São Paulo, heróico arauto de Cristo

Dom Estevão Bettencourt, osb

Texto extraído do jornal “O testemunho” da arquidiocese do Rio de Janeiro

São Paulo é o discípulo de Cristo que por excelência compreendeu o mestre e o anunciou ao mundo. Vejamos algo de sua biografia e de seus traços doutrinários.

1- Esboço biográfico

Paulo, que nasceu no início da era cristã, era filho de família judaica que morava em Tarso (Turquia de hoje). Aos 15 anos de idade, foi para Jerusalém a fim de estudar as escrituras na escola de Gamaliel. Aprendeu também o mister de curtidor de peles para ganhar o pão cotidiano. Tornou-se zeloso perseguidor dos cristãos e foi por Cristo derrubado na estrada de damasco quando ia ao encalço deles. Converteu-se ao Evangelho e fez três viagens missionárias pela Ásia menor (Turquia) e a Grécia, ao fim das quais foi detido em Jerusalém como traidor da Lei de Moisés, que Paulo dizia ter cedido o lugar ao Evangelho. Foi levado a Roma para ser julgado por César. Posto em liberdade, seguiu provavelmente para a Espanha e viajou novamente pelo Oriente do Mediterrâneo. Finalmente preso mais uma vez (já que o nome de cristão se tornara ilícito desde 64), foi encarcerado em Roma, onde sofreu a decapitação em 67, após ter escrito em sua última carta: “combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4, 7).

2- Linhas doutrinárias

Apresentaremos quatro pontos:

2.1 – Cristianismo e Judaísmo

Muitos judeus, convertendo-se a Cristo, pensavam fazer do Cristianismo uma seita judaica ou um ramo do Judaísmo, tal era a facção dos “judaizantes”: o grande mérito de São Paulo foi sustentar que o Cristianismo é a plenitude e a consumação do Judaísmo. A Lei de Moisés, que os judaizantes queriam impor aos pagãos convertidos, dizia Paulo, foi apenas uma pedagogo que preparou o povo judeu para chegar à escola de Cristo. Uma vez chegado o Messias, a Lei cumpriu seu papel e se retira. Com outras palavras, poderíamos dizer: Jesus veio consumar a lei ou dar o cumprimento a tudo aquilo que a Lei continha em esboço: circuncisão, maná, Cordeiro de Páscoa (cf. Mt 5, 17; Jô 5, 46). Ver também carta aos Gálatas.

2.2 – Justificação pela fé

São Paulo afirma a justificação pela fé (cf. Ef. 2, 8-20).

Que é “Justificação”? É “fazer justo, amigo de Deus; entrar na filiação divina”. Ora isto é gratuito, não merecido pelas boas obras do indivíduo. O protótipo deste caso é o de Abraão que, sem saber por que, foi escolhido por Deus para ser o pai de muitos povos (cf. Gl 3, 1-9). Outra coisa é “salvar-se”; a salvação requer persistência, que deve traduzir-se em boas obras, como ensina São Tiago (Tg 3, 14-26). A fé sem obras é morta, é a fé do demônio. Em suma: São Paulo tem em vista a entrada na vida cristã, que é gratuita, bastando que o indivíduo creia no dom de deus; São Tiago, ao contrário, tem em vista a perseverança e a consumação da vida cristã, que exige fé e obras correspondentes.

2.3 – “Em Cristo Jesus”

Esta expressão que ocorre 164 vezes no epistolário Paulino caracteriza bem o cristão. A Igreja não é uma academia, mas é um Corpo Místico, cuja cabeça é Cristo e cujos membros são os fiéis (cf. 1Cor 12, 12-29), imagem semelhante a da videira em Jô 15, 1-5. Nesse corpo, Cristo continua a desenvolver sua vida: “Já não sou eu que vivo, Mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20) e “Completo em minha carne o que falta a Paixão de Cristo” (Cl 1, 24). Essa comunhão de vida com Cristo é tal que São Paulo chega a criar neologismos para exprimi-la: “con-vivificou nos com Cristo, con-ressuscitou nos com Cristo, fez nos coassentar com Cristo nos céus…” (Ef 2, 4-6). Isto tudo se deve ao Batismo, que nos enxerta em Cristo, fazendo-nos morrer com Ele para o pecado, e ressuscitar com cristo para uma vida nova (cf. Rm 6, 1-23). Não se entenda estes dizeres como meras expressões metafóricas ou poéticas; elas têm significado ontológico, exprimindo a união da vida real com a vida real. Tal é a riqueza do cristão, que aliás São Paulo também define como um vaso de argila portador de um tesouro (cf. 2Cor 4, 7): A comunhão de vida com Cristo se estende a todos os cristãos, de modo que formam a comunhão dos santos ou a comunhão com os santos méritos de Cristo; São Paulo, referindo-se às sua tribulações, dizia aos corintios: “A morte de Cristo em mim, para que a vida de Cristo esteja em vós” (2Cro 4, 12).

2.4 – “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 10)

A união com cristo é que dava força a Paulo: Ele se sentia malquisto, perseguido, rebotalho, atormentado por um espinho na carne e pediu ao Senhor que o aliviasse; em resposta foi lhe dito: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder”. Concluiu, então, Paulo: “Prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas para que pouse em mim a força de Cristo” (cf. 2Cor 12, 7-10). Deus se serve de quem Ele quer para fazer a sua obra salvívica neste mundo. O que importa é ter a humildade de aceitar ser um frágil instrumento totalmente dedicado ao serviço de Cristo na sua Igreja.

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