Conêgo Vidigal
Enquanto o Império Romano do Oriente, por circunstâncias especiais, permaneceria por mais de mil anos após 395, o Império Romano do Ocidente sofreria o impacto das invasões dos povos bárbaros. Entre o século V aos fins do século VIII a vida econômica e social da Europa sofre uma transformação de fundas repercussões: acaba o comércio e isto ocasiona uma economia inteiramente agrária. Com a chegada dos bárbaros houve o encontro entre culturas totalmente díspares. A herança romana incluía uma agricultura e um artesanato evoluídos, um sistema comercial adiantado com notável controle monetário e creditício. Os povos bárbaros deparam com isto e vão assimilar muito desta situação econômica. Há também outras estruturas que se interpenetram. É um momento de efervescência social na Europa no qual marcante foi a ação da Igreja.
Após as vicissitudes dentro do Império Romano, quando sofreu cerca de cento e vinte e nove anos de acirrada perseguição, extraordinário foi seu crescimento por causa da força intrínseca de sua doutrina. No início do século quinto, o bispo de Niceta de Remesiana, na Dácia, exclamou: “Te per orbem terrarum sancta confitetur ecclesia” a Ti, ó Deus, a Igreja anuncia por todo o orbe. Ele fazia, então, eco à anterior afirmativa de Tertuliano: “somos de ontem e já enchemos as cidades, os burgos, os campos, o forum”, bem como ao pensamento de Eusébio: “De repente a palavra redentora iluminou, como um raio de sol cheio de potência e de força celeste, o mundo inteiro”. Em 381, o imperador Teodósio suprimiu o paganismo pela proibição do culto dos deuses e estabeleceu o cristianismo como religião oficial do Império. Durante o século IV completa-se a cristianização do Estado. Nota-se a influência da Igreja sobretudo no que tange à suavização dos processos judiciários. Conseguiu a abolição dos castigos de morte na cruz e do ferro em brasa. Os bispos passaram a exercer magnífico apostolado nos cárceres do Estado, dulcificando a organização penitenciária. O espírito cristão combateu arduamente a escravidão, insistindo sobre a dignidade da pessoa humano, pugnando pela emancipação definitiva dos que viviam uma vida humilhante. Foram extintos os jogos de gladiadores e os brutais combates no anfiteatro. Formava-se uma nova mentalidade. Percebe-se já uma significativa ascensão social da humanidade neste século com nomes que honram a estirpe humana, como Santo Hilário de Poitiers, Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho, São Cirilo de Jerusalém, São Martinho de Tolosa. Alguns, entre tantos, que ostentam a nova ordem instaurada pela mensagem de Cristo. Nesta época, exatamente, a Providência reservava para sua Igreja no Ocidente, uma obra de rara envergadura: a educação das tribos que invadiram a Europa. Cumpre notar que, de fato, foi uma tarefa hercúlea. Povos que percorriam o território europeu depredando, pilhando, destruindo, imersos em esdrúxulas, crenças religiosas exigiam séria tolerância e dedicação da Igreja. A ela coube determinar novos usos e costumes, controlar ferozes paixões, acrisolar qualidades, enobrecer a coragem inata dos germanos, dos eslavos e outros, indicar a virtude como ideal. Era preciso transformar instituições primitivas desumanas e a Igreja mobilizou seus recursos evangélicos. Com pedagogia de mestra consumada, sobretudo através dos atos litúrgicos, elevou as mentes e pacificou os corações. Surgiram hordas de milhares de germânicos que “na verdade, estavam armados, eram brutais e cúpidos, e, por isto, a passagem de seus bandos através da Itália, Gália, Espanha, África constitui uma catástrofe que abalou profundamente o mundo latino: destruições materiais, pilhagens, incêndios…”. Daniélou e Marrou referem-se à História Francorum de Gregório de Tours na qual ele relata a brutalidade, a selvageria dos hábitos dos grupos étnicos conquistadores, salientando as violências, os crimes, o ímpeto dos vícios. A Europa Ocidental de hoje, que se brasona de sua civilização, resultou desse trabalho insano e basilar no qual se assiste uma construção grandiosa operada pela Igreja a favor da promoção humana. É então que aparecem no Ocidente São Patrício, São Leão Magno, Gelásio I, São Remígio de Reims, São. Bento de Núrsia, São Cesário de Arles, Cassiodoro, Santa Clotilde, Santa Radegunda, Santa Brígida de Irlanda, São Leandro de Sevilha, Santo Hermenegildo, São Gregório Magno, Santo Elói, Santo Amando, S. Columbano, Santo Isidoro de Sevilha, celebérrimo pela sua obra de raro valor cultural: as Etimologias, São Martinho I. Alguns nomes, entre centenas de outros, luminares destes séculos de intensa ação missionária da Igreja. No Oriente, após os grandes Concílios de Nicéia e Constantinopla, seguem-se os de Éfeso, Calcedônia e outro de Constantinopla. Os debates teológicos de alto nível apontam a genialidade de Santo Atanásio, S. Cirilo de Alexandria, S. João Crisóstomo, S. Basílio, S. Gregório de Nissa, S. Gregório Nazianzeno, campeões da ortodoxia. Nesta época, que antecede o século oitavo, à revelia da Igreja, a fisionomia européia se transfigura. Em primeiro lugar, a expansão árabe no Mediterrâneo que coloca um término ao comércio naval e ao comércio terrestre, acentuando a queda da moeda e do crédito.. O poder urbano foi, aos poucos, suplantado pelo domínio do campo, conseqüência desta contração econômica. Daí o surgimento do feudalismo, portanto, o feudalismo é uma estrutura social, emergente nos fins do século oitavo por coordenadas várias. A Igreja passou a viver outros tempos, mas sempre cumprindo sua missão de evangelizar.
FONTE: Arquidiocese de Mariana/MG
7, Outubro, 2009 às 9:48 pm |
Artigos desse quilate é que se devem ler diariamente, ao lado da Bíblia. Um, a história do povo de Deus; o outro, a história do próprio Deus. Parabéns!