Cardeal D. Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo
Nos dias 16 a 18 de outubro, foi realizada em Itaici a “Assembléia das Igrejas” do Regional Sul 1 da CNBB, com a participação dos bispos e representantes das organizações eclesiais e pastorais das dioceses do Estado de São Paulo. O tema tratado foi de grande atualidade e importância: a evangelização querigmática e da iniciação à vida cristã.
Bem sabemos que, batizar apenas e, depois, deixar o cristão por conta de uma evangelização “genérica” é insuficiente. E como semear um campo e, depois, abandoná-lo a si mesmo; não dá para esperar muito fruto; é também como plantar um jardim e não zelar por ele: dá para esperar flor bonita e abundante? Hoje constatamos, infelizmente, que a grande maioria dos católicos foi apenas batizada, mas não evangelizada.
O batismo é uma graça de Deus e a fé, um dom do Espírito Santo; mas a vivência da fé cristã, precisa ser aprendida e supõe um processo contínuo, ao longo de todas as etapas da vida; tanto a criança precisa aprender a ser cristã, como a pessoa adulta, ou idosa. Graças a Deus, hoje vamos recuperando uma prática comum nos primeiros séculos da vida da Igreja, quando existia o catecumenato, antes do batismo, e uma iniciação à vida cristã, depois dele. Pelo menos, já começamos a falar nisso e a tomar consciência de que este é o caminho certo. A CNBB já tratou do tema na sua Assembléia Geral, em abril passado; nosso Regional Sul 1 fez o mesmo, há dez dias. Foi também o tema da 3ª. Semana Brasileira de Catequese, no começo de outubro. Em nossa Arquidiocese, o assunto também vai suscitando reflexão. Queira Deus que progrida!
Hoje, mais do que evangelizar catecúmenos, precisamos começar a evangelizar a maioria dos já batizados. A iniciação à vida cristã começa com o anúncio querigmático, mediante o qual a pessoa é levada ao encontro com Jesus Cristo e colocada diante do núcleo central da fé cristã: Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, é nosso Salvador. Morto na cruz por nosso amor, ressuscitou dos mortos e foi elevado à direita de Deus Pai, onde será nosso juiz. Por seu intermédio obtemos a redenção e o perdão dos pecados. Para todo ser humano neste mundo, Ele é o caminho, a verdade e a vida. O querigma, anunciado e testemunhado com fé, suscita a fé naqueles que o recebem, pela ação do Espírito Santo.
Depois precisa seguir a iniciação à vida cristã, aprendendo a se relacionar com Deus, na oração cristã; a conhecer as verdades da fé cristã professadas no “Creio” e explicadas pela Igreja, no Catecismo; aprender também a ouvir e acolher a Palavra de Deus, com a comunidade de fé, a Igreja; e a iniciação à vida cristã não pode deixar de colocar o fiel diante das implicações morais decorrentes do seguimento de Jesus e da pertença à Igreja. Esta iniciação também leva o fiel a “aprender” o jeito próprio da vivência cristã, a mística cristã. Assim, durante a vida inteira, o cristão está “na escola do Evangelho” e vai aprendendo a ser fiel a Jesus, seguindo-o no caminho dele; mesmo no extremo da vida, diante da morte, pois também há um jeito cristão de ficar doente e de morrer…
Em tudo isso, é bom ter presente que não se trata de um aprendizado meramente intelectual, embora esse aspecto também faça parte do processo, pois a fé também precisa ser conhecida com a inteligência. Mais que isso, porém, é um aprender existencial. A vivência cristã se expressa numa relação filial e familiar com Deus, nosso Pai; a iniciação à vida cristã será boa, se ajudar os fiéis a viverem como bons filhos e filhas de Deus. Outra bela maneira de compreender a vida cristã é a “amizade” com Cristo. Ele mesmo foi quem disse: “vós sois meus amigos” (Jo 15, 12-15). E a Conferência de Aparecida nos recordou que o cristão é um discípulo missionário de Jesus Cristo. Tudo isso nos diz que a vida cristã não consiste numa relação mágica com um “Sagrado” abstrato, mas é expressão de um relacionamento familiar e íntimo com Deus e com Jesus Cristo, mediante o dom do Espírito Santo de Deus.
A formação do cristão adulto na fé é missão e trabalho nosso, e da Igreja: quem já é discípulo de Cristo, ajuda outros a serem discípulos também. Acima de tudo, porém, é obra da graça de Deus; o Espírito de Cristo é que forma a mente e o coração dos filhos e filhas de Deus. Mas não dispensa nossa parte e a ação da Igreja.
FONTE: Arquidiocese de São Paulo/SP