A era da fé vitoriosa

Padre Zezinho, SCJ

Nunca o mundo precisou tanto do poder do céu como agora. É que antes não havia terroristas nem governantes com ogivas nucleares à sua disposição. A qualquer hora, dez ou vinte pessoas enlouquecidas, de outro país ou credo religioso e político, podem destruir quem eles acham que os incomoda, entre culpados e inocentes. Literalmente, os loucos nunca tiveram tanto poder de destruição, nem os inocentes tanta insegurança. Nem mesmo nos tempos de Nero, Átila, Stalin e Hitler. Agora, vinte pessoas podem fazer maior estrago do que eles com seus exércitos. É uma das desvantagens da tecnologia.


O poder dos governos, das armas, das drogas, dos terroristas, da mídia e dos bancos é tão grande que o povo se vê indefeso. Então corre para os templos, onde se prega que existe alguém mais poderoso, defensor dos fracos e oprimidos, libertador de todos. De quebra, ensinam que quem o aceita se torna vencedor e poderoso e não sofre mais. Quem não quer um discurso desses?
Já houve tempos propícios à fé e à credulidade como agora. Na alta idade média, a fé era usada para tudo, até para a alquimia que enchia o povo de esperança de transformar pedras em ouro. Em cada quadra havia um templo. Se lermos atentamente a História, veremos que eram situações muito semelhantes à nossa. Viver era perigoso. Ninguém defendia o povo. Ninguém o consultava. Este existia apenas para ser vassalo, escravo ou servo e para pagar impostos. Nenhuma chance de mudar o quadro social. A religião era essa chance. Em cada canto havia uma ermida, um convento, uma capelinha ou um templo.
Na Vila São Geraldo, em Taubaté, SP, onde morei desde menino e onde hoje leciono, contei, esses dias, em 40 quadras, 23 templos religiosos. Cerca de 1 para cada 2 quadras. Católicos, pentecostais, messiânicos, testemunhas de Jeová. Só um deles deu origem a seis outros, alguns à distancia de menos de uma quadra. No curto espaço de 8 quadras há 1 templo e dois seminários católicos e quatro templos pentecostais.
Não há como duvidar. O povo está orando mais, buscando mais soluções do céu e apostando em mudanças a partir do Céu e não da Terra. Estranhamente, porém, seus pregadores e fiéis parecem pessoas na fila em cinco orelhões, todas ligando para a mesma pessoa agência de socorro e ninguém conversando entre si. Falam muito com Deus, mas raramente falam entre si. Um nem sabe quem é o pastor da outra igreja a 300 metros de distância.
Faz pensar! A cada dia precisamos mais de Deus e a cada dia disputamos seu colo com outros irmãos, cada qual apostando que é mais filho e tem mais direito àquele colo. Simplesmente, não nos vemos, nem sabemos quem é quem. Só sabemos quem foi para lá e de que igreja veio. Muitos eram católicos, outros migraram de um templo evangélico ou pentecostal para outro. Os carros se apinham em todas as igrejas, lotando as ruas e pátios, a mostrar que não há pobreza extrema no bairro. Estão lá porque lá encontraram um lugar onde sentem a garantia de que podem ouvir seu Deus a falar pela boca de alguém. Alguém está dizendo ao fiel que agora, sim, sua vida vai dar certo! Achou o pregador e a igreja certa! Está ouvindo o que gostaria de ouvir. São Paulo já falava disso na segunda carta a Timóteo.
No Brasil inteiro há cidades onde a média é de um lugar de oração e de pregação para cada duas ou três quadras. O fenômeno tem sido estudado, mas os estudos não chegam nem aos pregadores nem aos seus fiéis. Não vale a interpretação dos estudiosos e, sim, o que eles sentem. E eles sentem que Deus os chamou para aquele lugar e que de lá sairão vencedores, num mundo que derrota e humilha.
Saberemos as conseqüências daqui a algumas décadas. É na terceira ou quarta geração desses crentes que se verá o resultado dessa ocupação de terreno e utilização de espaços vazios. Funciona como um MST espiritual. Movimento dos Sem Templo. Ocupam uma casa ou um galpão, onde pregam e oram. Com o tempo, a depender do número de fiéis que conseguem tirar da outra igreja, ou constroem e ocupam aquela região, ou mudam. Mas os fiéis são disputados quadra por quadra, casa por casa.
Não importa se já são de outra igreja, ou de terreno já cultivado. Arranja-se um motivo para atraí-los. A terceira ou quarta geração mostrará se saberão conviver, ou se brigarão nas ruas para mostrar quem é o herdeiro da verdade mais verdadeira. Já vimos este filme dos séculos 11 ao 18 entre cristãos católicos e ortodoxos, católicos e muçulmanos, católicos e evangélicos. Era briga para ver quem sabia mais sobre Deus e quem era mais fiel a ele. Nasceu política e terminou em violência.
Ou se conversa desde o começo, ou se disputa terreno na ânsia de crescer e, com isso, a caridade vai embora. E ela vai embora toda a vez que convencemos os nossos de que o outro é inferior a nós… Felizes os cristãos que sabem ouvir os outros e trata-los como irmãos, ainda que orem e pensem diferente sobre alguns aspectos da vida e da fé.
Mas nem sempre eles vencem. A maioria dos muçulmanos não é terrorista, mas bastam alguns deles para que toda uma região sofra um conflito religioso. Foi assim e continua assim mundo afora com cristãos, sicks, muçulmanos, católicos, pentecostais e evangélicos. Vão ceifar na roça dos outros. Não estão buscando vitória apenas contra o pecado. Muitos falam claramente de vitória sobre outras igrejas. É só prestar atenção nas suas pregações para saber onde situam o demônio. Nunca na Igreja deles… Quase sempre no mundo imundo e numa outra religião ou igreja… Fiel dele não precisa tirar encosto. Já está salvo em Jesus. Tira-se o encosto do fiel que veio de outro grupo.
Oremos pela paz e segurança do mundo, mas oremos, também, para que Deus nos livre de pregadores fanáticos que não conseguem nem sequer tomar um café na esquina com o pregador da outra igreja!… Eles dizem que Deus os está usando, mas seguramente é Deus quem está sendo usado por eles…

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