Como seguir a Jesus

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O divino Redentor não poderia ser mais claro: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8,34). Para tomar a própria cruz uma condição basilar é o desapego de si mesmo. Quem não faz dos bens terrenos meros instrumentos para a caminhada nas trilhas do Mestre divino, mas a eles se apega não está em condições de colocar os seus passos nos passos de Jesus. Muitos se prendem a suas idéias, a seus projetos sem a reta intenção de procurar a própria salvação e a do próximo e, assim, desconhecem a renúncia cristã.

Esta não consiste em ser indiferente aos deveres cotidianos, nem se entregar a uma ascese forçada, a uma penitência indiscriminada. O cumprimento das obrigações de cada hora já inclui a abdicação da própria vontade. A maneira eficiente com que se realizam os encargos diários exige esforço, sacrifício, imolação.  Eis porque a renúncia a que se refere o Salvador está desta maneira presente em todos os instantes da vida do cristão. É lógico que esta atitude interior de renunciamento inclui em si também a coragem de evitar tudo que possa prejudicar a saúde, pois muitos até pensam em fazer grandes penitências, mas se esquecem de ser moderados no comer e no beber. Além disto, o combate aos atos de impaciência, o desvio das ocasiões de pecado, enfim o cultivo das virtudes supõe espírito de sacrifício.

Adite-se que faz parte da cruz de cada um suportar as contrariedades que a Providência divina permite, sobretudo quando surge alguma doença que exige mais tolerância até se obter a cura completa. Quem assim age, se envolve na paz mais completa e pode  orar como ensinou D. Luciano Mendes de Almeida: “Senhor Jesus, não vos pedimos que nos livreis das provações, mas que nos concedais a força do Vosso Espírito para superá-las em bem da Igreja”. Entretanto, para colocar em prática a renúncia pregada por Cristo cumpre se firmar em determinados princípios.

O primeiro é fundamental, ou seja, a fé que mostra quão passageiro é este mundo e que o destino do cristão que sabe carregar sua cruz é o céu. Na trajetória terrena, porém, Deus oferece o seu amor que instaura uma dependência querida, consentida, por parte de quem se envolve na dileção do Ser Supremo. Eis por que o ser racional, amando o seu Criador sobre todas as coisas, acata tudo em função deste amor. Não se deixa então escravizar pelos bens deste mundo que não devem ser concorrentes dos bens espirituais. Trata-se de se desembaraçar de todas as ambigüidades que impedem seguir a Cristo. A renúncia não é, assim, um fim em si, pois a cruz que Cristo pede que seja levada atrás dele para ser seu discípulo é caminho de Ressurreição e da plenitude da auto-realização. São Paulo afirmou: “Regozijamo-nos nas tribulações” (Rm 5,3).

Estas, de fato, proporcionam ocasião de professar o Evangelho, aumentando os méritos e a esperança. Carregar desta maneira a cruz não é privilégio de uma elite espiritual, não está reservado aos consagrados na vida religiosa, mas é uma ordem dada a todo batizado. A arte de ser um autêntico epígono do Filho de Deus exige renúncias que ajudam a deparar com os caminhos da verdadeira felicidade. A disciplina requerida por Jesus leva à renúncia das drogas, do álcool, da escravidão da sexualidade, da adoração do dinheiro, da sujeição à indolência. O cristão usa sua liberdade com total responsabilidade e vence as incitações do maligno e torna sua existência preciosa. “Quando São Pedro recriminou Jesus por falar nos sofrimentos que padeceria, recebeu do Mestre uma taxativa repreensão: “Vai para longe de mim, satanás! “Tu não pensas como Deus e sim como os homens” (Mc 7,33).

Apenas mais tarde o Príncipe dos Apóstolos compreenderia o paradoxo da morte e da ressurreição de Jesus. Não pode haver ressurreição sem morte, nem morte sem sacrifício. O cristão inteligente sabe, através da união com Cristo, valorizar a cruz de cada dia. Esta, quer queiramos ou não, faz parte da vida humana. O ser racional é contingente, sujeito às limitações, às fragilidades, à finitude. Os dissabores surgem quando menos ele espera e nada se consegue neste mundo sem muito sacrifício.

À luz da fé, pela reta intenção, porém, tudo isto tem valor de purificação e se faz meio de santificação. São Paulo compreendeu isto admiravelmente e atestou: “O leve peso da  nossa tribulação no momento presente, prepara-nos, além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória (2 Cor 4,17). Felizes os que sabem transformar os espinhos da vida em pérolas para a eternidade, carregando sua cruz e seguindo Jesus.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

FONTE: Arquidiocese de Mariana/MG

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