DA IMPORTÂNCIA DE SER SERVO INÚTIL

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.
A viagem do Papa aos Estados Unidos tem provocado comentários por parte de pessoas dentro e fora da Igreja. Alguns são muito críticos. Crêem que o Papa não devia ter mostrado tanta proximidade com o presidente George W. Bush, sobretudo na data de seu aniversário. Isso pareceria um sinal de intimidade e aprovação da política externa do presidente americano.

A relação do Vaticano com a maior potência do Ocidente não é vista com muita tranqüilidade por setores mais progressistas da Igreja. Algumas críticas têm razão de ser. Consideram que deve o Pontífice tomar extremo cuidado para não parecer que favorece a Igreja americana apenas por ser rica e ajudar o Vaticano com importantes somas em dinheiro.

Creio, no entanto, que seria o momento talvez de moderar tais comentários e tentar olhar algo extremamente positivo e consolador que se depreende da viagem pontifícia às terras do tio Sam. Sem perder o espírito critico, importa sermos honestos. Sobretudo nós, católicos, que amamos nossa Igreja apesar de criticá-la muitas vezes com carinho filial.

O encontro de Bento XVI com algumas vítimas de abuso sexual por parte de padres foi um gesto de extrema coragem e sensibilidade pastoral. Após fazer comentários sobre tais episódios desde sua chegada ao país, o Papa preparou durante três dias a reunião que finalmente aconteceu. E foi profundamente importante para as vítimas que tiveram acesso a ele.

A primeira coisa que chama a atenção é a postura honesta e verdadeira adotada pelo Papa. Falou em vergonha, pediu perdão, lamentou profundamente. Enfim, não poupou as palavras certas e adequadas para os fatos que há anos vêm abrindo em chagas dolorosas o tecido eclesial norte-americano.

Não houve meias palavras, disfarces, tentativas de negar o óbvio e de tentar convencer que não é tão horrível e vergonhoso. E o supremo pastor assume os erros de seu clero e a dor de suas ovelhas. E o faz às claras, encontrando-se e rezando com elas.

Como fruto, segundo testemunho de uma das vítimas que participaram da reunião, um profundo sentimento de esperança. O sentir que se está em um novo começo, de transparência e verdade, não mais de escondimentos e camuflagens. Esperança de que tudo não fique apenas em palavras, mas se converta em atos e em verdade.

Horas antes, em uma missa com 45.000 pessoas em um estádio, o Papa se referira aos abusos como um dano e uma dor indescritíveis, e declarou claramente o prejuízo que isso traz para a Igreja. Não houve apelos a estatísticas e contas matemáticas, mostrando que os abusadores são minoria, como se isso justificasse e diminuísse o horror desses episódios.

Foi tudo clareza, transparência, coragem de assumir os erros, bater no peito, rezar pelos culpados e pelas vítimas, e oferecer reparação a estas últimas. Nenhuma tentativa de minimizar o dano, de escamotear a culpa. Mas apenas a coragem pastoral de assumi-la publicamente.

Com isso, Bento XVI seguramente experimentou a consolação que Jesus promete no Evangelho de Lucas aos servos que, ao voltar do campo, após um dia de trabalho, são convocados pelo senhor a servirem a mesa antes de descansar. Jesus diz que a alegria dos servos deve ser a de fazer o que devem, sem esperar recompensa ou tratamento especial por isso. “Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos ter feito”, dirão eles, encontrando a alegria no serviço gratuito e requerido. Assim deve sentir-se hoje o Papa. Pela primeira vez em muito tempo, deu a muita gente a esperança de poder novamente confiar em sua Igreja.

Deixemo-nos edificar por seu gesto. Reconheçâmo-lo. Estaremos fazendo a nossa parte, servos inúteis que também somos. Ou seja, alegrando-nos com o fato de o chefe da Igreja assumir sua parte em uma situação dolorosa e difícil. E que o faça em benefício não de si próprio, mas do rebanho pelo qual é responsável.

 

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