A comunhão e a corresponsabilidade dos presbíteros na Igreja

Dom Antonio Keller
Bispo de Frederico Westphalen/RS

Um dos elementos focalizados pelo Concílio Vaticano II foi, a partir do capítulo I da Lumen Gentium, em que se trata do mistério da Igreja, a acentuação de que ela é um povo reunido a partir da unidade, da comunhão do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
A fonte mais profunda de origem da Igreja encontra-se na Santíssima Trindade. A Igreja é, no mundo, o reflexo e a vivência do ministério trinitário, é a comunhão existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que deve caracterizar toda a comunhão eclesial. O Pai doa-se inteiramente ao Filho, de sorte que o Pai esteja todo no Filho e o Filho todo no Pai; o Pai e o Filho fazem proceder de Si o Espírito Santo, de sorte que o Pai e o Filho estejam totalmente no Espírito Santo e o Espírito Santo, todo no Pai e no Filho. Esse estar “todo” de uma pessoa divina na outra, que acontece pela comunicação do Pai para o Filho, denomina-se geração. É a geração eterna do Verbo! A comunicação do Pai e do Filho no Espírito Santo recebeu, em 1438, no Concílio de Florença, o nome de expiração.

Todo esse processo indica a comunhão mais íntima que se possa imaginar das três pessoas divinas. Essa comunhão é o modelo de qualquer comunhão.
A comunhão é mais do que democracia, é fraternidade. Comunhão é diálogo, corresponsabilidade, participação, solidariedade. Não é imposição do parecer da maioria à minoria, mas é a simbiose harmônica de todos os pareceres.

São todos valores que se encontram no mistério trinitário e devem ser refletidos no mundo criado.
Comunhão implica sempre uma dupla dimensão: vertical (comunhão com Deus) e horizontal (comunhão com a humanidade). Essa comunhão com o Pai por Cristo no Espírito Santo se exprime visivelmente no perseverar unânime na doutrina dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações, e na obediência aos legítimos pastores (uma só fé, um só batismo, um só Senhor).

É assim que Cristo exercita na história a Sua função profética, sacerdotal e régia para a salvação da humanidade.
A raiz e o centro da comunhão eclesial é a Sagrada Eucaristia. Fala-se em comungar. Entende-se, normalmente, a comunhão eucarística. Por isso, não pode comungar Jesus na comunhão quem não comunga com o Pai no cumprimento da sua vontade. Quem não vive em ordem com o plano salvador divino, não pode participar da salvação encerrada na Santíssima Eucaristia. A Eucaristia edifica o Corpo de Cristo, que é a Igreja. É o que diz o apóstolo Paulo: “Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão”.

“Aquilo que vedes sobre o altar de Deus […] é o pão e o cálice: isto vos asseguram os vossos próprios olhos. Ao invés, segundo a fé que se deve formar em vós, o pão é o corpo de Cristo, o cálice é o sangue de Cristo. […] Se quereis compreender [o mistério] do corpo de Cristo, escutai o apóstolo que disse aos fiéis: ‘vós sois o corpo de Cristo e seus membros’ [1Cor 12,27]. Se vós portanto sois o corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor está posto o mistério que sois vós: recebei o mistério que sois vós. Àquilo que sois, respondei: ‘Amém’, e respondendo o subscreveis. Diz-se a ti de fato: ‘O Corpo de Cristo’, e tu respondes: ‘Amém’. Sê membro do corpo de Cristo, a fim de que seja autêntico o teu Amém (Agostinho, 2003).”

Outra força unificadora da Igreja é o bispo, alguém investido da plenitude do sacramento da Ordem. É a partir dessa plenitude que se tece visivelmente a comunhão eclesial. Essa plenitude do bispo supõe a comunhão com os demais bispos, revestidos também da plenitude sacramental, e, consequentemente, com o bispo de Roma, o Romano Pontífice, o santo padre. É a grande comunhão católica, dentro de cuja comunhão todos os cristãos do mundo inteiro se devem encontrar. A plenitude do bispo se exerce, pois, na plenitude da comunhão dos demais bispos e do Romano Pontífice. Vê-se também, por isso, que a comunhão eclesial é a espinha dorsal e todo o ser e agir da Igreja. Assim, pode-se também afirmar que, onde houver um bispo em comunhão, haverá a Igreja-Comunhão.
Esse aspecto da comunhão está na base da colegialidade episcopal. É a grande comunhão dos bispos entre si e com o papa e do papa com os bispos.

O destino de ser colaborador do episcopado é compartilhado por todos os presbíteros e os liga afetiva e ministerialmente numa profunda visão do mistério da Igreja, que é simultaneamente universal e particular. A pertença e a dedicação do presbítero a uma Igreja particular constituem elementos que qualificam para a edificação da Igreja “na pessoa” de Cristo Cabeça e Pastor e não limitam a sua missão, que é universal.
O sentido de “pertença eclesial” surge do fato de que o viver do presbítero pertence à Igreja e esta a Cristo (a Igreja não pertence ao presbítero, não é propriedade sua). Por isso, no seu modo de pensar e operar – na qualidade de “homem de Igreja” – o presbítero deve viver em estreita comunhão com o Romano Pontífice, princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade da fé e da comunhão (Concílio Vaticano II, 2007a, n. 18), com o seu bispo, em sintonia com os outros presbíteros e com os fiéis leigos (João Paulo II, 1991, p. 813). É importante sublinhar que a “comunhão eclesial” não se realiza plenamente no manter as relações somente com a Igreja particular, exige também a relação com a Igreja universal.

O presbítero não pode agir ignorando que a Igreja, edificada por Cristo, qual dom oferecido à humanidade, é universal. A Igreja particular, fora dela, não tem razão de ser, uma vez que esta é Igreja na medida em que nela torna-se presente e operante “a única Igreja de Cristo”.
Desse modo, o sentido de pertença eclesial implica não somente uma relação com a Igreja universal, mas exige também a manutenção da relação com a Igreja particular, onde os presbíteros, de modo especial, formam um único presbitério, cujo serviço é executado sob a tutela do próprio bispo.

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