O Pós-Dilúvio e o Casamento

Pe. Otacílio Ferreira Lacerda
Pároco da Paróquia Santo Antonio de Gopoúva/SP
Há alguns anos celebrei um casamento na Missa. As Leituras proclamadas: Gn (8,6-13.20), Sl 115 e Evangelho Mc 8,22-26.
O Livro do Genesis citava os primeiros dias depois do dilúvio e o Evangelho a cura do cego de Betsaida.

Primeiras perguntas:
– O que a Leitura proclamada tem a ver com o Sacramento do Matrimônio a ser celebrado?
– Como relacionar os primeiros dias pós-dilúvio com a realidade do casamento?
– O que tem a ver a cura do cego com a realidade do casamento?

Acenei para algumas respostas, cabendo ao leitor complementá-las.

No fim de quarenta dias de chuva, Noé envia a pomba que na primeira vez retorna sinalizando que ainda não havia baixado as águas. Na segunda, ao entardecer volta trazendo no bico um ramo de oliveira. Mais sete dias de espera e recomeça a história do pós-dilúvio.
Noé e sua família têm que recomeçar uma nova história, terão de ser fecundos, multiplicar sobre a terra. É o recomeço, a reconstrução, o reinício…

– O Casamento também não terá seus momentos de recomeço, reconstrução e reinício?
– Não se espera a volta de um entardecer com a alegre notícia de que as águas secaram e um novo tempo se pode começar?

O Casamento é um eterno recomeço. Muitas vezes “quarenta dias de chuva” se prolongam nos relacionamentos conjugais, parecendo uma chuva interminável, parecendo que tudo vai alagar, inundar, afundar; sonhos são naufragados, submersos nas dificuldades e pesadelos, nas carências e ausências… Muitas vezes parece já não restar nenhuma esperança, um aparente fim anunciado que já mais poderá ser reiniciado.

O pós-dilúvio aponta para o eterno recomeço de um casamento. Recomeçar sempre cada dia, com entusiasmo, com fé e coragem. Reconstruir o que possa aparentemente ter desmoronado. Redimensionar os espaços, alargar horizontes do amor, do perdão, da compreensão…
Quantas vezes casais recomeçaram uma nova história, uma nova proposta, um reencantamento? Pode ter sido num Encontro de Casais, um Sacramento da reconciliação buscado; uma palavra amiga que os tenham despertado…

Há uma segunda resposta: Deus desistiu de destruir a humanidade, para além de toda infidelidade, maldade, iniquidade, desobediência. O perdão possibilitou o recomeço da humanidade com o dilúvio.

Quantos relacionamentos se refizeram a partir da prática do perdão. Há um pensamento que traduz isto; “Se quiserdes ser feliz por um instante: vingai-vos. Se quiserdes ser feliz para sempre: perdoai-vos”. Sem perdão, reconciliação, não há casamento que possa durar. Não só o casamento, pois o perdão é a mais bela expressão de que o Amor falou mais forte que o pecado.

Há uma terceira resposta que procede do Salmo: Quantas experiências pais vivem ao verem seus filhos partirem para junto de Deus. Aqui a Palavra deve falar por si mesma: “É sentida por demais pelo Senhor a morte dos inocentes”. Deus também Se faz presente na vida do casal, dos pais que celebram a páscoa de seus filhos, com compaixão. Assim esteve presente na morte de Seu Filho, plantando para sempre no coração de Maria e de toda a humanidade a esperança e certeza da Ressurreição em que a Vida venceu a Morte.

Logo em seguida, vemos Noé tomando as providências para erguer um Altar para Deus, oferecendo animais em holocaustos sobre ele. A Sagrada Escritura diz que Deus respirou o agradável odor e prometeu nunca mais amaldiçoar a terra por causa da desobediência da humanidade, e nada deixar faltar. Mais duas respostas encontramos.

A quarta é a gratidão, o culto, a relação de Noé com Deus: expressos na construção de um Altar. Que haja estreita relação de toda mesa com a Mesa Sagrada do Altar. As mais belas mesas de uma casa o deixam de ser se não estiverem ligadas com a Mesa Sagrada do Altar.

De nada adiantam belos castiçais, se não houver a procura do Cálice Sagrado e da Bebida que o purifica. Os mais belos pratos numa mesa não têm beleza alguma se não estiverem ligados com a Patena do Altar, onde o Corpo de Cristo Se encontra para ser partilhado numa grande Festa de amor, partilha e comunhão.

A gratidão de Noé para com Deus: a ação de graças que se há de celebrar sempre – as famílias precisam se voltar mais para o Altar, se reunindo com frequência ao seu redor. Sem o encontro do Altar, não haverá alegria em nenhum lar, porque o amor facilmente há de faltar.

A quinta: Deus é o Deus providente. Nada nos deixa faltar. Um casamento onde Deus tem Seu devido lugar, nada há de faltar. Como o Salmista reza – “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” – tudo concorre para bem daqueles que o Senhor ama. Pode um casal ficar sem coisas materiais, efêmeras, mas não sem Deus e o Seu indispensável amor e providência.

Finalmente, do Evangelho vem a última palavra para o casamento: Jesus curou a cegueira daquele homem de Betsaida. O cego representa a humanidade, o catecúmeno na busca da Luz que somente em Deus se encontra – “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não anda nas trevas, mas tem a luz do mundo” (Jo 8,12).

