Lições das Bodas de Caná

Côn. José Geraldo Vidigal*

O acontecimento que se deu em Caná, no Evangelho de São João,  tem uma considerável importância (Jo 2,1-11). Com efeito. é  o primeiro dos sete milagres narrados por este Evangelista os quais  patenteiam a divindade de Cristo. O fato ocorreu numa pequena cidade da Galiléia. Uma festa de casamento que poderia ter terminado mal, uma vez que o vinho veio a faltar e isto seria um desastre diante dos convidados. Contudo houve um final feliz porque a Mãe de Jesus, atenta como todas as mães, percebeu o que estava acontecendo e se dirigiu a seu Filho. Este se dispos a fazer a   primeira manifestação de seu poder divino. De plano, é de se admirar a atenção de Jesus e Maria para com os noivos numa gentileza que faz brilhar a fé que nele devemos ter e a confiança inabalável na intercessão da Medianeira de todas as graças. Há, entretanto, um ponto essencial a ser considerado. Este episódio se situa no início do segundo capítulo do Evangelho joanino.

O primeiro foi consagrado ao encontro com João Batista no batismo e ao chamamento dos primeiros discípulos que, antes seguiam o Precursor. Aparece então um constraste, ou seja, enquanto João se alimentava de mel selvagem e rãs, vivendo no deserto, Jesus a primeira coisa que faz é ir a uma festa de Bodas e festa regada a vinho. Isto, contudo, tem um significado profundo que pode ser captado  no texto de Isaías (62,1-5) o qual a liturgia coloca como primeira leitura deste segundo domingo comum. Neste trecho Deus é apresentado como o esposo de seu povo Israel. A aliança entre Deus e Israel é uma aliança nupcial, isto é, indestrutível, baseada num amor total e recíproco. Deste modo, a festa dos jovens esposos de Caná, na visão do Evangelista, introduz à inauguração de uma outra solenidade visualizando outras Bodas, ou seja, a festa anunciada pelos profetas da Aliança de Deus com seu povo através de seu Filho. Trata-se, dE fato,  da Nova Aliança. São João diz que havia seis  talhas de pedra preparadas para as abluções dos judeus, um ritual da antiga religião, mas inteiramente ineficaz como bem o indica o número seis, dado que na Bíblia o número perfeito era o sete. As seis talhas de água da purificação representavam  a lei antiga com toda sua imperfeição por ser incapAz de reconciliar Deus com os homens. Quando se dá, porém, a mudança da água em vinho feita por Jesus, surgia o sinal que ali estava quem viera substituir a lei antiga pela lei nova. Por isto o Evangelista assinalou que Cristo manifestou sua glória a seus discípulos que creram nele. O vinho de Caná prefigurava o vinho da última Ceia, transubstanciado no sangue redentor que seria derraMAdo pela remissão dos pecados, lá no Gólgota. Deste modo, Jesus anunciava sua missão que era realizar a passagem do Antigo para o Novo Testamento. As Bodas do Antigo Testamento eram curtas, faltou vinho. As bodas da Nova Aliança, Bodas do Cordeiro de Deus, durariam sempre a favor de uma grande multidão. Fica entretanto mais uma lição desta página do Evangelho, isto é, um convite também a umA transfornção radical. Isto não apenas na imagem da água mudada em vinho como também naquelas palavras de Maria aos serventes: “Fazei tudo que Ele vos disser”. Será que na sua existência todos os cristãos se esforçam por realizar sempre o que Jesus ensinou? É preciso seguir a Cristo na alegria e na tristeza, ou seja, em todos os momentos da vida de cada um, sobretudo dentro do lar abençoado pelo Sacramento do Matrimônio. Jesus e Maria  devem morar em cada casa para aí operar o milagre da felicidade, da paz, do diálogo, da confiança recíproca, do perdão imediato. Eis  a vocação de todo lar cristão, ostentando marido e mulher, pais e filhos, os carismas evangélicos da vivência de todas as virtudes que engrandecem os seguidores do Filho de Deus e isto sob a proteção de sua Mãe Santíssima. Tudo isto visando a expansão do Reino de Deus nesta terra em vistas às Bodas Eternas na Casa do Pai. Nas Bodas de Caná o vinho da alegria veio a faltar o que ocasionou tristeza e desolação para os promotores daquela festa. Esta  foi muito bem começada, mas, de repente,  ficou envolta em suspense. Entretanto,  lá estavam Jesus e Maria e os noivos puderam servir no fim o melhor vinho. Em nossos dias, mais do que nunca, é preciso que Cristo e sua Mãe estejam presentes em todas as famílias, porque eles as ajudarão a transformar os espinhos da vida em pérolas para a eternidade, a mudar as águas turvas das fraquezas humanas em vinho delicioso que robustece para os embates da vida.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

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