O mercado da fé
Se alguém tivesse dúvidas e quisesse conferir se realmente a Bíblia é inspirada por Deus, talvez fosse suficiente lembrar o que São Paulo escreveu nos primeiros anos da Igreja, e verificar como suas palavras conservam, ainda hoje, a sua validade: «Há pessoas mentalmente corrompidas, alheias à verdade, que fazem da religião uma fonte de lucro. De fato, a religião é grande fonte de lucro, mas para quem sabe se contentar, já que nada trouxemos ao mundo e dele nada poderemos levar.
Se temos o que comer e com que nos vestir, fiquemos contentes com isso. Os que se afadigam para enriquecer, caem na armadilha da tentação e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que precipitam as pessoas na ruína e na perdição. A cobiça é a raiz de todos os males» (1Tm 6, 5-10).
Há vários anos, na Itália, ao visitar uma das inúmeras e artísticas igrejas da Cidade Eterna, deparei-me, no portal da entrada, com uma sentença de Jesus, escrita em letras garrafais: «Minha casa é casa de oração». Logo abaixo, porém, alguém havia acrescentado, maliciosamente: «Mas vocês a transformaram num covil de ladrões» (Mt 21, 13).
Lembrei-me deste fato ao constatar o que fazem e como agem algumas denominações religiosas para aumentar seus lucros e posses. Numa sociedade que privilegia e absolutiza o mercado, parece que nem as Igrejas conseguem superar a tentação de manipular a fé, transformando-a em objeto de comércio.
Para um número cada vez maior de pessoas, a crença religiosa passou a ser vista, de acordo com a situação peculiar de cada um, como uma catarse para se livrar de problemas de consciência relacionados com a ética e a psique, um trampolim para subir na vida, uma agência de empregos milionários ou uma casa lotérica onde todos ganham e ninguém perde. O deus que se procura mais parece um “quebra-galhos” ou um “tapa-buracos”. E quando ele falha, porque não realiza as nossas expectativas, abandona-se a religião, ou sai-se por aí em busca de outra mais confiável e segura -, quando não se acaba na depressão ou no ateísmo. É a religião de quem pretende sentir-se em paz com Deus e consigo mesmo, sem se importar com a vida que leva e com a renovação da sociedade.
De uns anos para cá, até parece que uma das formas mais fáceis de enriquecer é… fundar uma religião! A “teologia da prosperidade” substituiu a “teologia da cruz”! O Jesus que alguns líderes religiosos pregam pouco ou nada se assemelha ao Jesus do Evangelho. De acordo com eles, quem aceita a fé seria transportado deste “vale de lágrimas” que é a vida da maioria da população, para um autêntico “paraíso terrestre”, onde «não haverá mais morte nem luto nem lágrimas nem dor» (Ap 21, 4), no estilo e ao gosto de alguns partidos políticos que combatem a religião, mas alardeiam as mesmas promessas.
Para Jesus, pelo contrário, os bens que nos enriquecem de verdade e nos tornam grandes diante de Deus, estão sempre radicados no amor, que é serviço, partilha e comunhão. Não é acumulando, mas partilhando que se alcança a vida, a felicidade e a ressurreição: «Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, transforma-la-á em vida eterna» (Jo 12, 24-25).
Na antiga filosofia escolástica, havia um princípio cuja validade é mais atual do que nunca: «A corrupção do ótimo é péssima». Com outras palavras, os nossos avós diziam a mesma coisa: «Quanto maior a altura, maior o tombo!» É o que acontece com alguns líderes religiosos quando perdem o sentido de sua missão e transformam a religião numa empresa: constroem palácios e impérios econômicos que bradam vingança ao céu, às custas do dízimo de um povo sofrido e simples, que é incentivado a dar a Deus – mas a qual Deus? – a cédula maior que tem na carteira…
Mas já que não existe bem-estar social e econômico sem saúde, ultimamente algumas Igrejas passaram a se apresentar como “casas de milagres”, oferecendo curas para todo tipo de doenças. Há padres e pastores que, em dado momento da celebração ou do culto, se sentem autorizados a dizer: «Deus me faz entender que, neste momento, há alguns dos presentes sendo curados do câncer, da cegueira, da artrite…».
Ao invés de transformar a fé numa busca ansiosa do maravilhoso e do extraordinário, quando não da magia e da superstição, melhor seria ter presente que a cura e a libertação acontecem no exato momento em que descansamos na vontade de Deus, certos e conscientes de que Ele é sempre e somente amor. Então os milagres se sucedem e a vida se transforma numa explosão de graças…
Dom Redovino Rizzardo, cs
Bispo Diocesano de Dourados-MS