A dificuldade de orar em um mundo marcado pela injustiça.

Dom Antonio Carlos Rossi Keller
Bispo de Frederico Westphalen.

Jesus propôs a parábola narrada no Evangelho deste Domingo para convidar os seus discípulos a não desanimarem no seu propósito de implantar o reino de Deus no mundo. Para isso deveriam ser constantes na oração, como o fora a viúva em pedir justiça até que fosse atendida por aquele juiz que se fazia de surdo para não escutar a sua súplica. E a sua constância alcançou-lhe a justiça.

Esta parábola do evangelho tem um final feliz, como tantas outras, embora nem sempre assim aconteça na vida real. Porque é que tanta gente morre sem que se lhe faça justiça, apesar de suplicar a Deus com frequência? Quantos mártires esperaram em vão a intervenção divina no momento do seu julgamento? Quantos pobres lutam para sobreviver sem que ninguém lhes faça justiça? Quantos irmãos e irmãs nossos perguntam até quando vai durar o silêncio de Deus, quando é que Ele vai intervir neste mundo de desordem e injustiça legalizada? Como é que o Deus do amor e da paz permite guerras tão sangrentas e cruéis, a demente carreira de armamentos, ou o desperdício de recursos para a destruição do meio ambiente, a existência de um terceiro mundo que desfalece de fome, a consolidação dos desníveis de vida entre países e cidadãos?

Perante tanto sofrimento, para o cristão fica cada vez mais difícil rezar, entrar em diálogo com esse Deus a quem Jesus chama de «Pai», para pedir-lhe que «venha a nós o teu reino». Atravessado pela noite escura deste mundo, pela injustiça estrutural, fica cada dia mais difícil acreditar nesse Deus apresentado como omnipresente e omnipotente, que faz justiça perante o opressor e protege os oprimidos.

Mas talvez seja necessário apagar essa imagem de Deus que, de fato, não corresponde às páginas do evangelho. Porque, lendo-as, tem-se a impressão de que Deus não é nem onipotente nem impassível, mas sim frágil, sofredor, «padecente»; o Deus cristão revela-Se mais dando a vida que impondo uma determinada conduta aos seres humanos, está no meio dos seus pobres e não à cabeça dos poderosos.
O cristão, consciente da companhia de Deus no seu caminho para a justiça e a fraternidade, não deve desfalecer, mas insistir na oração, pedindo força para perseverar até implantar o Seu reino num mundo onde dominam outros senhores. Neste caso, só a oração o manterá na esperança.
Até que este reino divino seja implantado, a situação do cristão no mundo assemelhar-se-á com aquela descrita por Paulo na carta aos Coríntios: «Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimados; somos postos em extrema dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo; somos perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados. Sem cessar e por toda parte, levamos em nosso corpo a morte de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo» (2 Cor 4, 8-10).

Não estamos abandonados das mãos de Deus. Pela oração sabemos que Deus está conosco. E isto basta-nos para continuarmos insistindo sem desfalecer.
«É pela vossa perseverança que alcançareis a vossa salvação». (Lc 21, 19)

O importante é a constância, a perseverança. Moisés teve essa experiência. Enquanto rezava, com as mãos elevadas no alto do monte, Josué ganhava a batalha; quando as abaixava, isto é, quando deixava de rezar, os amalecitas, seus adversários, venciam. Os companheiros de Moisés, conscientes da eficácia da oração, ajudavam-no para não desfalecer, sustentando-lhe os braços para que não deixasse de orar. E assim esteve – com os braços erguidos, isto é, orando insistentemente –, até que Josué vencesse os amalecitas. De modo simples ressalta-se neste texto a importância de permanecer em oração, de insistir perante Deus.

Na segunda leitura, Paulo também recomenda a Timóteo para ser constante, permanecendo no que ele aprendeu nas Sagradas Escrituras, de onde se obtém a verdadeira sabedoria que, pela fé em Cristo Jesus, conduz à salvação. O encontro do cristão com Deus deve realizar-se através da Escritura, útil para ensinar, repreender, corrigir e educar na virtude. Deste modo, estaremos equipados para realizar toda a boa obra. O cristão deve proclamar esta palavra, insistindo a tempo e a fora de tempo, repreendendo e reprovando a quem não a leva em consideração, exortando a todos, com paciência e com a finalidade de instruir no verdadeiro caminho que por ela nos é revelado.

Trilhando este caminho, viveremos em pleno o desafio missionário que a Igreja confere a cada cristão no dia do seu batismo, renovado em cada dia por um compromisso fiel e feliz com Cristo, com a Igreja e com o mundo do nosso tempo.

Que a Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, faça de cada um de nós verdadeiros missionários e nos ajude a perceber que «é pela perseverança que alcançaremos a salvação» (cf. Lc 21, 19).

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