“Não tenham medo” (Mt 28,5)
Quem se habilita a fazer um estudo profundo do documento da V Conferência do Episcopado da América Latina tem o prazer de encontrar as seguintes palavras de ordem: “não tenham medo” (Mt 28,5). Como às mulheres na manhã da Ressurreição nos é repetido: “Por que buscam entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5). Os sinais da vitória de Cristo ressuscitado nos estimulam enquanto suplicamos a graça da conversão e mantemos viva a esperança que não defrauda. O que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as tarefas que devemos empreender, mas todo o amor recebido do Pai, graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo” n.14. Vai e “anunciai a Boa Nova a toda a criatura” (Mc 16, 15-16).
Com este encorajamento o missionário, segundo testemunha Giorgio Paleari no seu livro Espiritualidade e Missão, precisa carregar uma mensagem tendo a certeza de que está enraizada dentro de sua própria vida. Quem gerenciar seus propósitos dentro da V Conferência do Episcopado Latino Americano (13-31 de Maio de 2007) se depara com o seguinte: “à grande tarefa consiste em conservar e alimentar a fé do povo de Deus e recordar aos fiéis deste continente que, em virtude de seu batismo, são chamados a serem discípulos e missionários de Jesus Cristo” n.7. “Com desafios e exigências, abre-se passagem para um novo período da história, caracterizado pela desordem generalizada que se propaga por novas turbulências sociais e políticas, pela difusão de uma cultura distante e hostil à tradição cristã e pela emergência de variadas ofertas religiosas que tratam de responder, a sua maneira. Não podemos ignorar, a sede de Deus aumenta de cada vez mais” n.10. Daqui a necessidade de se falar do valor da fé.
Esta pequena palavra é um patrimônio que assegura o que cremos não como usufruto, vale dizer: com direito que se confere a alguém para um determinado tempo, mas é a realidade do valor do nosso Amém, a alegria do nosso Aleluia, e a riqueza do brilho de nossa Oração. Ela (fé) é a grande dádiva que empolga e atrai cada pessoa que a professa com liberdade. É uma anuência pessoal a Deus que na sua infinita misericórdia se revela através de seus desígnios de amor, executados num compromisso que nos leva a aderir e a confiar. O (A) missionário (a) é por excelência o homem/mulher da fé. Em sua estrada, vereda, via, trilho é o primeiro a mostrar a direção, o rumo, o destino de quem quer seguir “o Caminho a Verdade e a Vida” (Jo 14,6), Jesus Cristo. No âmago e no cerne de sua vocação reina a alegria de pregar a palavra de Deus. Nos autos de seu sim a Deus está o promover, custear e anunciar o Evangelho, mesmo que isto lhe custe os maiores sacrifícios e imolações das mais simples ás mais cruentes. O missionário tem assegurado em seu coração as palavras do Mestre: “Vinde após mim e eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19).
Eis, pois que urge a urgência da atividade missionária como radical novidade de vida trazida por Cristo e vivida pelos seus discípulos. Esta nova vida é dom de Deus e, ao homem, é-lhe pedido que acolha e desenvolva se quiser realizar integralmente sua vocação, conformando-se a Cristo. Esta são as palavras de ordem do Papa João Paulo II, impressas na Redemptoris Missio n.º 7. A fé exige a livre adesão do homem, mas tem de ser proposta, já que “multidões têm o direito de conhecer as riquezas do mistério de Cristo, nas quais toda a humanidade – assim acreditamos nós – pode encontrar, numa plenitude inimaginável, tudo aquilo que procura, às apalpadelas, a respeito de Deus, do homem, do destino, da vida da verdade e da morte (…). É por isso que a Igreja conserva bem vivo o seu espírito missionário, identificando-se com o momento histórico que lhe foi dado viver. Assim nos aconselha a Encíclica Redemptoris Missio n.º 9.
O Papa Bento XVI, por sua vez, atesta na Deus Caritas Est n.º 1: “Quando cremos no amor de Deus, então podemos exprimir a opção fundamental de sua vida”. No início do ser não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, assim, o rumo decisivo. A Igreja nos é apresentada como uma força viva, “nela pulsa a dinâmica do amor suscitado pelo Espírito de Cristo” (Deus Caritas Est, 28). Daí que o grande incentivo de Jesus, após sua Ressurreição e Ascensão ao Céu, encorajou a todos com suas palavras proféticas: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28,20), intensificando assim o grande desejo de Evangelizar. Chegou à hora. Temos que partir. Nossa certeza é: Somos a verdade de que o sepulcro está vazio, isto é: “Surrexit Dominus de sepulcro Qui pro nobis pependit in ligno alleluia” (ressuscitou do sepulcro o Senhor que por nós esteve suspenso no madeiro. Aleluia (Ecclesia de Eucheristia, n. º 7). Com a auto-estima destas palavras nossa missão é “mostrar o caminho da salvação”(Missal Romano – Prefácio Advento I).
No seu húmus histórico a Igreja é povo de Deus, comunidade constituída por comunidades que lutam pela vida a partir de sua fé. Com este enfoque, a Igreja e Missão unem-se com uma força e estreiteza especial que é impossível pensar uma sem a outra. O desejo é um só, “lançar a redes para as águas mais profundas” (Lc 5,4). Fiel à ordem do divino Mestre, a Igreja, envia operários qualificados ao mundo inteiro e, através desse trabalho missionário, ela mesma se constitui, consolida e constrói como comunidade de fé, esperança e amor, fazendo do seu lema, o Batismo como fonte de todas as vocações. Em seu coração o missionário tem a 1.ª Comunidade Missionária – A Trindade dinamizando a Igreja para ser toda Missionária. Por isso o missionário precisa de auto-estima, encorajamento, somar forças com a finalidade de edificar a Igreja (Ad Gentes, 28). Giorgio Paleari, no livro acima citado nos honra e enobrece afirmando: “Sabemos por excelência que a Igreja no Brasil está vivendo um momento de graça”. A missão é vivida intensamente nas situações missionárias internas e, sempre mais, está se abrindo em sua dimensão universal. O que sustenta o missionário é o grande amor a Jesus Cristo e uma paixão pelo seu Reino. A fé nos diz que o Presépio e o Sepulcro estão vazios. Diga isso a todos.
Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo
Professor do Seminário Arquidiocesano de Diamantina e da PUC-MG/ Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina