O Mestre da Oração

Côn. Vidigal*
Na sua passagem por esta terra Jesus não apenas ensinou a prece do “Pai Nosso”, mas também, através de seu exemplo, desvendou como deve se comportar o orante. Embora vivesse continuamente unido ao Pai, enquanto homem, os locais marcantes para ele entrar em oração são sumamente sugestivos. Retirava-se muitas vezes longe do bulício dos homens para um ambiente deserto, o qual facilita a contemplação, uma aplicação demorada e absorta do espírito numa sublime tertúlia.

Outras vezes escalava o monte para orar, sublinhando que a oração é mesmo uma elevação do ser humano rumo ao Ser Supremo. Preferiu em diversas ocasiões a calada da noite que propicia tranquilidade, imperturbabilidade, para a união com o Pai. No Horto das Oliveiras e no alto de uma Cruz sua prece, que se transformou num sacrifício vivo, regenerou a humanidade com clamores profundamente significativos. Eis a razão pela qual o Papa Bento XVI sabiamente ensinou: “Também em nossa oração nós devemos aprender, sempre mais, a entrar nessa história de salvação da qual Jesus é o ápice, renovar na presença de Deus a nossa decisão pessoal de nos abrimos à sua vontade, pedir a Ele a força de conformar a nossa vontade à sua, em toda a nossa vida, em obediência ao seu projeto de amor por nós”. É que orar não significa pronunciar palavras, mas vivenciar as palavras. Jesus ensinou um modo como se deve orar, ou seja, transformar a vida em prece, tudo conformando aos desígnios do Pai. A prece então metamorfoseia inteiramente a existência do seu discípulo, a transfigura. Mais do que pensar em Deus, é preciso ter a mente repleta de idéias sobre Deus. Esta é a audácia conferida pelo Mestre divino a quem tem fé. Pode se dirigir a Alguém que é o Criador increado, o infinitamente grande, mas que devota a quem foi criado à sua imagem e semelhança um amor paternal. Eis porque uma das características da oração é a simplicidade. Cumpre um elã do coração, um simples olhar para o Céu, um clamor de reconhecimento e de amor seja no momento de angústia, seja no instante de júbilo. Isto resulta de uma confiança inabalável no Todo-poderoso Senhor. Vale sempre, porém, a grande norma teológica: “É rezando que se aprende a rezar”. Então se poderá chegar a encontrar Deus coração a coração. Prece intensa, colocando-se entre parêntesis o que é material para só se concentrar na Fonte da Luz. Cumpre receber esta luminosidade em plenitude. Nesta luz o apelo de Deus encontra a resposta do homem e o clamor humano encontra o coração repleto de compaixão de um Pai amoroso. Antes da vinda de Jesus a esta terra a prece do homem muitas vezes estava envolta em certa penumbra. Em Jesus se cumpriu totalmente a promessa salvífica de maneira irrevocável e definitiva. O Pai celeste não apenas atende as preces, mas dá a cada um de seus filhos o melhor, pois o grande tesouro que se recebe ao se dirigir a Ele é Ele mesmo. A oração introduz assim na comunhão com o Pai. Orar é estar na presença do Deus três vezes santo, permitindo que Ele venha habitar no seu filho para o deificar. À medida que reza quem tem fé vai se purificando e também se tornando um mediador autêntico do amor de Deus junto dos irmãos e de toda a humanidade. Esta comunhão na vida divina é possível graças ao batismo no qual se recebe o Espírito Santo e o cristão se torna um com Cristo. Com ele se pode repetir “Abba”, pois Deus é, de fato, Pai. Entra-se assim no coração de um Deus que é misericórdia. Tal foi a grande revelação que Jesus trouxe para a humanidade. No Antigo Testamento se dirige a Deus, se clama por Deus. No Alcorão se diz que Deus é grande, Deus é Deus. Cristo mostra que este Deus é um Pai que olha cada um como filho predileto. Daí a necessidade de se entrar filialmente em sintonia com Ele. Disto resulta uma segurança íntima porque Sua ternura é infinita. Um amor sem fim supera as fraquezas humanas, todos os erros, dado que o perdão é continuamente possível lá onde reinar a sinceridade de um firme arrependimento. A Parábola do Filho Pródigo retrata bem o que se dá então. A retribuição que este Pai espera é o acolhimento de sua bondade. Foi isto que Cristo ensinou ao se tornar o Mestre da oração. É preciso imitar Maria, a irmã de Marta e saber sempre escutar Jesus no instante de uma prece fervorosa.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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