O Significado do Jejum

Dom Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro – RJ
O Romano Pontífice Francisco convocou para este dia 7 de setembro uma jornada de oração e jejum mundial em prol da paz na Síria, no Oriente Médio e em todo o mundo. Esta obra de penitência, o Jejum, consiste em respeitar as coisas, numa atitude de liberdade diante delas. “O jejum é a forma de penitência que consiste na privação de alimentos”.

O jejum, no Antigo Testamento, era um dos grandes meios de expiação e seu efeito devia ser acompanhado de sentimentos de compunção e misericórdia (cf. Lv 16,29.31;23,27.32; Is 63,3-7). No Novo Testamento é uma prática de luto e de penitência e é por isso que os Apóstolos não jejuam, enquanto o Esposo está com eles, mas jejuarão quando Ele ausentar (cf. Mt 9,14-15). Jesus, querendo expiar nossos pecados e manifestando sua atitude de respeito e liberdade diante da natureza, jejua durante quarenta dias.

O jejum é o abrir mão de uma comida ou de bebida, não valendo pelo que é, mas pelo que significa. Assim já rezava o Cânon 1251 do Código Pio-Beneditino, uma só refeição no dia e com pequenas porções de alimento pela manhã e à tarde. Alguns poderiam dizer que é um jejum relaxado, mas este modo vem da Tradição da Igreja, por isso é prescrito a todos e assim todos podem fazer jejum!

A norma do Código Pio-Beneditino dizia que a obrigação geral de fazer penitência é realizada para toda a Igreja no dia de jejum e abstinência, na atual codificação, devido a mudanças circunstanciais, a disciplina penitencial admite outras formas, acatando aquelas tradicionalmente existentes. O Papa Paulo VI, na Constituição Apostólica Pænitemini, de 17/02/1966, in AAS 58 (1966), pp. 177-198, determinou e introduziu uma reorganização ex integro à disciplina penitencial da Igreja. O mais importante é viver o que é o jejum, ou seja, a liberdade de rei da criação em todos os momentos de sua vida. Ainda mais neste sábado, quando o colocamos em prol da paz na Síria, que só é possível no momento em que cada responsável se torne mesmo um promotor da paz.

Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido, antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Na Constituição apostólica Paenitemini de 1966, o Servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a “não viver mais para si mesmo, mas para Aquele que o amou e se entregou a si por ele, e… também a viver pelos irmãos” (Cf. Cap. I). O jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos, particularmente aqueles que são afetados pela guerra, especialmente as crianças que foram dizimadas na Síria por armas químicas ou os que estão se refugiando para fugir do horror da guerra. Na sua Primeira Carta São João admoesta: “Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?” (3, 17). Ouvindo o apelo do Papa Francisco, jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente, particularmente os que perdem a vida em nome da guerra.

Para este sábado, a Igreja nos apresenta quatro tipos de jejuns: o primeiro é o Jejum com uma refeição: O fiel poderá tomar o café da manhã como faz normalmente e depois faça apenas uma refeição, ou o almoço ou o jantar. Deixará de fazer uma refeição, que será substituída por um lanche simples. Fazer jejum não significa passar fome. Jejuar é refrear a gula e disciplinar o nosso alimentar, evitando “beliscar” os alimentos durante o dia. O segundo jejum é o Jejum a pão e água: nessa categoria deve-se comer pão quando se tem fome e beber água quando se tem sede e apenas isso e nada mais. O terceiro jejum é à base de líquidos: o fiel não come nada, limitando-se a tomar líquidos, como chás ou sucos de maneiras moderadas, desde que não sejam vitaminas, não valendo aqui o jejum à base de caldos. O quarto tipo de jejum é o Jejum completo: quando não se come coisa alguma e só se bebe água. Nessa categoria, recomendável para as pessoas que dedicarão o dia em oração, em abertura à graça, à contemplação e à ascese.

Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e todas as outras comunidades a intensificar neste dia 07 de Setembro a prática do jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a oração e a esmola. “Ainda que convenha manter-se a forma tradicional de jejuar, os fiéis, contudo, poderão cumprir o preceito do jejum, privando-se de uma quantidade ou qualidade de alimentação ou bebidas que constituem verdadeira privação ou penitência.”
Por meio do jejum, todos os homens e mulheres são chamados a ter uma atitude de respeito, de liberdade.

Enfim, eis uma forte expressão comunitária que proporciona uma conversão, um recomeçar uma vida nova: Jejum! Deus abençoe o seu jejum e que o seu gesto de penitência ajude a fomentar a paz no mundo, o grande fruto desejado pelo Papa Francisco!

 

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