A difícil e bela missão de ser pai

Padre Otacílio Lacerda
Presbítero da Diocese de Guarulhos – Pároco da Paróquia Santo Antônio de Gopoúva

Celebramos no dia 19 de março a Solenidade de São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria e patrono da Igreja.

A Liturgia da Palavra nos enriqueceu com estas leituras: 2Sm 7, 4-5a.12-14a; Rm 4, 13.16-18.22; Mt 1, 16.18-21.24.

Em tempo, ofereço ao leitor, pela atualidade e profundidade, uma reflexão que trata de uma vocação tão bela e que não pode ser esquecida: a vocação de ser pai.

“A Igreja propondo-nos, em algumas Festas, a figura de homens – os Santos […] Propõe-se, ao invés, essencialmente, um fim educativo e pastoral; quer colocar-nos diante dos olhos encarnações concretas do Evangelho, isto é, um valor religioso vivido exemplarmente num estado e numa situação particular da vida.

O valor evangélico encarnado por São José é o da paternidade: o que é necessário para ser um pai ‘de acordo com os planos de Deus’. É bonito saber que em alguns lugares se tenha escolhido a Festa de São José para fazer nas famílias ‘a festa do pai’.

A segunda leitura nos falou também de paternidade, com a figura de Abraão, pai de muitos povos. Também esta paternidade metafórica, da fé, ajuda a entender o sentido profundo de ser pai.

No Evangelho fala-se, enfim, de outro Pai, o único que Jesus chama ‘o meu Pai’ (talvez para tornar mais precisas as palavras de Maria: Teu pai e eu, angustiados, Te procurávamos).

José é uma pessoa da qual se fala pouco. Temos muitas oportunidades, graças às numerosas festas de Nossa Senhora, falar da mãe e da mulher, mas poucas – talvez somente a de hoje – para falar da pessoa do pai.

[…] No Antigo Testamento – escutamos na primeira Leitura – Deus diz:

Eu serei para ele um Pai; São Paulo escreve que toda paternidade, no céu e na terra, deriva e toma nome da paternidade divina (cf. Ef 3,15).

Em duas coisas Jesus nos ensinou a reconhecer, sobretudo, a paternidade de Deus. A primeira é esta: Deus é Pai porque cuida de nós (cf. 1Pd 5, 7): Vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lhe peçais. […]

Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã (Mt 6, 8-34); vós, pois, que sois maus – acrescenta Jesus – sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem (Mt 7, 11).

São José encarnou este traço da paternidade. Sua solicitude desinteressada pela esposa e pelo ‘filho’ enche as primeiras páginas do Evangelho.

Quantas coisas pode isto sugerir a um pai cristão! O que significa desperdiçar, olhar para o que é realmente útil para a família, não para os próprios gostos e caprichos.

Significa não se aproveitar do próprio trabalho como pretexto para humilhar; nunca fazer pesar aos de casa que eles estão comendo ‘em suas costas’.

Significa cuidar da saúde e da integridade de seus familiares, não expô-los inutilmente a perigos, por exemplo quando dirige o carro.

A solicitude deve estender-se também à saúde mental e moral. Por isso, o pai controlará o que entra em sua casa, pessoas e livros.

O outro traço que Jesus nos apontou muitas vezes na paternidade de Deus é a bondade, isto é, Sua doçura, Sua ternura e Sua longanimidade: Sede misericordiosos – isto é, bons – como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6, 36). Pensemos na atitude com que Jesus descreve o pai na Parábola do filho pródigo, quando este volta para casa: isto é bondade e magnanimidade.

Pensemos agora em São José, em sua delicadeza com Maria quando esta lhe revelou o mistério da sua maternidade, em silêncio no templo.

Uma coisa que os pais devem corrigir é precisamente esta. Seu verdadeiro papel na família não é, com efeito, se ocupar apenas da parte financeira, mas ser a imagem de uma bondade forte ou de uma energia bondosa.

Do contrário, vai acontecer como àquele pai desesperado porque, depois de ter dado ao filho várias notas de cem reais cada semana para se divertir, um dia o ouviu dizer: ‘Você nunca me deu nada. Por que me fez nascer?’.

Seria preciso pensar também no modo com que se exerce a autoridade. O pai não é chefe do jeito de quem dirige um trabalho ou um exército.

Não há coisa mais triste do que conhecer crianças que têm medo do próprio pai e esperam que ele saia de casa para falar e sentir-se livres. Há um número considerável destas crianças que crescem, consequentemente, cheias de inseguranças e de complexos.

É grandeza de alma reconhecer também a contribuição da própria esposa e externar este reconhecimento com gestos e palavras. E depois o diálogo conjugal; é mau sinal reservar seus melhores pensamentos, os comportamentos mais gentis para quando se está fora de casa, com os amigos ou com outras mulheres.

A coisa mais bonita e, tacitamente, mais desejada por parte dos filhos é que o pai e a mãe demonstrem que se querem bem. Isto dá-lhes segurança, os faz crescer; é como oxigênio para seus jovens pulmões. Tantas fugas trágicas no paraíso da droga e da delinquência começam pelas carências neste campo: as rupturas violentas entre pais deixam marcas no ânimo dos filhos e apagam sua confiança na vida.

O amor que havia entre o pai adotivo e a mãe de Jesus! Este s reflete também naquelas sentidas palavras de Maria: Teu pai e eu, angustiados, Te procurávamos; a angustia do pai é mencionada antes da sua.

A paternidade deve se enriquecer, em relação aos filhos, pela amizade. Isto exige que se fale livremente com eles; que não se continue a tratá-los como crianças, como acontece, muitas vezes, também quando são maiores e responsáveis; que não se apele demais para a autoridade e nem para o paternalismo; que se tenha a paciência necessária de esperar que amadureçam para que descubram por conta própria a razão de certas decisões” (1)

Expressiva e iluminadora é a conclusão do autor, que ora apresento em forma de Oração:

“Ó Deus, contemplando a vocação de tantos pais,
Vejo como é bela e difícil a missão de ser pai.

Elevo Orações por todos os pais de nossa comunidade.
Suplico-Vos que lhes conceda a força e a luz divina
para serem como São José,

Pai adotivo do Senhor, servo bom e fiel,
Guardião e defensor da Divina Fonte da Vida, Jesus.

Guiados por Vós, sejam como sois: solícitos, dóceis, ternos,
Pacientes e misericordiosos.

Dai, ó Deus, a eles a alegria serena e a
Graça de viver uma profunda e fecunda paternidade
Sendo de Vós imagem e sinal. Amém!”

Pai Nosso que estais nos céus…

(1) “O Verbo Se fez carne” – Raniero Cantalamessa – PP. 834-836 – Editora Ave Maria

Anúncios
por Católicos na Rede Postado em Padres

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s