O casamento é este mistério da cura de toda cegueira. Quantas vezes o casal se vê em situações e num primeiro momento não enxerga saídas, não encontra respostas? Porém, Palavra ouvida, Sabedoria do Espírito pedida, visão restabelecida, caminhos encontrados. Uma luz se acende sempre quando a Deus se recorre. Não há escuridão que possa ocultar a luz de Deus.

O casamento é esta constante busca da cura, do novo olhar. A cegueira pode tomar conta quando fala mais alto o egoísmo, a indiferença, o individualismo, o fechamento, o isolamento, a apatia, a falta de fé, a falta de oração, numa palavra, a ausência de momentos de interioridade e intimidade com Deus e entre o próprio casal. É necessário que o casal tenha momentos de intimidade com Deus juntos, momentos de oração iluminadores, restauradores.

Ouvi certa vez de um casal: “Quando deixamos de rezar, as coisas começaram a não dar mais certo”. Logo concluímos que a oração do casal é um colírio indispensável e que evita toda miopia espiritual.
O Casamento tem suas cruzes, mas também suas luzes, por isto é preciso rezar sempre:
“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis, e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado. E renovareis a face da terra.”.

Somente a Luz do Espírito Santo para revitalizar casamentos para um sempre luminoso pós-dilúvio. Assim os casais poderão dizer juntos: “Quando vemos a Luz, enxergamos a Esperança, revigoramos a fé, contemplamos a caridade que jamais passará! A Caridade renova a fortaleza de ânimo para suportar todo lavor, opróbrio e injúria, sem nada pensar de mal…”, como disse o Abade São Máximo (séc. VIII).

Que esta reflexão possa ser uma luz acesa a se contrapor aos ventos que sopram querendo apagar as luzes que foram acesas em tantos corações; nos corações daqueles que procuram fazer do casamento um sinal do Amor de Deus.

Que seja uma possibilidade de ver, para além das aparências de um eminente caos, o reinício de uma nova história.

Que seja um regar da semente das forças que parecem exaurir totalmente em tantos casais.

Que seja mais que uma reflexão, mas uma humilde prece pela Santificação da Família; um ato de fé de que o Sacramento do Matrimônio não pode ceder ao evangelho do mundo, que o anuncia como algo superado.

Cremos na Boa Nova do Evangelho, cremos que o Casamento é um Mistério Sagrado, que carrega seus maravilhosos mistérios e o maior deles, o Mistério Pascal. O casamento é Mistério de Paixão, Morte e Ressurreição!
7. Saber pedir desculpa quando estiver errado. Pedir desculpa é sinal de maturidade e sinceridade. Não nos diminui, mas nos restaura desde que não se desperdice o perdão recebido, a desculpa alcançada. Perdão recebido não é carta branca para persistir no erro, ao contrário.

A misericórdia de Deus é a possibilidade de uma nova vida, pois Ele faz novas todas às coisas. No perdão alcançado o amor se revelou mais forte que o pecado. Portanto não possibilita ao perdoado abusar e não corresponder o perdão recebido, pois foi expressão de amor.

8. Nunca ir dormir sem ter chegado a um acordo, no dia seguinte poderá ser bem mais difícil. “Que o sol não se ponha sobre o ressentimento”, como falou o Apóstolo Paulo (Ef 4,26).

9. Ao menos uma vez por dia, dizer ao outro uma palavra carinhosa. Muitos relutam em expressar ternura por julgar desnecessário. O enamoramento de um casal deve ser permanente, ainda que transformações ocorram. Entretanto, muitas vezes ele vai esmorecendo, esgotando, enfraquecendo…

10. Não esquecer nunca que quando um não quer dois não brigam. O que se ganha e quem ganha com a briga? Quem paga a conta? Quem assume os estragos da discórdia? Briga não é sinônimo de diálogo, de troca de ideias, de busca de caminhos, de divergências. Há brigas que começam tão pequenas e tão fúteis e terminam trágicas, com sequelas para toda vida…

Talvez alguém diga: “até aqui nada de novo, nada de original”. Pode até ser, mas muito mais que originalidade, desejo oferecer algo que possa ajudar os casais para a originalidade própria de um casamento que nunca pode ser olvidada, ao esquecimento condenada.

Concluindo:
Será sempre original o casal que procurar viver estes dez mandamentos, testemunhando que o amor é possível, que o casamento é sagrado.

Será sempre original procurar oferecer uma pequena e valiosa ajuda a tantos quantos desejem viver a santidade do matrimônio.

Será sempre original a busca incansável de caminhos que edifiquem nossos lares como santuário da vida, espaço do amor, da alegria, da comunhão, do perdão, da festa, mas não sem cruz, com renúncias, perdão, partilha, recuos, silêncios, paciência, mansidão, misericórdia ativa, criatividade incansável.

Será sempre original a busca de luzes divinas para iluminar a escuridão que se encontram tantas famílias.

Que esta reflexão seja um pequeno raio de luz a entrar pela fresta da janela do seu lar. Que seja ao menos um pouco de ar a aliviar a asfixia que condena e mata a alegria em tantos lares. Que não tenha chegado tarde, pois creio que sempre é tempo de semear o que possa bons frutos produzir!

Raio de sol e oxigênio são mais do que necessários para nossas famílias. Urge reafirmar a importância e o papel da família na construção de uma sociedade justa e fraterna; família como espaço da alegria, do aprendizado, da vivência do amor.

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por Católicos na Rede Postado em Padres

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