Padres e pastores, sinais de contradição

Dom Redovino Rizzardo

Bispo de Dourados

Entre os presos pela Operação Owari, deflagrada pela Polícia Federal, em Dourados e região, no dia 7 de julho, estavam pessoas de diversas denominações religiosas. Entre elas, um político que, coincidentemente, é também pastor evangélico. Só que os grandes órgãos de informação do Brasil nada falaram sobre o que, talvez, consideram um “pormenor”. Não tenho autoridade nem condições para julgar e muito menos condenar o incriminado; a justiça (humana ou divina) terá a palavra final. Mas tenho por mim que se, em seu lugar, o detido fosse um padre, o mundo inteiro saberia que, em Dourados, a Igreja Católica acabou envolvida em fraudes e corrupção.

Não poucas vezes me perguntei por que um grande número de religiões que atua no Brasil goza do privilégio de imunidade de censura e condenação, quando se sabe que toda organização, por ser composta de homens, não está isenta de falhas e tropeços… Enquanto isso, a Igreja Católica ocupa um lugar “privilegiado” na berlinda dos ataques que lhe dirigem não apenas os frequentadores de bares populares, mas também inúmeras lideranças do mundo da política, da comunicação, da cultura e da economia! Não será porque só se lançam pedras em árvores que produzem frutos? Ou ainda porque um dos critérios para se saber da fidelidade de uma Igreja a Cristo é o de ser sinal de contradição?

Esses pensamentos me vieram à mente no dia 19 de junho, quando Bento XVI inaugurou o “ano sacerdotal”, em comemoração aos 150 anos de falecimento de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes.

Pelo lugar que ocupa na sociedade, o padre se assemelha à cidade construída sobre o monte: não pode ficar escondida (Cf. Mt 514). No bem e no mal, suas ações tem uma repercussão incomensurável. Com uma diferença: se ele fizer o bem, poucos ou ninguém tem interesse em divulgar. Mas, se agir mal, em poucos instantes o seu nome ocupará as manchetes da imprensa…

De outro lado, se a Igreja deseja efetivamente corresponder às expectativas de Deus e do povo, precisa estar em constante estado de conversão. E a conversão parte sempre de dentro para fora, ou seja, do coração, onde se encontra o padre. Foi o que deu a entender São João Maria Vianney ao afirmar que «o sacerdócio é o amor do coração de Jesus».

Na cerimônia de abertura do ano sacerdotal, o Papa explicou as razões que o levaram a tomar essa iniciativa: «A Igreja precisa de sacerdotes santos, que ajudem os fiéis a experimentar o amor misericordioso de Deus e sejam suas testemunhas convictas. Nossa missão é indispensável, tanto para a Igreja quanto para o mundo. Ela exige plena fidelidade a Cristo e uma incessante união com ele, ou seja, que busquemos constantemente a santidade, como fez São João Maria Vianney».

Na Idade Média, cunhou-se um provérbio contra os eclesiásticos que prevaricavam: “A corrupção do ótimo é péssima”, sentença que a sabedoria popular traduziu no adágio: “Quanto maior a altura, maior o tombo!”. É nessa linha que se devem entender algumas palavras de Bento XVI proferidas no dia 19: «Como esquecer que nada causa mais sofrimento à Igreja, Corpo de Cristo, que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se convertem em ladrões de ovelhas, seja porque as desviam com suas doutrinas privadas, seja porque as atam com os laços do pecado e da morte? Também para nós, caros sacerdotes, aplica-se o chamado à conversão, a recorrer à misericórdia divina e a dirigir com humildade súplicas ao Coração de Jesus para que nos preserve do terrível risco de causar dano àqueles a quem devemos salvar».

O ano sacerdotal começou e terminará na solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Dirigindo-se especificamente aos sacerdotes, Bento XVI assim explicou a coincidência: «Como não lembrar, com comoção, que diretamente desse Coração nasceu o dom do nosso ministério sacerdotal? Como não lembrar que fomos consagrados para servir, com humildade e autoridade, ao sacerdócio comum dos fiéis? Somente assim conseguiremos cooperar eficazmente para realizar o misterioso desígnio do Pai: fazer de Cristo o coração do mundo. As “promessas sacerdotais” que pronunciamos no dia da nossa ordenação e que renovamos cada ano, na Missa Crismal da Quinta-Feira Santa, nos recordam esse constante compromisso. Assim agindo, até mesmo as nossas carências, limitações e fraquezas nos conduzirão ao Coração de Jesus».

domredovino@terra.com.br

FONTE: Diocese de Dourados/MS

Uma resposta para “Padres e pastores, sinais de contradição”

  1. Marilda da Silveira Dias Disse:

    Padres e pastores, sinais de contradição
    Dom Redovino Rizzardo
    O que penso: a família é o “centro” de tudo… O alicerce.
    Padre Fábio de Melo em seu Artigo
    Pai, o pastor da família, deixou bem claro e de um jeito simples:
    “Para que você seja um bom pastor na sua casa, reze”.
    Acontece que a família vai mal…
    Que nossos Santos Sacerdotes nos ajudem no sentido de reforçar os cursos, para o Sacramento do Matrimônio, bem como a Pastoral Familiar que conseqüentemente muito contribui, para evitar esta evasão da família, fortalecendo assim esta nova geração, para que tenham uma “Família” a exemplo da Família de Nazaré.
    Aos Sacerdotes, desejo-lhes um
    Feliz Ano Sacerdotal!
    Deus lhes recompense.

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