 1230, dizia que se deviam receber “os pobres e doentes como ao Senhor”. Em todos os testamentos parisienses, da Idade Média, há uma doação para o “Hotel-Dieu” de Paris (o Hotel de Deus).

A caridade de Cristo, de Madre Teresa de Calcutá, de São Francisco de Assis, de São Camilo de Lellis, de São João Bosco, e de tantos santas e santas nunca precisou de uma ideologia materialista e inimiga de Deus para a impulsionar. A força propulsora desta caridade bi-milenar sempre foi a oração, o amor a Deus e aos irmãos, vendo no que sofre o Cristo que padece.
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*Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
Site do Autor: http://www.cleofas.com.br

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