OS NOVOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS

Dom Estevão Bettencourt, OSB

Em síntese: A quinta Conferência Episcopal da América Latina deu ocasião a incentivar a índole missionária dos discípulos de Cristo diante do grave problema dos novos movimentos religiosos. Estes têm desviado muitos católicos para comunidades recém-fundadas por mestres, gurus e pastores que sabem explorar a crendice popular. Vão, a seguir, apresen­tados textos do episcopado latino-americano e dos dois últimos Papas que tratam do assunto.

Os Bispos da América Latina e do Caribe se reuniram em Aparecida (SP) no mês de maio de 2007, tendo por tema de estudo o “ser discípulo e missionário de Cristo em nosso continente”, principalmente em vista da expansão de novos movimentos religiosos em nossas regiões. Este é um tema que há decênios vem sendo comentado, mas, a quanto parece, com pouca repercussão na vida de apostolado do clero e dos fiéis católicos. ­Dada a importância do assunto, vamos apresentar, a seguir, uma série de textos da autoridade eclesiástica que proclamam a necessidade de levar em conta o problema e pensar em como minorá-Io ou mesmo superá-Io.

1. JOÃO PAULO II

1) Aos Bispos do Peru em visita ad limina em junho de 1988:

“Vejo que nos diversos países da América Latina o problema número I é, cada vez mais, o problema das seitas. Alguns Bispos manifestaram uma opinião muito pessimista em relação ao futuro. Não posso permane­cer indiferentes perante essas opiniões pessimistas”.

2) Do discurso inaugural da Quarta Conferência do Episcopado Latino-americano em Puebla (1979):
“A exemplo do Bom Pastor, haveis de apascentar o rebanho que vos foi confiado e defendê-Ia dos lobos vorazes. Uma causa de divisão e discórdia em vossas comunidades são – bem o sabeis – as seitas e os movimentos pseudo-espirituais cuja expansão e agressividade urge enfrentar.
Como muitos de vós assinalaram, o avanço das seitas põe em rele­vo um vazio pastoral, que freqüentemente tem sua causa na falta de for­mação que corrói a identidade cristã e faz que grandes massas – de católicos, sem formação religiosa adequada – entre outras razões, por falta de sacerdotes – fiquem à mercê de campanhas de proselitismo sectário muito atuantes. Todavia pode acontecer também que os fiéis não encontrem nos agentes de Pastoral aquele forte sentido de Deus que o teor de vida desses agentes Ihes deveria transmitir. Tais situações podem dar ocasião a que muitas pessoas pobres e simples – como infelizmente está aconte¬cendo – se tornem fácil presa das seitas, nas quais procuram um sentido religioso da vida que talvez não encontrem naqueles que o deveriam ofe¬recer em ampla medida.
Por outro lado, não se pode menosprezar uma certa estratégia cujo objetivo é debilitar os vínculos que unem os países da América Latina e corroer assim as forças que brotam da unidade. Em vista desta meta são destinados importantes recursos econômicos que subvencionam campa¬nhas proselitistas destinadas a quebrantar a unidade católica”.

3) Ao terceiro grupo de Bispos dos Estados Unidos em visita ad Iimina (18/05/1998):
“Isto deve constituir mais um motivo de preocupação pastoral, que nos leva a planejar uma ação evangelizadora, para a qual são necessários¬. os agentes de pastoral convenientemente formados e imbuídos de gran¬de espírito apostólico”.

4) Aos Bispos da Conferência Episcopal do México (12/05/1990):

“Não nos podemos descuidar dos graves problemas dos novos gru¬pos religiosos, que disseminam confusão entre os fiéis, especialmente nos ambientes de classe média, marginais ou pobres. Seus métodos, seus recursos econômicos e a insistência da sua atividade proselitista causam impacto principalmente entre aqueles que vêm do campo para a cidade.
Muitos de vós escreveram Cartas Pastorais sobre os problemas suscitados pelas seitas e os movimentos pseudo-religiosos, incluída a Nova Era. As idéias de Nova Era abrem brechas, por vezes, na pregação, na catequese, nos Congressos e nos Retiros; assim chegam a influir mesmo nos católicos praticantes, que talvez não estejam conscientes da incompatibilidade dessas idéias com a doutrina da Igreja”.

2. CONFERÊNCIAS DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO

1) PUEBLA (1979):

“Muitas seitas têm sido, clara e pertinazmente, não somente anticatólicas, mas também injustas ao julgar a Igreja; têm procurado debilitar os seus membros menos solidamente formados. Temos de confessar com humildade que, em grande parte, mesmo em setores da Igreja, uma falsa interpretação do pluralismo religioso permitiu a propagação de doutrinas errôneas ou discutíveis no tocante à fé e à Moral; provocando confu­são no povo de Deus”.

2) SÃO DOMINGOS (1992):

“O problema das seitas atingiu proporções dramáticas e chega a ser realmente preocupante principalmente por causa do seu crescente proselitismo.
As seitas fundamentalistas são grupos religiosos que insistem em dizer que somente a fé em Jesus Cristo salva e que a única base da fé é a Sagrada Escritura, interpretada de maneira pessoal e fundamentalista (portanto com exclusão da Igreja); além do quê insistem na proximidade do fim do mundo e do juízo final.
Caracterizam-se por seu empenho proselitista mediante visitas do­miciliares, grande difusão da Bíblia, de revistas e livros, oferecem pre­sença e ajuda oportunista em momentos críticos do indivíduo ou da famí­lia e esmerada capacidade técnica nos meios de comunicação social, con­tam com poderosos subsídios financeiros provenientes do estrangeiro e com o dízimo que obrigatoriamente pesa sobre todos os que Ihes pres­tam a sua adesão.
As seitas são definidas por um moralismo rigoroso, por reuniões de oração com um culto participado e emotivo baseado na Bíblia, e por sua agressividade contra a Igreja, valendo-se freqüentemente da calúnia … Ainda que seu compromisso temporal seja débil, orientam-se para a par­ticipação política ciosa de tomar o poder.
A presença dessas seitas fundamentalistas na América Latina au­mentou de maneira extraordinária desde Puebla (1979) até nossos dias”.

