Dom José Antonio Aparecido Tosi Marques
Arcebispo de Fortaleza
Centro e fundamento da fé cristã é o Mistério Pascal do Senhor. Jesus, o Filho do Deus vivo, se fez homem para trazer ao homem a participação na vida divina, vida em plenitude. Deu Ele sua vida, amando até o fim. Por isso o poder divino se manifestou em vitória sobre a morte na ressurreição do Filho de Deus, primogênito de uma multidão de irmãos. O dom do Amor é derramado nos corações humanos e será vivificador.
Centro da celebração litúrgica da Igreja é o Mistério Pascal de Cristo, revivido nos ritos do culto, participação no Dom de Deus pelo Seu Filho. Ponto de partida, caminho de vida e meta de chegada é o Mistério Pascal do Senhor – comunhão de vida dos homens com Deus e entre si.
A comemoração anual, semanal ou diária põem em contato com o Senhor vivo e vivificante.
A comemoração anual se realiza na Solenidade da Páscoa da Ressurreição, precedida de uma Semana Santa e uma Quaresma de preparação. A comemoração semanal pontua o Domingo, Dia do Senhor, dia da ressurreição, a vitória da Vida em Cristo – Deus e homem, Deus para a vida do homem. A comemoração diária tem seu centro na Eucaristia – sacramento da comunhão na morte e ressurreição do Senhor.
Não há culto mais perfeito, não há festa maior, nenhuma graça poderá superá-la.
Por isso a atenção de toda a Igreja, de todos os fiéis discípulos de Jesus, se volta para viver com intensidade e profundidade a participação na Páscoa do Senhor: tempo de conversão, de nova vida, de comunhão com Deus e nEle comunhão de todos os irmãos.
Neste contexto é que se propõe a já tão conhecida “Campanha da Fraternidade”. Como conseqüência do Amor de Deus que nos faz seus filhos, quando torna nosso irmão homem, Seu próprio Filho, é que nos tornamos todos irmãos no mais pleno sentido.
Criados para a comunhão no amor, divididos pelo mistério do egoísmo, somos regenerados no dom da vida em Jesus: o que deu a vida inocente por todos, atraindo o coração humano para a força do amor.
A proposta de se fazer uma “Campanha” para a fraternidade quer ser a expressão da vitória do Amor Vivo de Deus sobre a indiferença e mesmo a divisão e violência humanas.
Considerando em que a vida humana é agredida, a união entre as pessoas é ferida, a convivência da comunidade humana é pervertida e violentada, somos chamados à fonte da mesma vida e ao poder regenerador do amor. Temos um horizonte de esperança e felicidade: retornando ao Pai comum e renovando a fraternidade de todos.
Neste 2008, após nos termos voltado em anos anteriores para muitos aspectos carentes de verdadeira fraternidade humana, nos colocamos diante do horizonte maior do valor da própria vida. Primeiro e absoluto dom dado pelo Criador e Salvador, encontra-se ela mesma em questão: “Escolhe, pois, a vida”(Dt 30, 19).
É urgente esta escolha justamente porque vivemos hoje com complacência geral e até “legal” uma verdadeira Cultura de morte. A defesa da vida se faz premente. Certamente como nunca antes na história da humanidade tanto se tem poder sobre a vida e tanto ela é desprezada e ferida. O desenvolvimento humano tem sido extraordinário em sua capacidade de manipular os seres até a vertigem de se considerar como um deus que de tudo pode dispor, mesmo dos elementos mais fundamentais da existência humana. Mas, talvez mais do nunca antes a humanidade se mostra incapaz de cuidar de si mesma, da vida nas pessoas e em toda a natureza. A destruição tem sido cada vez maior a partir da manipulação que a humanidade faz de si, dos seres e da própria terra em que vive. A busca de uma vida cada vez mais plena e satisfatória, vida sem referências mais profundas, tem causado desgaste, fragmentação e morte.
A “Campanha da Fraternidade 2008″ vem chamar à fraternidade e defesa da vida, buscando nas fontes mais profundas da própria existência os motivos e as energias para se recompor uma Cultura da Vida, que reverta a situação de morte que enfrentamos. A promoção da Cultura da Vida tem seu fundamento primeiro no próprio Amor do Criador, Senhor da Vida que cria para a vida.
“O primeiro compromisso desta Campanha da Fraternidade é o de assumir a espiritualidade da vida. Desenvolver a espiritualidade da vida é crescer na fé, que se manifesta no amor a Deus e aos irmãos, respeitando a sacralidade de cada pessoa, imagem e semelhança de Deus e morada da Trindade”. (Texto base da CF 2008) Decorre desta espiritualidade a consciência do valor sagrado da vida. Este valor sagrado se exprime numa educação afetivo-sexual que seja exercício do verdadeiro amor na promoção de uma visão integral da vida humana e de uma cultura do amor. A valorização e reforço da família como primeiro natural relacionamento de vida e amor na fidelidade e solidariedade.
Para enfrentar a desvalorização da vida, feita descartável e manipulável por interesses mesquinhos, nada melhor que a promoção de práticas que revelem o valor da vida. É chegada a hora de fazer valer a solidariedade humana que envolva as pessoas e se torne ação política para estruturas que defendam e promovam a vida.