Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá
Sempre gostei da alegoria das duas casas. Dá até para imaginar. Uma bem firme alicerçada sobre a rocha, agüentando a tempestade, e a outra ruindo estrondosamente, porque construída sobre a areia. Burrice de quem a construiu. Todos sabiam que podiam vir as ventanias e as chuvas fortes. Quem não pensou antes, quem não se preocupou de conferir o terreno, verá cair a sua casa.
Então o que distingue mesmo a rocha da areia? O sábio e o tolo ouviram a mesma Palavra. Só que o primeiro a colocou em prática; o segundo não. O que diferencia os dois não é, portanto, o ter ouvido, ou não, a Palavra de Deus: todos dois a escutaram e, todos dois, tiveram a mesma chance de praticá-la. Somente um, porém, procurou transformá-la em vida.
Digo isto porque já encontrei pessoas se vangloriando por terem lido a Bíblia inteira. A leitura, por si só, não resolve. A Bíblia não é, a princípio, um livro de cabeceira, para conciliar o sono ou acalmar a nossa alma. Para quem quiser, hoje, existem muitos livros de auto-ajuda, cheios de conselhos, dicas, historinhas, anedotas, mensagens de anjos, que prometem resolver, o mais rápido possível, todos os nossos problemas, para dormirmos sossegado.
A Palavra de Deus é para ser praticada. Simplesmente pelo fato que foi vida vivida pelo povo, e continua sendo vida para quem quiser ser o novo povo de Deus, para quem está decidido a acreditar e a confiar nela. Sem mais nem menos. Acreditamos que, como o Espírito Santo ajudou a refletir e a escrever, também ajuda a entender. Jesus prometeu que o Espírito ia nos conduzir no pleno conhecimento da verdade. A Palavra nos deve incomodar, não nos sossegar.
É por isso que, em geral, grandes santos e santas escolheram poucas Palavras para motivar e orientar a própria vida. Às vezes, uma frase só, como a “Buscai primeiro o Reino de Deus”, que está esculpido na entrada de uma das primeiras casas dos religiosos de São João Calábria. A questão era- é, e sempre será- viver aquelas palavras com todo o coração e com toda a dedicação. Com isso não quero dizer que não devemos ler e conhecer melhor a Bíblia. De jeito nenhum, precisamos estudá-la mais, meditá-la mais; mas não adiantaria sermos doutores nas ciências bíblicas, e viver de maneira contrária à mensagem lá escrita. Nós não lemos e nem estudamos a Bíblia por curiosidade científica. Queremos deixar que aquelas Palavras ecoem continuamente na nossa vida, sejam luz para o nosso caminhar, sejam mesmo a rocha firme sobre a qual queremos construir a nossa existência.
Certa vez um rei estava para morrer. De tantos cortesãos, dos quais desconfiava, escolheu como seu confidente o palhaço da corte, o bufão, que a vida toda o tinha alegrado com as suas piadas e caretas, e que considerava, por isso, meio tolo. O chamou ao lado da cama e começou a lembrar as coisas que ele, o rei, havia feito durante a vida. Grandes obras, grandes guerras, grandes vitórias, grandes tesouros conquistados. Continuamente dizia ao bufão que ele, ao contrário, somente sabia contar piadas, já meio velhas, por sinal. O pobre palhaço agüentou muitos desaforos. Porém, de bom coração, não soube ficar calado e perguntou ao rei se sabia que estava para morrer. Quis saber se o grande rei e senhor tinha preparado alguma mala para a grande viagem. O rei, a esta altura, ficou calado. Tinha falado de tantas coisas, mas naquela hora só estavam ali os dois, sozinhos, sem barulho de armas, sem os aplausos do povo, sem a pompa das cerimônias, sem os livros de contabilidade. O rei teve que admitir que não navia pensado nunca naquele dia; que havia passado a sua vida atrás de tantas coisas, que agora estava percebendo não serviam para nada, para a inusitada viagem que ia começar. O que podia carregar? O bufão não se conteve, disse ao rei: – Eu fui palhaço na sua corte e o senhor sempre riu de mim, zombava das minhas atrapalhadas. Mas agora, perdoe-me, sou eu que vou achar graça do senhor. Está partindo para a maior viagem da sua vida e não se preparou. Não sabe para onde vai e não sabe o porquê. É a melhor piada que jamais ouvi. – E o palhaço desabou a rir.