O perigoso jogo do casamento ioiô

Juan Ávila Estrada
Sacerdote colombiano especializado em Matrimônio e Família.

No relacionamento a dois, o “nós” é uma prioridade, e quem não consegue assimilar isso, continuará falando como um solteiro que não aprendeu a amar

Eu, tu, ele, nós, vós, eles: esta é a ordem dos pronomes que aprendemos na escola. Sempre ficou claro que o “eu” encabeça a lista de todos, e a ele podemos unir os respectivos “meu” e “me”. Para a filosofia, de fato, o “eu” é chave em toda relação humana.

Mas o que acontece quando esse “eu” se encontra com um “tu” e, juntos, estabelecem uma relação de amor? É possível que os pronomes continuem conservando essa ordem ensinada pelo idioma? Não, não é possível.

Pelo contrário: seria um atentado ao amor pensar que o “eu” continua antecedendo os demais pronomes. Mas então, no relacionamento a dois, poderíamos pensar que o mais importante é o “tu”. Tampouco.

O perigo de um “tu” incondicional e irrevocável entre esposos é de que o “eu” se dilua um pouco, até chegar ao aniquilamento da identidade e do princípio de individualidade e unicidade que há em cada ser humano. Não existe um “eu” sem um “tu”, nem um “tu” sem um “eu”.

Então vamos esclarecer: na relação a dois, o pronome que encabeça a lista de todos é o “nós”, pois nele se encontram o “eu” e o “tu”, sem que se misturem, sem anulá-los, sem desconhecê-los, simplesmente unindo-os em uma relação de doação e entrega mútua, na qual ambos começam a viver com dois cérebros, mas um só pensamento.

Não é possível construir uma sólida relação entre o casal, se cada um considera que o “eu” é o mais importante de tudo. O “nós” vem para enriquecer a relação e conferir-lhe uma nova dimensão. Já não se trata do “meu” dinheiro, meus problemas, meu tempo, minha vida; esta não é a linguagem do amor, mas de egoístas casados que, em algum momento, conceberam erroneamente o casamento.

Somos esposos, somos uma nova família, somos uma só carne, somos um projeto de Deus; estamos unidos não somente pelo amor humano, mas pela graça do Senhor, que abençoa esse amor e o torna sobrenatural.

Aqui, não se trata de morrer para nada (como equivocadamente interpretam muitos), mas de um novo viver, de um novo nascimento, de um novo vocabulário, pois tudo é novo entre os esposos. Quem não consegue assimilar isso adequadamente, continuará falando como um solteiro que não aprendeu a amar.

Porque, para casar-se, é preciso revisar até o idioma, reestruturá-lo, recompô-lo.

O casamento não pode ser construído entre dois “eus”, pois suas vidas ficariam unidas como naquele brinquedo infantil, o ioiô, por uma corda curta que os faria viver em forma de sobe e desce ou pêndulo.

Por mais especialistas que sejam muitos no uso do ioiô, por mais malabarismos que saibam fazer com ele, sempre continuarão no mesmo lugar e a corda se enrolará em si mesma, em um eterno retorno sobre o nada.

O “nós” tem capacidade de extensão, abre-se à vida, revisa sempre suas metas, avalia suas estratégias, é criativo, sabe se renovar e fazer da rotina um trampolim para amadurecer, pois leva o casal a criar raízes.

O “nós” não tem medo dos filhos, porque conhece perfeitamente que eles são consequência natural da escolha deste novo pronome. O “eu” só busca o benefício pessoal e a comodidade. Somente o “nós” permite um “ele” que se diz “nosso”. Só o “nós” concebe a vida como um dom de Deus e como uma materialização desse amor que foi consagrado pelo Criador.

Quando você sentir que o “nós” começa a se enfraquecer, lute pelo “tu” para que o “ele” seja preservado. Em uma crise matrimonial, os filhos precisam ver como seus pais lutam pelo seu casamento. É preciso cuidar do cônjuge sem descuidar dos filhos. Quando duas pessoas sabem cuidar uma da outra como um “nós”, elas têm todo o poder para cuidar do “ele” na sua relação.

Por isso, faço uma nova proposta para os esposos cristãos, de ter uma nova ordem entre os pronomes pessoais: nós, tu, eu, ele, vós, eles.

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