3) APARECIDA (2007):

“No fiel cumprimento de sua vocação batismal o discípulo de Cristo há de levar em conta os desafios que o mundo de hoje apresenta à Igreja de Jesus, entre outros: o êxodo de fiéis para as seitas e outros grupos religiosos, as correntes culturais contrárias a Cristo e à Igreja, o desalento de sacerdotes frente ao vasto trabalho pastoral, a escassez do clero em muitos lugares, a mudança de paradigmas culturais, o fenômeno da globalização e a secularização, os graves problemas da violência, da pobreza e da injustiça, a crescente cultura da morte que afeta a vida em todas as suas modalidades (nº 185).
Hoje em dia faz-se necessário reabilitar a autêntica Apologética, que os Padres da Igreja cultivavam como explicação da fé. A Apologética não precisa de ser negativa ou defensiva, ela implica, antes, a capacida­de de dizermos o que está em nossas mentes e corações de forma clara e convincente, como diz São Paulo; fazendo a verdade na caridade (Ef 4, 15). Os discípulos e missionários de Cristo hoje necessitam, mais do que nunca, de uma Apologética renovada para que todos possam ter a vida Nele (Jesus)”.
“Conforme a nossa experiência pastoral, muitas vezes as pessoas sinceras que deixam a Igreja, não o fazem por causa daquilo que os gru­pos não católicos professam, mas fundamentalmente por causa daquilo que eles vivenciam, não por razões doutrinárias, mas por motivos vivenciais, não por motivos estritamente dogmáticos, mas vivenciados … não por problemas teológicos, mas por causa de procedimentos metodológicos da nossa Igreja. Na verdade, muita gente que passa para outros grupos religiosos não está procurando sair da Igreja, mas estão sinceramente procurando a Deus” (nº 225).

3. BENTO XVI

“Percebe-se um certo enfraquecimento da vida cristã no conjunto da sociedade e da própria Igreja, em virtude do secularismo, do hedonismo, do indiferentismo e do proselitismo de numerosas seitas, de religiões animistas e de novas expressões pseudo-religiosas” (Palavra proferidas na abertura da Conferência Episcopal de Aparecida).

RESUMINDO …

Os testemunhos de Papas e Bispos citados afirmam:

A respeito dos novos movimentos religiosos.

1) O crescimento dos novos grupos religiosos na América Latina é problema muito grave, se não o mais grave de todos.
2) As seitas avançam porque se empenham tenazmente por conse­guir novos adeptos. Os filhos deste século são mais prudentes do que os filhos da luz (Lc 18, 8), diz o Senhor, constatando um fato que até hoje se verifica.
3) Além disto, os novos movimentos religiosos contam com grande respaldo financeiro, provavelmente vindo do estrangeiro na intenção de dis­solver a unidade religiosa que fortalece os povos católicos da América Latina.
4) Tais movimentos, quando se envolvem na política, têm preten­sões de chegar à liderança do país respectivo.

A respeito dos católicos

1) As populações pobres e simples da América Latina se deixam facilmente arrastar, por falta de instrução religiosa; não têm como discernir verdade e erro nas pregações que Ihes chegam pelo rádio e a televisão.
2) Em conseqüência requer-se a formação de agentes de Pastoral capazes de ajudar os irmãos a distinguir verdade e erro em matéria religiosa. Esta exigência é de primeira linha: intensificar a Catequese do povo de Deus.

O Documento de Aparecida propõe a necessidade de se restaurar a Apologética, que é a ciência teológica destinada a responder às objeções de anticatólicos; o povo pede resposta para os ataques a que ele assiste nos meios de comunicação.

3) Faz-se mister também utilizar melhor a imprensa escrita e falada (rádio, televisão, jornais, revistas … ), pois esses meios gozam de enorme influência sobre o público. Nosso aparato tecnológico ainda deixa muito a desejar quanto à quantidade e qualidade.
Dizer estas coisas não é querer fazer propaganda ou defesa do seu clube, mas é testemunhar o amor à Verdade, que é Cristo.

4) Com sinceridade o Papa João Paulo II reconhece que o contratestemunho de irmãos católicos terá decepcionado vários daqueles que acabaram deixando a Igreja. Na realidade, cada católico é portador da responsabilidade do seu nome, mas, queira-o ou não, responde tam­bém pela Igreja e pela vivência religiosa que ele adota; quem é fiel, pode lucrar muitos irmãos, mas quem é infiel não o é tal só para seu dano, mas também para o dano de outras pessoas. – Tal é a grandeza da vida cristã. São Paulo exprime esta solidariedade nos seguintes termos: “Somos para Deus o bom odor de Cristo, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem. Para uns, odor que da morte leva para a morte; para outros, odor que da vida leva à vida” (2Cor 2, 15s).

Revista “Pergunte e Responderemos”
Ano XLIX – Março 2008 – n0 549

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