“Sim” ao apelo de Deus

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Ao responder ao mensageiro divino: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), Maria mostrou que se deve sempre dizer “sim” ao apelo de Deus. Não há maior alegria na vida cristã do que dar uma resposta imediata às inspirações divinas que chamam continuamente para uma existência sempre mais perfeita na presença do Todo-Poderoso. As luzes do Alto se tornam mais e mais intensas na medida em que há correspondência aos desígnios do Espírito Santo que indica sem cessar os caminhos de uma felicidade interior inefável, longe dos falsos prazeres terrenos.

Isto porque todas as vezes que um batizado procura se aperfeiçoar espiritualmente está demonstrando por isto mesmo uma irrestrita confiança na sabedoria e no poder de seu Senhor, abandonando-se inteiramente a Ele. A todos Ele abre as veredas da alegria, da imperturbabilidade, mas bem mostra a Bíblia que Deus se revela no sussurro do silêncio (3 Rs 19,12). No meio do bulício das complexas atividades diárias é preciso, todas as vezes que isto é possível, entrar no país do recolhimento interior e aí ouvir as mensagens da Trindade que habita a alma em estado de graça.

Não são apenas os que se consagraram ao serviço de Deus os chamado a usufruir das delícias da dileção de um Ser Infinito que envolve de coragem aquele que O quer escutar e seguir. Porque correspondeu a sua vocação, Maria foi a cheia de graça e bem disse o anjo que Deus estava com ela. Trata-se de uma fidelidade que abre passagem do efêmero para o que é perene, da terra para o céu. Quem penetrar lá no íntimo de si mesmo perceberá o anseio irreprimível daquela paz completa que se contempla na existência da Virgem Maria, Mãe de Jesus.

O arcanjo Gabriel lhe trouxe uma proposta de Deus, mas ela já estava ininterruptamente disposta a só querer o que Deus desejava e, deste modo, livremente acatou os planos salvadores da misericórdia divina. O ser racional é livre para dizer “sim” ou “não” a seu Criador. A palavra de Deus que chega a cada um pelos mais diversos meios são intrigantes, mas não coercitivas. A Bíblia, os bons exemplos, aos bons conselhos esclarecem, os sinais dos acontecimentos deixam recados misteriosos, mas cabe ao cristão saber discernir e aderir fielmente ao que Deus quer a cada instante, sobretudo nos momentos das grandes e graves resoluções, nos passos decisivos da existência pessoal.

Entretanto, nem a poderosa palavra divina, nem as mais abundantes graças  podem tolher o livre arbítrio humano. Deus quer uma adesão pessoal, consciente de cada um, como ocorreu com Maria. Por isto  é tão beatificante a entrega a Ele pela fé, pela sinceridade, pela confiança irrestrita  e aí está o valor da virtude, pois é um ser dotado de inteligência e liberdade que se volta para o seu Senhor. Aí a fonte de todo o mérito. Maria tornou-se pela sua fidelidade a “bendita entre todas as mulheres” (Lc 1,42).

Há, porém, um grande obstáculo ao poder dos influxos celestiais, por assim dizer maior do que a palavra do Todo-Poderoso e de que tudo que está no Evangelho, que é o endurecimento do coração. Este impede definitivamente que Deus possa atuar plenamente na existência humana, plenificando-a com sua beatitude. Bem-aventurados, entretanto, aqueles que se deixam iluminar pelas inspirações do Espírito Santo e se imergem na beleza das mensagens de Jesus, na grandiosidade de seus prodígios, pois este conhecerá felicidade neste e no outro mundo que há de vir. Apenas, aqueles que a exemplo de Maria, livremente aderem a Deus podem obter esta ventura no tempo e após deixar esta terra de exílio.

Este não se deixa condicionar pelos extravios daqueles que se divorciam da verdade. O engajamento sincero é fator determinante para o autêntico sucesso pessoal. O que se esquece muitas vezes é que a história de cada um não é a soma de muitos instantes, mas o fruto da liberdade que sabe explorar tudo de bom que Deus continuamente oferece. Jesus, que um dia nasceu em Belém, deu consistência a todo instante da vida humana, porque Ele abriu as ações do ser racional para uma eternidade feliz na Casa do Pai.

As adesões à graça transformam o cristão e o faz degustar já na terra as delícias da vida futura. O tempo que passa toma uma dimensão definitiva, magnífica. Como aconteceu com Maria, o Espírito Santo desce sobre cada um e a força do Altíssimo dá rumos certos a sua peregrinação terrena. Nada se perde para aquele que se situa no tempo de Deus.  Maria está a ensinar que se entregar a Deus é lhe oferecer todo o seu ser, com seus desejos do coração e com todas as aspirações do corpo e da alma.

É deste modo que se percebe que o céu já está entre nós, como estava para a Virgem Santa. O cristão a seu exemplo deve viver pela entrega a Deus já na eternidade deste Deus três vezes santo, fonte de toda beatitude. Apenas assim o Natal terá todo seu significado e ele não passará como mera comemoração, mas como garantia definitiva da salvação eterna.

* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.

FONTE: Arquidiocese de Mariana/MG

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