Que obra fazes?

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

 

Em Cafarnaum, Jesus reencontrou-se com a multidão vinda de Tiberíades, onde tinham se saciado do pão por ele abençoado e repartido. Fez-lhes, naquela ocasião, uma importante advertência: “Em verdade, em verdade vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados. Trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento que permanece até à vida eterna e que o Filho do Homem vos dará” (Jo 6,26-27).

No contexto deste diálogo, o Mestre foi interrogado: ‘Que obra fazes?’. Esta interrogação revela a inquietação dos corações na busca do entendimento adequado acerca do que se faz. Noutra ocasião, em Jerusalém, questionado em razão do que fizera em favor de um paralítico, ao devolver-lhe a integridade, exclamou: “Meu pai trabalha sempre e eu também” (Jo 5,17). Nestas oportunidades, Jesus Mestre ensina que o trabalho tem uma significação que se situa num horizonte mais amplo do que um simples fazer ou um simples ajuntar resultados materiais para a garantia do bem estar.

Ao revelar-se e a Deus seu pai como trabalhadores, Jesus convida seus conterrâneos a um entendimento que tem no centro a compreensão do trabalho como fonte de dignidade e como referência indispensável para o sentido da vida dos seus discípulos. O trabalho do discípulo não pode situar-se numa perspectiva diferente daquela própria do seu mestre e do pai de todos. Esta compreensão do trabalho guarda na sua significação um tesouro inesgotável para inspirar a vida de todo trabalhador. Bem assim, para iluminar a compreensão da responsabilidade social e política de governos e segmentos variados da sociedade na geração de oportunidades para que toda pessoa humana experimente no seu trabalho a grandeza de sua dignidade e a nobreza de sua participação na construção de uma sociedade solidária e justa. A clareza desta compreensão tem sido comprometida, assinala o Documento de Aparecida 387, porque “a cultura atual tende a propor estilos de ser e viver contrários à natureza e dignidade do ser humano. O impacto dominante dos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero se transformou, acima do valor da pessoa, em norma máxima de funcionamento e em critério decisivo da organização social.

Na verdade, o criador, ao colocar a serviço do ser humano tudo o que foi criado, manifesta a dignidade da pessoa humana e convida a respeitá-la”. Portanto, é grande e desafiadora a tarefa de compreender o sentido autêntico do trabalho humano e sua vivência. Uma compreensão para determinar rumos novos na organização social e política. Esta organização social lida com números e estatísticas importantes. Causa impacto visitar as informações que explicitam o quadro do subemprego, remunerações desqualificadas ou da informalidade no trabalho, impactando sobre o cenário do momento presente, em razão da dignidade humana ferida, bem como a preocupação a respeito dos dias vindouros. Contudo, é preciso ter uma clarividência outra, advinda de um horizonte de compreensão que não permite negociar o valor intocável de cada pessoa, para alcançar ordenamentos sociais e econômicos que garantam oportunidades de trabalho a todos. É, pois, indispensável uma compreensão antropológica adequada. Esta compreensão precisa ser fecundada por perspectivas que estão para além de constatações de certos crescimentos ou de ufanismos governamentais na consideração do mundo do trabalho.

Há uma complexidade que está desafiando permanentemente a sociedade e requer das diferentes instituições e segmentos uma compreensão que impulsione na direção de uma atuação mais favorável aos trabalhadores e trabalhadoras. É oportuno, neste contexto, pensando os comprometimentos nesta questão central do trabalho, recordar a palavra do Santo Padre o Papa Bento XVI, no Discurso Inaugural da Conferência de Aparecida, que ‘a Igreja é advogada da justiça e defensora dos pobres’ diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas. Esta defensoria, pensando o trabalho, trabalhadores e trabalhadoras, deve ser a bandeira de todas as instituições. Particularmente, este é o compromisso central dos governos no exercício da política. Corajosamente, o Papa Bento XVI, na sua Carta Encíclica ‘Deus é amor’, sublinha que ‘a justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. Um estado que não se regesse segundo a justiça, reduzir-se-ia s uma grande banda de ladrões’, como dizia Santo Agostinho. A Igreja Católica tem, pois, um compromisso com os trabalhadores, inspirada na sua compreensão do trabalho como um bem de todos e que deve ser disponível para todos aqueles que são capazes de trabalhar. A compreensão que orienta a ação da Igreja e seu compromisso com o mundo do trabalho tem na sistematização de sua Doutrina Social uma riqueza inspiradora na resposta à pergunta: ‘Que obra fazes?’

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