Magistério vivo e tradição da Igreja: O que significam?

Dom Hilário Mosser, SDB *

 

De vez em quando – por ouvir ou por ler – você encontra estas duas expressões: Magistério vivo e Tradição da Igreja.

O que significam?

A interpretação autêntica da Palavra de Deus foi confiada ao Magistério vivo, isto é, ao papa e aos bispos em comunhão com ele, que, na Igreja, exercem a autoridade em nome de Jesus Cristo.

Só aos apóstolos Jesus disse: “Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio” (João 20,21). E “foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mateus 28,10-20).

Para conservar íntegro e vivo o Evangelho de Jesus através dos séculos, os apóstolos passaram a seus sucessores, os bispos, os poderes e a missão que receberam de Jesus.

É, pois, valendo-se da autoridade de Jesus Cristo que os sucessores dos apóstolos – o papa e os bispos – pregam e interpretam autenticamente a Palavra de Deus, porque eles – e somente eles – são o Magistério vivo na Igreja.

Ì A transmissão da Palavra de Deus pela boca do Magistério vivo é chamada de Tradição (= transmissão) porque a Palavra é transmitida por meio da pregação; neste sentido ela difere da Bíblia, que transmite a Palavra de Deus por escrito; é evidente que entre a Tradição e a Bíblia não pode haver contradição, por se tratar de duas formas de transmissão da mesma e única Palavra de Deus.

Note, porém, que a Tradição (isto é, o Magistério vivo) é também uma forma mais ampla do que a Bíblia de transmissão da Palavra de Deus, por dois motivos: primeiro, porque a Tradição é que nos garante que a própria Bíblia é Palavra inspirada por Deus; depois, porque a Tradição nos transmite algumas verdades reveladas por Deus que não constam de forma explícita (mas, sim, implícita) na Bíblia, como, por exemplo, a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, a infalibilidade do papa, a Assunção de Maria aos céus.

Volto a insistir: entre Tradição e Bíblia não há contraposições; pelo contrário, ambas procedem da mesma fonte que é o Pai, por meio de Jesus, no Espírito Santo; ambas “formam um só todo e tendem para o mesmo fim” (Concílio Vaticano II, Dei Verbum 9).

Ì Você pode ainda questionar: de que maneira a Tradição pode conter verdades reveladas que não estão explicitamente contidas na Bíblia?

A garantia nos é dada pelas palavras de Jesus, quando disse aos seus: “Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de compreender agora. Quando ele vier, o Espírito da Verdade, vos guiará para a verdade completa” (João 16, 12-13).

É assim também que, através dos tempos, a Igreja, iluminada pelo Espírito Santo, vai compreendendo melhor o sentido da Palavra de Deus, em profundidade e em globalidade.

Você pode ainda perguntar: nessa descoberta de “novas” verdades, a Igreja não poderia se enganar?

Não, porque a Igreja tem a promessa de Jesus de que seria assistida pelo Espírito da Verdade na busca da verdade plena.

De fato, não é admissível que o Espírito Santo permita que o papa, os bispos e os fiéis – a Igreja inteira! – se desviem do caminho da verdade e emboquem pelo caminho do erro: seria o mesmo que negar o Evangelho e a obra salvadora de Jesus.

Ì Por aqui você também compreende o que se quer dizer quando se afirma que o papa é infalível.

Muitos pensam que o papa não pode errar em nada…

Absolutamente! Enquanto ser humano, ele pode errar, por exemplo, na administração, na interpretação dos acontecimentos, na política, em determinadas tomadas de posição…

A infalibilidade do papa significa que ele, enquanto mestre da fé e chefe do colégio dos bispos, tem assistência especial do Espírito Santo, sempre que, de acordo com os bispos e a fé do Povo de Deus, propõe à crença de todos alguma verdade de fé ou de moral como verdades de fato reveladas por Deus.

Neste sentido, também os bispos são infalíveis, sempre que creem uma mesma verdade em união com o papa e os fiéis.

Aliás, os próprios fiéis, de modo global, participam da infalibilidade, quando, em comunhão com seus bispos e com o papa, acreditam uma mesma verdade de fé.

Em outras palavras, é a Igreja como tal – pastores e fiéis que tem a promessa da infalibilidade.

Ì A infalibidade pode ser exercida pessoalmente pelo papa, ou pelo papa em conjunto com os bispos.

De qualquer forma, em ambos os casos, o papa deve estar em comunhão com os bispos e os fiéis; os bispos devem estar em comunhão com o papa e os fiéis; os fieis devem estar em comunhão com os bispos e o papa.

A infalibilidade é a expressão da garantia de que o Espírito Santo assiste a Igreja – em particular os pastores, mais particularmente ainda o pastor supremo – a fim de que, através dos tempos, ela se mantenha íntegra em sua fé, tal como a quis e quer Cristo Jesus.

Ì Falta explicitar um ponto: o Magistério pode expressar-se de forma solene ou de forma ordinária, daí a expressão Magistério solene ou Magistério ordinário.

O Magistério solene ocorre somente quando o papa, de acordo com os bispos e os fiéis da Igreja, na qualidade de Mestre da fé e supremo pastor, entende propor explicitamente, como verdade revelada, algum ponto de fé ou de moral; o que acontece também por ocasião da celebração de um concílio ecumênico, se esse concílio pretende definir verdades de fé ou de moral.

Magistério ordinário, como a palavra diz, é o que verifica na pregação normal da Igreja.

Ou, como diz o Catecismo da Igreja Católica: “O Romano Pontífice e os bispos, como doutores autênticos, investidos na autoridade de Cristo, pregam ao povo a eles confiado a fé que deve ser acreditada e aplicada aos costumes. O Magistério ordinário e universal do Papa, e dos bispos em comunhão com ele, ensina aos fiéis a verdade que se deve crer, a caridade que se deve praticar e a bem-aventurança que se deve esperar (N. 2034).

Ì Espero que essas noções, embora um pouco difíceis, lhe proporcionem compreensão melhor da Igreja da qual você é parte viva e o/a ajudem a viver sua fé na Palavra de Deus.

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* Dom Hilário Moser, SDB, é bispo emérito da Diocese de Tubarão (SC). Doutor em Teologia Dogmática pela Pontificia Università Salesiana, de Roma, lecionou por vários anos no Instituto Teológico Pio XI, de São Paulo. Foi membro da Comisão Episcopal de doutrina da CNBB. Publicou Caminhando com Maria e O sacramento do Matrimônio: guia em perguntas e respostas, entre outros.

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