Cinco Jesus: os quatro que nós inventamos, e o Jesus que nós encontramos

Tom Hoopes*

Como evitar os mal-entendidos sobre Ele?

“Sem a Igreja, Jesus ficaria à mercê da nossa imaginação, das nossas interpretações, do nosso humor”, disse o papa Francisco no dia 1º de janeiro.

Isto, sem dúvida alguma, é verdade. Nós reescrevemos Jesus, como em “O Código Da Vinci”; nós o repensamos sem a fé, como nas obras do cético Bart Ehrman; ou reimaginamos a fé sem a religião, como tentaram fazer, em seus livros recentes, os autores James Carroll e Bill O’Reilly.

Existem vários Jesuses em nossa cabeça e é importante fazer o esforço de separá-los. Eu não pretendo listar aqui todas as respostas erradas para a pergunta “Quem é Jesus?”. A verdade é que eu mesmo caio com frequência em cada uma das respostas erradas – e suspeito que mais gente também…

O primeiro Jesus: um vívido e amoroso amigo imaginário

Minha esposa e eu damos aulas para os crismandos em nossa paróquia de Atchison, no Estado do Kansas, EUA, e eu sempre abro a primeira aula dizendo: “Levante a mão quem acha que a seguinte afirmação é verdadeira: Jesus é um amigo imaginário que vai nos dar um abraço toda vez que precisarmos dele”.

Normalmente, pelo menos a metade das mãos se joga para cima. Às vezes, quase todas. Mas eu estou orgulhoso dos meus alunos deste ano: eles não só não levantaram mão nenhuma como ainda protestaram: “Ele não é imaginário!”.

De qualquer maneira, mesmo a turma deste ano teve dificuldades para entender que nem sempre Jesus nos abraça: algumas vezes, Ele retém o seu amor para nos fazer desejá-lo com mais intensidade.

A verdade é que todos nós, de vez em quando, fazemos de Jesus uma espécie de consolação emocional. Mas isso é perigoso. Jesus mesmo nos disse: “Quem me ama, guardará os meus mandamentos”. Ora, se o nosso Jesus é só um amigo imaginário abraçável, guardar os mandamentos dele é uma coisa que não fará sentido nenhum nem terá impacto algum sobre nós. E o mundo vai descartar rapidamente esse Jesus por vê-lo apenas como uma fraqueza psicológica nossa, da qual é melhor não participar.

O segundo Jesus: um embasamento moral para a nossa ideologia

Vivemos em uma sociedade onde as perguntas sobre nós não priorizam mais “Qual é a sua religião?” ou “De que família você é?”, mas sim “Qual é o seu partido ou orientação política?”.

Numa sociedade assim, corremos o constante perigo de politizar Jesus Cristo. Um lado se convence de que Jesus vota na direita porque os direitistas são pró-vida (ou, pelo menos, são contra o aborto) e avessos à redefinição do casamento. O outro lado tem certeza de que Jesus vota na esquerda porque os esquerdistas se opõem às guerras (exceto quando eles próprios começam as guerras) e se mostram a favor dos pequenos (desde que os pequenos já tenham nascido, não sejam muito velhos e não trabalhem numa fábrica na China).

Como quer que seja, podemos reduzir Jesus, no meio desses mal-entendidos, a um fator entre muitos outros fatores que compõem algo de grande importância para nós: as nossas opiniões políticas (ou aquilo que achamos que são “opiniões políticas”). Este Jesus não tem a nossa permissão para desafiar essas opiniões; nós é que procuramos garantir que esse “nosso” Jesus as reforce sempre.

O terceiro Jesus: um talismã mágico

Este erro na visão que temos de Jesus pode ser cometido tanto por quem o evoca quanto por aqueles que o temem.

Para os religiosos, Jesus pode se tornar um tipo de “gênio da lâmpada” capaz de realizar os seus desejos, bastando repetir esses desejos com insistência e com “sentimento”. Já para os temerosos, Jesus pode virar uma espécie de “bicho-papão”: Ele não é levado muito a sério, mas também é bom não “desrespeitá-lo”, por que vai que isso dá azar ou atrai represálias do além…

Trate-se de religião superficial ou de mera superstição, esta atitude presta a Jesus um terrível desserviço e acaba destruindo a fé nele. Se Deus, para nós, serve apenas para satisfazer os nossos desejos errantes, não vamos demorar a descobrir que Ele não “funciona” do jeito que gostaríamos. E se Jesus é só uma “força do karma” que nos exige tomar cuidado, logo descobriremos que Ele é uma força bem fraquinha…

O quarto Jesus: o da apologética

Outra armadilha em que os católicos ativos, leitores de blogs e defensores da Igreja podem cair facilmente é a de reduzir Jesus a um item-chave para as suas discussões: aquela figura que serve para “dar sentido” aos seus argumentos.

Quando descobrimos a apologética, percebemos que a nossa fé não é um absurdo; que ela dá forças para a nossa vida e melhora o nosso relacionamento com Deus durante algum tempo. O problema é quando tudo acaba por aí mesmo. O fato é que o nosso relacionamento com Deus tem que progredir sempre. Não basta concluir que “Jesus demonstra que a Igreja está certa e que o mundo está errado”; é preciso descobrir que “Jesus é a Verdade, a Beleza, a Bondade e o Mistério, e que o mundo e eu temos que lutar para compreendê-lo melhor”.

Esse Jesus da apologética, no fim das contas, não é tão diferente do “Jesus histórico” sobre o qual os céticos gostam de especular: Ele é um mero objeto de erudição humana, uma figura fascinante, mas remota.

O quinto Jesus: o Deus Filho e o filho de Maria

Eu não vou conseguir resumir o verdadeiro Jesus em poucas frases, mas, na primeira homilia que fez em janeiro, o papa Francisco nos deu uma pista: “A nossa fé não é uma doutrina abstrata ou uma filosofia, e sim uma relação vital e completa com uma pessoa: Jesus Cristo”. Jesus é o verdadeiro Deus que realmente compartilhou da nossa humanidade e que realmente está conosco nos sacramentos.

Os mal-entendidos em que caímos quando o assunto é Jesus não são muito diferentes dos enganos que cometemos no tocante a outras pessoas que fazem parte da nossa vida. Tendemos a diminuir, romantizar ou desdenhar a nossa esposa ou o nosso marido em vários aspectos da nossa relação, antes de nos lembrarmos de que ela ou ele é de carne e osso. A melhor maneira de melhorar a nossa compreensão da nossa esposa ou esposo é passando mais tempo com ela ou ele, falando e também ouvindo. A mesma coisa acontece com Jesus.

Em todos estes equívocos, o maior problema é que eles fazem de Jesus um meio para um fim, e não um fim em si mesmo. Nós nunca vamos entender o Jesus real até nos encontrarmos com Ele nos contextos em que Ele pode ser encontrado: nas sagradas escrituras, no tabernáculo, no confessionário, na comunidade dos crentes e nos ensinamentos da Igreja.
*Tom Hoopes
Escritor, leciona na Faculdade Beneditina em Atichison, Kansas EUA. É editor do Jornal “Gregorian”. Foi editor da revista National Catholic Register.

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por Católicos na Rede Postado em Artigos

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