Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
A relevância da ação gestual ressuma na Bíblia. Deus ditou pormenores do culto a Ele devido. A liturgia cristã, com o esplendor de suas lustrosas cerimônias, educou e educa gerações. Foi recurso valioso empregado pelos missionários de todas as épocas. No Cenáculo, Cristo deu uma aula sobre o valor dos gestos.
O local escolhido, o cingir-se com uma toalha, o lava-pés, a entrega do Pão consagrado, o passar do Cálice, tudo revestido de simbolismo. Os cristãos compreenderam a lição do Mestre. Como, com rara felicidade, escreveu a célebre pedagoga Hélène Lubienska de Leval: “A liturgia foi o meio pedagógico soberano e escola de disciplina, o resumo da doutrina, o lugar de encontro das almas com Deus, a obra-prima da Igreja”.
Nas últimas décadas, a contragosto dos Papas, se vem assistindo , em certas regiões, um esvaziamento litúrgico terrivelmente deletério.
Em nome de uma falsa aplicação da oportuna reforma conciliar, se verifica como triste seqüela o enfraquecimento da fé, sobretudo na presença real. As genuflexões substituídas por um mero sinal de cabeça quase imperceptível. Amputações indevidas de cerimônias. Muitos estão abolindo, por conta própria, o lavar das mãos no ofertório, o qual proporciona fundas reflexões sobre a pureza da consciência. O desprezo pelas rubricas. Tudo isto a causar a irreligiosidade, a perda do lado místico das realidades eternas.
A História da Igreja faz ver que, quando no século IV se fixaram as grandes linhas da liturgia, não houve improvisação. Realizou-se, isto sim, a codificação de uma tradição estabelecida, vinda dos antepassados. Patrimônio sacrossanto que devia ser conservado, burilado, enriquecido. Donde as precedentes adaptações litúrgicas de cada época. Estas, porém, formando uma corrente secular que leva até o Redentor no momento solene da Última Ceia.
O próprio contexto histórico-social impõe novas formulações para exprimir a religiosidade, a crença. Aceitar, contudo, a desordem é um extremo alarmante.
Eis por que toda deformação no culto divino é antievangélica e priva os fiéis de uma maior penetração no mistério celebrado.
A qüididade do gesto é a correlação entre ele e o que está dentro de cada um. A movimentação e a essência da mensagem estão em profundo acordo. A estética corporal é em si reveladora e cumpre seja valorizada sobretudo no culto divino.
A liturgia por sua natureza interna, é sacramental, sendo sempre sinal de uma efetiva presença de Cristo. A ação da Igreja é continuamente profética, anunciando as verdades também na ação litúrgica.
FONTE: Arquidiocese de Mariana/MG