Sou de Quem?

Dom José Alberto Moura

O  Apóstolo Paulo chama a atenção dos coríntios sobre suas facções e divisões. “Cada um afirma: ‘Eu sou de Paulo’ ou ‘eu sou de Apolo’ ou ‘eu sou de Cefas’ ou ‘eu sou de Cristo’. Será que Cristo está dividido?” (1 Cor 1, 12-13). Na comunidade, embora haja diversas lideranças, grupos, comunidades, organizações, fazem-se necessários o olhar e a união de todos para a promoção do bem comum. Caso contrário, a rivalidade vai destruir a convivência sadia e não vai se conseguir o benefício de todos. Onde há exclusão significa haver falta de união e mútua colaboração para a promoção de cada um.

Na comunidade religiosa, deve-se primar a união de esforços para se promover o bem dela mesma e se atingir sua finalidade de evangelizar a todos, colaborando para uma sociedade mais justa e fraterna. No que tange à política, não podemos ficar longe disso. Partidos, pessoas, programas e ações, mesmo respeitando-se o próprio de cada um, devem se unir para a ação, o serviço melhor possível à sociedade. A “polis” está muito à mercê de vontade ou falta de vontade de políticos e de políticas muitas vezes interesseiras e facciosas, tendendo a favorecer quem está no poder e usa dele para benesses de seus padrinhos ou amigos.

Na somatória, o poder econômico tem levado a melhor e ditado muito as regras do jogo, em detrimento de maiorias sofredoras. Sem terra, sem teto, quilombolas, negros, crianças, mulheres, índios, excluídos e sem poder sofrem muito. São explorados mesmo na época da propaganda eleitoral. Saber votar é preciso, mas o discernimento não é fácil, tantas são as decepções com políticos e promessas eleitoreiras. Às vezes, candidatos comprometidos realmente com o bem das causas sociais não têm condição econômica para se apresentarem e fazerem conhecer-se por amplo eleitorado, ruindo suas possibilidades de eleição.

A história dos candidatos deveria pesar para o eleitorado, olhando não seus interesses particulares mas os da população mais carente. Na somatória dos espaços e compromissos comunitários, deveria haver a consciência da cidadania tanto para os candidatos às eleições políticas quanto a dos votantes. O bem comum deveria prevalecer em todas as ações de cada um. As palavras de Paulo valem para todos: “Sejais todos concorde uns com os outros e não admitais divisões entre vós” (1 Cor 1, 10). As diferenças entre carismas, propostas, grupos e organizações deveriam ajudar o todo e não atrapalhar o bem maior dos cidadãos.

Vale muito mais alguém trabalhar para uma firma de que ela é sócia do que simplesmente pensar no salário que alguém dela pudesse lucrar como empregado. A comunidade é nossa. A sociedade é de todos. O grupo é de seus membros. Mas todos, solidários, constroem o próprio futuro promissor com a colaboração de cada um com a causa comum. Podemos e nos faz bem perguntar: “Somos de quem e para quem trabalhamos?”. Caminhando juntos, mas querendo fazer prevalecer os próprios caprichos, somos atropelados por interesses às vezes mesquinhos e sem frutos para nós mesmos. Se cada um quiser andar com o próprio barquinho para atravessar um oceano imenso é muito mais arriscado do que todos navegarem num grande navio com recursos técnicos mais seguros. Em nossa caminhada existencial, salvamos o planeta e a nós mesmos com todos os recursos colocados em comum.

Dom José Alberto Moura, 64 anos, da Congregação dos Sagrados Estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo (CSS), é Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (Norte de Minas Gerais), Presidente da Comissão Episcopal Pastoral (CEP) para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e primeiro Vice-Presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic).

Deixe uma resposta